Arte, psicologia e curanderismo para curar do racismo

Castiel Vitorino inaugura sua primeira exposição individual com a Romaria dos Testículos Femininos

É na encruzilhada entre arte, psicologia e curandeirismo que Castiel Vitorino Brasileiro vem instalando sua obra. Autoidentificada como "bicha preta", foge das concepções binárias de gênero (masculino x feminino), questiona o racismo e o machismo estruturais na construção sociedade brasileira, que objetifica e descarta os corpos negros e LGBTI.

Nesta terça-feira (11), a artista capixaba que vêm expandindo seu trabalho para além das fronteiras do Espírito Santo, realiza sua primeira exposição individual: O Trauma é Brasileiro, que fica até 24 de agosto na Galera Homero Massena, no Centro de Vitória, com visitação gratuita.

O título da obra indica alguns aspectos do que Castiel vem desenvolvendo nos últimos anos. Aluna nos períodos finais de Psicologia, de onde vem a palavra e os estudos sobre "trauma",  encontrou lá não só bases importantes para um pensamento crítico como também muitas ausências. A academia e especificamente a Psicologia eurocêntricas não dão conta de explicar nem de tratar os traumas de uma sociedade colonial como a brasileira, e menos das pessoas e corpos subalternizados, como os negros e LGBTI. Mas como então, diante de tanta violência física e simbólica, essas pessoas sobrevivem?  

Desta questão vem a necessidade de buscar suas próprias origens, no território onde cresceu, na Fonte Grande em Vitória, com suas características de quilombo urbano. "Ao longo da graduação, fui aprendendo que a cura não existe, mas as pessoas racializadas, mesmo sem terem a ajuda da psicologia na promoção de sua saúde, se curam e a afirmam a cura. Elas têm outro referencial de saúde. Com as benzedeiras aprendi que a Cura é uma experiência de saúde perecível e efêmera, que precisa se modificar, assim como nosso corpo", diz a artista.

Ao afirmar que O Trauma é Brasileiro, também permite uma ambiguidade com seu próprio sobrenome, denunciando que a exposição traz uma grande carga de subjetividade desde suas experiência de vida, numa obra embora ainda muito incipiente mas construída com base num diálogo permanente com aquelas e aqueles sofrem as mesmas violências de gênero e raça mas que querem passar da denúncia à cura, sem obviamente deixar de lado a primeira mas pensando em como manter a saúde física e mental diante do rolo compressor capitalista e colonial.

Castiel Vitorino Brasileiro nomeia sua pesquisa em Psicologia como Clínica da Efemeridade, entendendo que os processos de promoção de saúde e prática clínica não são propriedade exclusiva de psicólogos, pois também acontecem a partir de benzedeiras e outros agentes em suas comunidades. É assim que ela propõe fazer de sua exposição não apenas um espaço para visita e fruição da arte, mas também para experiências clínicas, que devem ser agendadas previamente com Castiel. No dia 2 de julho, às 19h, haverá também um bate-papo com a artista.

Falta dizer que o lançamento de O Trauma é Brasileiro no dia 11 começará de forma não-convencional e provocativa - como costuma ser característica da arte. Castiel convida para a Romaria dos Testículos Femininos, às 19h, saindo do Bar da Zilda, reduto de festividade da cultura negra no Centro da cidade, com direção à galeria onde se (de)marca a estreia da exposição.

Num vídeo publicado em suas redes com o título "a heresia é um testículo feminino", ajuda a entender a provocação. Diante de um quadro de sala de aula, ela aponta a nação brasileira como uma triangulação entre cis/heteronormatividade, racismo e cristianismo. "A sobrevivência para nós como subalternizados nesse tempo e espaço colonial, é conseguir produzir um outro espaço nesse território que nos despatrializa. Então esse espaço pode e tem sido construído, pelo menos por mim, numa relação triangular de desobediência, heresia e malandragem. E é nessa integralidade que a bicha, a travesti, surge e consegue sobreviver, nessa relação de negociação".

AGENDA CULTURAL

Abertura da exposição O Trauma É Brasileiro, de Castiel Vitorino Brasileiro

Quando: Terça-feira, 11 de junho. Abertura da galeria às 19h, mesmo horário da saída da Romaria dos Testículos Femininos às 19h30 do Bar da Zilda com direção à exposição. Visitação aberta de 12 de junho até 24 de agosto de 2019 de segunda a sexta-feira, das 9 às 18h, sábado, das 13 às 17h.

Onde: Galeria Homero Massena - Rua Pedro Palácios, nº 99 - Cidade Alta, Centro de Vitória, Vitória - ES

Visita de grupos

Mediante agendamento com a equipe da Galeria Homero Massena - (27) 3132 8395 / educativoghm@gmail.com

Experiências Clínicas

Mediante agendamento com a artista - (27) 997 395 420 / castielvitorinob@gmail.com

Mesa de Conversa com a artista

02 de julho, às 19h

Lançamento do Catálogo da Exposição

23 de julho, às 19h

Site e redes sociais

Blog: otraumaebrasileiro.blogspot.com

Instagram: @castielvitorino

Facebook: @psicotendencia


 

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Livro e sarau vão homenagear Raul Seixas em Vitória

O Sarau da Barão realiza edição especial, contando com lançamento de obra de Vitor Cei sobre o Raulzito

Curta-metragem infantil capixaba é selecionado para festivais internacionais

Coluna CulturArte traz novidades no Conselho de Cultura, na Academia de Letras e novos discos lançados

Novo disco do Dead Fish é um tapa na cara de Bolsonaro e seus asseclas

Rodrigo Lima, vocalista da banda capixaba que é referência no hardcore nacional, fala do álbum Ponto Cego

Dentro da escola, poesia ganha letras e formas

Projeto Arte e Resistência incentiva literatura marginal e poesia visual para jovens em Vitória