As bancas não vendem mais revista nem jornais

Com crise do mercado editorial, espaços das bancas de revista são ressignificados no Centro de Vitória

Picolé, guarda-chuva, recarga para celular, salgadinho, refrigerante, todo tipo de coisa se encontra hoje nas bancas de revista. Difícil mesmo é achar revistas e jornais. O advento da internet e outras mudanças socioeconômicas vêm provocando mudanças significativas no mercado editorial, com a queda abrupta das vendas dos veículos impressos de comunicação. Mas as pequenas estruturas das bancas, localizadas nas calçadas e esquinas centrais, seguem sendo pontos privilegiados para o comércio, e se reinventam.

Num passeio pelo Centro de Vitória, por exemplo, encontramos diversas situações e histórias. Mas comecemos pelas exceções. Dona Lúcia e a Banca Natal são um exemplo de banca raiz, onde trabalha há 30 anos na Praça Costa Pereira. Maria Lúcia Oliveira Veloso começou junto com o marido, Antônio Carlos Figueiredo, que já era do ramo. Ele faleceu há sete anos, mas a esposa segue mantendo o espaço, onde vende diversas publicações e alguns serviços como recarga de celular, que ajuda bem pouco nos recursos.


Foto: Leonardo Sá

As vendam caíram muito, mas ela não pensa em se desfazer do espaço. “Eu estou fazendo o que eu gosto. Ultimamente o que mais vende é palavra cruzada, vendia muito sobre trabalhos manuais, mas agora o povo tá tirando da internet. Coleções também vendem bem. Mas não dá pra se manter disso”, diz Dona Lúcia, que também é pensionista e usa as vendas como fonte de renda complementar. A convivência com as pessoas do entorno e os clientes é o que mais lhe motiva em seguir ali, disposta a um sorriso, uma boa prosa e uma possível venda.

Não muito longe dali, a Banca Novaes também está cheia de revistas nas prateleiras, mas as vendas são praticamente inexistentes. São sobras de publicações oferecidas para vendas consignadas há tempos atrás, mas que a editora responsável não foi buscar e ali ficaram. O negócio agora é outro. Uma mesa com computador presta serviços de informática e cópia de CDs, discos e outros formatos.

Já Neuza Nascimento Santos comercializa há três meses salgados, pasteis, caldo de cana, água, refrigerantes, doces e outros tipos comes e bebes numa ampla calçada na avenida Princesa Isabel. Baiana que mora no Espírito Santo há 10 anos, ela vendia cocada numa barraca de rua, mas resolveu ampliar os negócios. “A banca é um lugar em que estou mais protegida da rua, da chuva, do sol”. Ao se deparar com o ponto vazio, se interessou e perguntou nas redondezas até conseguir o contato do dono e fechar um aluguel.


Foto: Leonardo Sá

No novo ponto, deixou de lado a cocada, que precisa de muito trabalho e ser servida sempre fresca, preferindo outras opções mais práticas e rentáveis, com foco na informática, para sustentar o espaço, localizado ao lado de um pequeno jardim construído por um comerciante que vendia flores anteriormente na banca. Nos últimos tempos, ela soube que passaram quatro outros vendedores pelo espaço, mas nenhum conseguiu se estabelecer a longo prazo.

Na Praça Costa Pereira, seu irmão mantém a tradição da venda de cocada há mais de 20 anos com uma barraca. E também utiliza uma banca ao lado, onde comercializa redes para descanso.

Assim como eles, Evandro Santos Araújo alugou uma banca com outros objetivos que não vender jornais e revistas. A Banca da Cultura, próximo à Casa Porto, vem aos poucos se tornando um point de rua na região, com venda de comidas, bebidas e a garantia de boa música na vitrola, com som ambiente que transita pela MPB, rock, blues e outros. Dono de uma empresa que possui escritório no entorno, ele alterna as funções com a abertura da banca, onde desenvolve seu amor pela cultura e arte.

Trouxe os discos de vinis diversos que tinha em casa e os fez como decoração para as prateleiras, junto a algumas poucas revistas, que mantém lá por conta da pessoa jurídica do local apontar que é objeto de venda. Mas praticamente não há procura por elas. Também numa calçada ampla e privilegiada, com espaço para cadeiras e mesas, é ponto de parada para transeuntes e também moradores. 


Foto: Leonardo Sá

Ainda sobrou na fachada o escrito do antigo nome: Banca Cultura, que vendia revistas e jornais mas já chegou a ser até salão de cabeleireiro, sem sucesso. Aproveitando a conveniência do antigo nome, Evandro só adicionou o “da” no meio do nome. Quer dizer, não só. A Banca da Cultura é antenada, possui logomarca e página no Instagram e Facebook, além de uma programação semanal que costuma captar ideias trazidas pelos próprios frequentadores do local. 

Toda quinta-feira costuma trazer um evento especial em homenagem a algum cantor, banda ou ritmo, tocado no vinil. Já foram eventos dedicados a Belchior, Edith Piaf, Sérgio Sampaio. “A ideia parecia insustentável, de fazer toda semana, mas tá dando certo. Geralmente tem uma pessoa que ciceroneia, que é fã do artista, traz amigos, nós também chamamos nos canais da banca e fica uma coisa legal”.

Também já recebeu uma edição do Sarau da Barão, que acontece há cinco anos na rua ao lado, a Barão de Monjardim. Valorizar o Centro de Vitória como berço cultural é um dos objetivos, que fazem com que em pouco tempo a banca vá conquistando um pertencimento. Nesse sentido, lançou recentemente uma linha de camisetas e bonés com escritos relacionados com a cultura local. Devido à grande procura por vinis - os que decoram a banca são pessoais e não estão à venda - Evandro também fechou uma parceria com uma empresa para revender LPs novos.

Costuma abrir de segunda à sexta-feira, de 9h às 21h, embora às vezes dependa dos horários de Evandro em suas outras atividades profissionais. Pela proposta cultural, é uma das poucas bancas que permanece aberta depois das 18h, quando as ruas do bairro rapidamente se esvaziam de trabalhadores e consumidores que transitam até que as concentrações de pessoas se deem nos bares e espaços culturais.


Foto: Leonardo Sá

Hoje a maioria das bancas do Centro não abre nos fins de semana, quando eram bastante frequentadas, como ponto de encontro, conversa e aquisição das edições de sábado e domingo dos jornais, que eram as mais vendidas das semanas, e das revistas semanais, que recém chegavam com suas reportagens bombásticas.

Assim como o jornalismo não morreu com a redução do mercado editorial de jornais e revistas impressas, as bancas sobrevivem com ou sem elas, adquirindo novos sentidos.

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