As incertezas

A postura do presidente Jair Bolsonaro leva o governador Renato Casagrande a agir com cautela

Nos dois pronunciamentos feitos no dia de sua posse como governador do Estado, no dia 1º de janeiro, Renato Casagrande repetiu algumas vezes as palavras cautela e incertezas, reforçando-as com a afirmação de que no cenário atual existem grandes dificuldades de chegar a um porto seguro.

Apesar do tom negativo, ele destacou a abertura do diálogo com parcelas representativas da sociedade e lançou o olhar para os mais necessitados, marcando uma nova fase na gestão pública capixaba, oposta à postura imperativa do governo anterior. A esperança, portanto, está posta.

No mesmo dia, a vários quilômetros de distância de Vitória, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro gastou 10 minutos para ler seu discurso de posse, no qual afirma que pretende estabelecer um governo sem discriminação, aberto a todos os brasileiros.

Apesar do que poderia parecer uma abertura ao diálogo, em seguida o presidente disse que vai libertar o Brasil do socialismo, retornando ao tom da campanha eleitoral vazia de conteúdo, principalmente pela falta de um programa de governo capaz de dar um direcionamento à sua gestão, que possa reequilibrar as relações com os estados.

É justamente nesse contexto onde estão localizadas algumas das incertezas expressadas pelo governador Renato Casagrande, com destaque para o enorme passivo da União para com o Espírito Santo, que passa a ser uma das diretrizes do governo que se inicia no Estado, e a garantia da manutenção do processo democrático dentro da normalidade republicana.

Com um cenário político nacional em ebulição, um militarismo crescente e um governo central formado por uma equipe sem experiência na gestão pública, mais chegada ao improviso, é mais do que aceitável a cautela do novo governador do Estado, que, além disso, tem que acertar a máquina pública de forma a alcançar as camadas mais pobres da população, desprezadas no governo anterior.

Por aqui, Casagrande cancela convênios, reduz despesas supérfluas, promove uma varredura nos contratos e se prepara para ir à capital federal em busca de recursos, devidos, é bom frisar. Em Brasília, Bolsonaro, assina decreto no qual garfa R$ 8 do salário mínimo, contrariando o que foi aprovado na Lei Orçamentária, e coloca a demarcação de terras indígenas sob o controle do Ministério da Agricultura, historicamente subordinado a grandes proprietários de terras.

Um cenário onde o porto seguro ainda está encoberto por pesadas nuvens, configuradas, no Espírito Santo, pelo reequilíbrio das ações do governo a fim de ampliar a presença do Estado em áreas colocadas em plano inferior, como a dos servidores públicos, incluindo os policiais militares, e de promover um desenvolvimento econômico e social mais abrangente.

No plano federal, o reequilíbrio está na postura do próprio presidente da República, a fim de que assuma o papel para o qual foi eleito, de governar o País, tarefa que a cada dia parece mais difícil e que amplia a perspectiva de dificuldades ainda maiores não só para Renato Casagrande, mas para todos os brasileiros. 
 

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