Atingidos por crime da Samarco/Vale-BHP farão novo protesto após o Carnaval

Associações que se reuniram em Baixo Guando pretendem reunir 10 mil pessoas em março

Cerca de 150 representantes de várias associações de atingidos pelo crime da Samarco/Vale-BHP, em 2015, decidiram em reunião nesta sexta-feira (1), no município de Baixo Guandu (noroeste do Estado), fazer uma grande manifestação em março próximo, após o feriado do Carnaval, para protestar contra a demora na reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, que impactou também o Espírito Santo.
 
O protesto vai ter como alvo, principalmente, as três mineradoras e a Fundação Renova, que, segundo os atingidos, não estão cumprindo os compromissos assumidos no processo de reparação ambiental, material e sociais decorrentes do crime.
 
“A Fundação Renova, criada para reparar estes danos, está nos empurrando com a barriga e deixando de cumprir compromissos assumidos perante as autoridades”, criticou o presidente da Colônia de Pescadores de Baixo Guandu Z- 12, Cláudio Alvarenga. Para ele, não há outra alternativa senão a união de todos os atingidos para pressionar por soluções que estão sendo adiadas há mais de três anos.

O protesto em Baixo Guandu pretende reunir 10 mil pessoas e a intenção é atrair comunidades de Minas Gerais, desde Mariana, passando por todo o percurso do Rio Doce até sua foz, em Regência, Linhares, norte do Espírito Santo. A ideia é concentrar na praça São Pedro, com caminhada até a ponte Mauá, na divisa dos dois estados, onde será feito um abraço simbólico ao Rio Doce.

Representantes de 21 localidades mineiras e capixabas, especialmente de associações de pescadores, participaram da reunião desta sexta em Baixo Guandu. A palavra foi franqueada a todos e a voz unânime era de revolta contra a Fundação Renova, que já foi alvo de uma primeira manifestação no município no último dia 14 de janeiro, quando houve a paralisação da linha férrea da Vale durante 30 horas.

O prefeito Neto Barros (PCdoB), ameaçado de processo judicial pela Fundação Renova, reforçou seu inconformismo, reiterando críticas anteriores à demora nas soluções dos atingidos pelos rejeitos de mineração da Samarco. Para ele, a Fundação Renova está “ludibriando” os municípios e os atingidos pela crime de Mariana.

Neto Barros conclamou a todos pela união na luta pela reparação dos danos da Samarco. “Na verdade, somos todos atingidos. Falo pelos mais de 32 mil habitantes de Baixo Guandu, que, de alguma forma, foram impactados e esta situação se repete em dezenas de municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo”, ressaltou.

No protesto do dia 14 de janeiro, a linha férrea foi desocupada por medida judicial e com a promessas da Renova de responder às reivindicações dos atingidos em até 15 dias. Mas não foi o que ocorreu. “Este prazo terminou ontem [quarta-feira] e não obtivemos nenhuma resposta da Fundação Renova. Agora chegou a hora de traçarmos uma nova estratégia de ação”, reclamou Claudio Marcio Pereira, presidente da Colônia de Pescadores Z-12 de Baixo Guandu. Entre as demandas estão o pagamento de lucro cessante, o retroativo do auxílio emergencial e o reconhecimento de atingidos com processos paralisados.

Além das comunidades e pessoas afetadas, os gestores públicos também reclamam do descaso. Neto Barros alega que desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Baixo Guandu, o primeiro município capixaba a ser afetado, não recebeu nem um centavo da entidade responsável por indenizar as vítimas e reconstruir os locais afetados pelo crime socioambiental. “A Fundação Renova é uma farsa, está tentando ludibriar os atingidos pela lama da Samarco. Esta ameaça de processo só fortalece nossa luta contra o crime cometido em 2015 no Rio Doce e agora, com a grande tragédia de Brumadinho. É hora de darmos um basta em tanta inconsequência”, convocou.

Último protesto

Os cerca de mil manifestantes que ocuparam a Linha Férrea só saíram depois da promessa de resposta dentro de quinze dias por parte da Fundação Renova. Também tiveram que encerrar a ocupação por força de decisão judicial.
 
A interrupção da linha férrea durou 35 horas, tendo sido montado um acampamento improvisado, que recebeu apoio dos moradores das redondezas, que levavam água e alimentos. Mas por volta das 21h do último dia 15, os manifestantes decidiram suspender o protesto, diante da ameaça de multa de R$ 25 mil por pessoa, em caso de descumprimento da liminar. A desocupação dos trilhos foi acompanhada pela Polícia Militar e foi pacífica.

Ao retornarem para suas casas, em diversas cidades atingidas pelo crime da Samarco/Vale-BHP no Espírito Santo e Minas Gerais, os manifestantes aguardaram a resposta da Renova para os pontos da pauta de reivindicações, o que não aconteceu.

A pauta envolve, principalmente, questões relacionadas ao Auxílio Financeiro Emergencial (AFE) e ao reconhecimento de pescadores de diversas comunidades, que ainda não foram cadastrados, muitos deles, já recomendados pelo Comitê Intefederativo (CIF).

Há também pedido de “maior atenção a todos os pescadores na hora de fechar os acordos” e de reconhecimento de diversas de categorias de trabalhadores atingidos, como marisqueiros, vendedores de peixe, beneficiadores de pescado, agricultores, psicultores e pescadores de linha, tarrafo e barranco (esses três últimos considerados amadores).
 

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