Berço do samba capixaba sofre com a intensificação da violência do tráfico

Na noite dessa quarta-feira, comunidade da Piedade vivenciou mais um ataque, com casas incendiadas

Mais uma noite de terror foi registrada no Morro da Piedade, Centro de Vitória. Grupos criminosos invadiram a comunidade, por volta das 21 horas dessa quarta-feira (20), disparando tiros de fuzis, ameaçando moradores, incluindo crianças que tiveram armas apontadas contra suas cabeças, e ateando fogo em residências. O saldo nesta manhã de feriado é de tristeza e de mais uma ferida aberta no bairro, berço do samba capixaba, que tem enfrentado um esvaziamento ocasionado pelo medo.  

Dados do Instituto Raízes da Piedade, que desenvolve ações sociais na região, apontam que 32 casas foram abandonadas e mais de 180 pessoas deixaram o bairro após o acirramento da disputa pelo controle do tráfico. Segundo pesquisa da ONG, a previsão é de que até 2020 cerca de 70% dos moradores tenham deixado a região. 

Desde março de 2018, quando os irmãos Ruan e Damião Reis foram executados com mais de 20 tiros cada um, a região vem sofrendo com a onda de violência e muitos moradores já tiveram que deixar suas casas. Alguns, inclusive, receberam ameaças diretas com ordem de desocupação.

Segundo investigações em curso, as disputas vem se intensificando desde o ano passado, quando traficantes do Complexo da Penha e do Morro São Benedito resolveram expandir seus domínios para regiões do Centro, incluindo a Piedade e o Morro do Moscoso, que fazem divisa. Em janeiro deste ano, três jovens foram assassinados em plena praça pública no Moscoso.  

Vídeos gravados por moradores e que estão circulando nas redes sociais, nesta manhã de feriado de Corpus Christi, revelam cenas muito tristes com a destruição causada pelos incêndios criminosos. As cenas mostram imóveis assolados, com móveis e eletrodomésticos queimados e espalhados pelo chão. Não foram divulgadas vítimas dos ataques. 

O Instituto Raízes, que realiza trabalho sociais no bairro como forma de valorização do samba e com o intuito de reduzir o estigma que a violência tem causado na comunidade, divulgou uma nota em que lamenta profundamente o ocorrido no Morro da Piedade e Moscoso. “Nos solidarizamos com todos e todas moradores/as dessas comunidades. Informamos que nossa equipe está mobilizada e tem acompanhado todos os desdobramentos do ataque sofrido. Desde ontem estamos à disposição para articulação dos atendimentos necessários às famílias e comunidade em geral, para orientações e encaminhamentos”, afirma no comunicado.

Evasão do bairro

Em abril deste ano, a Justiça deferiu o pedido da Defensoria Pública do Espírito Santo e concedeu às famílias do Morro da Piedade, em Vitória, o pagamento de aluguel social. Foi a primeira vez que o benefício foi concedido às vítimas da violência do tráfico de drogas. 

“Essa é uma decisão importante para as famílias atingidas e demonstra que o poder público deve se debruçar para os contornos sociais que revestem a questão. O tráfico de drogas e a violência decorrente dele não são solucionados apenas pela intervenção policial; pelo contrário, as vulnerabilidades sociais das localidades que sediam os conflitos devem ser combatidas com o mesmo vigor”, afirmou à época a coordenadora cível da Defensoria Pública, Maria Gabriela Agapito.

Para que as famílias recebessem o aluguel social, a Defensoria Pública ingressou, em março deste ano, com um agravo de instrumento com pedido de antecipação de tutela recursal, para que o benefício fosse pago em caráter de urgência. O pedido foi apreciado e deferido pelo desembargador Jorge do Nascimento Viana, no dia 22 de março deste ano. Não foi estipulado um número certo de beneficiados, pois a decisão fala que o município deve atender as famílias e conceder o aluguel social para quem foi expulso da Piedade pelo tráfico. 

Desde o acirramento da violência no berço do samba capixaba, as lideranças comunitárias da Piedade reclamaram da falta de diálogo do Governo do Estado, o que ficou mais evidente na gestão do ex-governador Paulo Hartung. 
 
“Toda comunidade indicou que a construção da base do DPM, no morro da Piedade, sem o diálogo necessário, não seria suficiente para garantir a segurança das comunidades. O resultado está aí. Não percebemos mudanças. As falas das autoridades de segurança se contradizem com a realidade vivida por centenas de moradores”, disse uma nota do Instituto Raízes divulgado em janeiro deste ano, após o assassinatos dos jovens do Moscoso. E completou à época: “É a hora de fazer valer as políticas públicas articuladas e permanentes, oferecendo outras perspectivas de inserção social para nossos jovens e famílias inteiras...”.

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1 Comentários
  • Duérgnes , quinta, 20 de junho de 2019

    Já era publico e notório movimentacao de pessoas ligadas ao trafico do Morro da Penha na Piedade. O serviço de inteligência da PM não sabia? Resp: impossível. Sabia. O que o gestor da segurança publica fez? Nada. Lembrei que ouvi de um gestor que os direitos humanos subiram os morros. Dessa forma? O estado sendo o estado, realizando a gestão dos conflitos do trafico de drogas.

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