Bruno Toledo assume Direitos Humanos com desafio de dialogar e subir morros

''Nós precisamos deixar de falar de direitos humanos sobre o caixão da juventude negra!'', diz secretário

Incansável defensor dos direitos humanos, o advogado Bruno Alves de Souza Toledo assumiu, na última semana, a Secretaria de Cidadania, Direitos Humanos e Trabalho da Prefeitura de Vitória. Com longa trajetória de luta nos movimentos sociais capixabas, Toledo já enfrentou ameaças de morte por denunciar à Organização das Nações Unidas (ONU) a precariedade do sistema prisional do Espírito Santo, que no governo Paulo Hartung ficou conhecido por prisões comparadas a masmorras medievais por tortura, morte e maus-tratos aos detentos, e, mais recentemente, denunciou o crime da mineradora Samarco/Vale-BHP em Mariana, Minas Gerais, às instâncias internacionais.

Entre as bandeiras de luta que Toledo levará à frente da Secretaria estão a luta pela igualdade entre homens e mulheres e o fim da opressão do machismo e do sexismo, que mata uma mulher a cada quatro dias no Espírito Santo; o combate ao racismo, o apoio à causa LGBTI, das crianças, dos idosos e das pessoas com deficiência, além da defesa da democracia.

Toledo também desafiou sua equipe de trabalho a subir os morros da Capital, que, recentemente, têm sido palco de disputas, causando a morte de jovens, a exemplo dos irmãos Ruan e Damião Reis, executados em março de 2018 no Morro da Piedade. 

"Nós precisamos deixar de falar de direitos humanos sobre o caixão da juventude negra! É preciso falar de direitos humanos com a meninada indo para as escolas, com a bola rolando nos campos e nas quadras, com o tamborim tocando no samba, com o hip hop fazendo os jovens cantarem sua realidade! No momento em que grupos disputam a tiros o controle do crime, nós precisamos disputar com direitos as vidas que estão sendo perdidas, especialmente dos jovens que não querem só comida, querem comida, diversão e arte!”, ressaltou o secretário.

E completou: “O meu chamado para irmos ao encontro das pessoas dirige-se também ao Procon, à busca do consumo consciente e da proteção dos consumidores contra os abusos! Assim como a nossa política de trabalho e qualificação profissional, direito humano dos mais elementares! Não promoveremos cidadania dos nossos gabinetes, meus colegas. A cidadania deve ser sempre um processo vivo que brota das ruas, do encontro, do diálogo, no saber ouvir e na capacidade de transformar demandas em respostas, ainda que não sejam as sonhadas, mas respostas serão sempre dadas com o respeito que o cidadão merece!”.    

No discurso de posse, Toledo afirmou ainda que assume a pasta com plena consciência dos dias difíceis para aqueles que defendem os direitos humanos num cenário que retorna com ameaças e mortes a ativistas, a exemplo do que ocorreu, em 2018, com a vereadora pelo Psol do Rio de Janeiro, Marielle Franco. 

Ele citou também outros episódios desesperançosos, como a guerra na Síria, o sofrimentos dos refugiados e migrantes em seu êxodo pelo mundo, o extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras, a renúncia do deputado Jean Willys, que abriu mão do seu mandato popular e deixou o Brasil por temer a própria vida, as centenas de mortos e desaparecidos do crime da Vale em Brumadinho. Para Toledo, “vítimas da idolatria ao lucro, do desprezo à vida humana por parte do Capital, da exploração sem medida das riquezas naturais e da omissão, irresponsabilidade e da complacência do Poder Público”.

Ao assumir a pasta, o ativista citou o diálogo como forma de “romper as enormes barreiras construídas por falsos estigmas e perversos preconceitos à causa. "A tarefa é dialogar, com equilíbrio e serenidade, com o conjunto da nossa cidade. Construir pontes com os que pensam diferentemente e buscar consensos em torno da defesa da vida”, destacou.
  
Em um auditório lotado, o advogado tomou posse no Centro Integrado de Cidadania (CIC) Zumbi dos Palmares, mais conhecido como Casa do Cidadão, em Itararé, com a presença de secretários municipais e de Estado, representantes de movimentos sociais, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES), Ministério Público Federal, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública, Assembleia Legislativa, Câmara de Vereadores e lideranças religiosas, como pastores, padres e membros de religiões de matriz africana. Ele assumiu a pasta em lugar de Nara Borgo, atual secretária de Estados dos Direitos Humanos. 

Trajetória

Advogado, mestre e doutorando em Políticas Sociais pela Universidade Federal do Estado (Ufes), Bruno é professor de direitos humanos da Emescam. Também foi o primeiro presidente do Conselho Municipal de Direitos Humanos de Vitória (CMDH) e presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos. Atualmente, é assessor jurídico do Tribunal de Justiça do Estado (TJES). Bruno Toledo é ainda colunista de Século Diário. 

Logo que assumiu a presidência do Conselho Estadual de Direitos Humanos, no início de 2009, Bruno mobilizou as organizações e, juntos, iniciaram uma série de visitas de fiscalização às unidades de privação de liberdade. As várias denúncias e a farta documentação que produziram levaram o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) a realizar uma inspeção no Estado, produzindo um relatório contundente a respeito da situação caótica do sistema prisional e socioeducativo do Estado. Com base nesse documento, o CNPCP protocolou na Procuradoria Geral da República um pedido de intervenção federal no Estado em virtude das graves violações constatadas.
 
Em 16 de março de 2010, em Genebra, na Suíça, o então presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) expôs, a partir de dados e fotos, graves e sistemáticas violações de direitos humanos no sistema prisional capixaba para um público de mais de 100 representantes de delegações diplomáticas, da própria ONU e de ONGs de diversos países reunidos em Genebra. 

Em maio de 2014, Toledo teve seu nome citado pela Justiça Global em livro que denunciou a criminalização dos defensores de direitos humanos no País. 

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