Caminhada e abraço simbólico marcam mobilização em favor da Escola Geração

Ato que reuniu crianças e famílias chamou atenção para a ação do Bandes que decreta o fim da escola

Fotos: Leonardo Sá

Roupa branca, balões, cartazes, apitos, pandeiro e corneta. Crianças de todas as idades, inclusive de colo, alunos, ex-alunos, amigos, famílias e professores. Na concentração, o carro de som já dava tom ao movimento, com a música que virou símbolo da luta por direitos: “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Ao mesmo tempo, pais explicavam, pelo microfone, o motivo de ocupar as ruas, convidando a comunidade a se somar à mobilização. 

Esse foi o cenário do ato realizado nessa terça-feira (23) em favor da Sociedade de Ensino Geração e da educação inclusiva, social e humanitária desenvolvida na Capital do Estado.

O grupo saiu da rua Constante Sodré, em Santa Lúcia, onde está localizada a escola, em passeata pelo bairro. Seguiu na direção da Reta da Penha, e depois, deu a volta no quarteirão, com uma parada no cruzamento com a Rio Branco para, novamente, alertar a população sobre a importância da manutenção do funcionamento da unidade, ameaçada por decisão da Justiça em processo movido pelo Banco de Desenvolvimento do Estado (Bandes). A área é alvo da especulação imobiliária.

No decorrer do ato, presença de personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, canções com temáticas infantis e microfone aberto a todos os participantes, para relatos de alunos e pais. Em um dos pontos altos do movimento, estudantes do ensino fundamental cantaram uma música de autoria própria, reivindicando o direito de permanecerem na Geração.

Nos prédios, o piscar das luzes indicava apoio dos moradores do bairro ao ato. Nos sinais, distribuição de panfletos, recolhimento de assinaturas para um abaixo-assinado, e faixas para chamar atenção dos motoristas. Entre as frases, “Fechar a Geração não é Desenvolvimento”, “Somos Todos Geração”, Fica Geração”, Salve a Geração” e “Pais Unidos pela Geração”. E, também, desenhos, confeccionados pelas crianças. 



Pouco antes das 19 horas, a mobilização retornou para frente da escola, onde encontrou a idealizadora do projeto, Yolanda Amaral, a atual diretora Marisa Amaral, e seus familiares.

Em meio à emoção, foi realizado um abraço simbólico na Geração, marcando a força e união do movimento, que promete resistir até que seja consolidada uma solução para o imbróglio jurídico, que não signifique encerrar um trabalho desenvolvido há mais de 50 anos voltado para inclusão de crianças carentes e com necessidades especiais em Vitória.

Como alertou um dos muitos cartazes do ato: “Bandes, a sua dívida com a educação será impagável”.

Luta 

A mobilização dessa terça foi resultado do movimento iniciado pelos pais e responsáveis pelos alunos da Geração, desde que foi enviado, no último dia 11, o comunicado de que a escola deve ser desocupada até o próximo dia 20 de dezembro. As matrículas e rematrículas para 2019, portanto, ainda não foram abertas, ao contrário do que já ocorre em outras escolas. 

Com um trabalho pioneiro voltado para inclusão de crianças carentes e com necessidades especiais, a medida gerou forte comoção popular com repercussão nas redes sociais e entre outras unidades de ensino, que já se somam à luta pela manutenção do funcionamento da escola e sua importante contribuição para a sociedade.

Além de um abaixo-assinado elaborado pela Comissão de Pais e Mães, o movimento criou uma campanha no site Avaaz, com o título “Governo do Espírito Santo na figura do Bandes: salve a Escola Geração”. O documento, divulgado no último domingo (21), já reúne quase duas mil adesões. 

Após repercussão do caso, o Bandes tem se isentado de responsabilidade no caso. Mas, ao contrário das declarações feitas à imprensa nos últimos dias, não tentou evitar a execução da sentença, nem procurou a direção da escola para uma negociação que evitasse tamanha perda. O banco, sim, foi acionado pela direção, porém, permaneceu insensível à questão nas reuniões.

Ação judicial

Os pais e responsáveis dos alunos, que se dividiram em comissões, reforçam a demanda pela manutenção da escola e destacam o “receio dos nossos filhos sofrerem danos irreparáveis”. Assim, requerem que o Bandes solicite a suspensão do processo de execução (nº.024.89.006341-5) pelo prazo mínimo de 15 meses e, consequentemente, da ordem judicial assinada pelo juiz Rodrigo Cardoso de Freitas.

“Nossa solicitação ainda se encontra justificada no fato de que 85% da dívida foram recebidos pelo Bandes no curso do processo, em 1995, por pagamentos efetuados pelo Sr. João Carlos Torezani, conforme comprovado pelos dois recibos anexados ao presente, razão pela qual, apurado valor devido com efetivo abatimento do que fora pago, possa ser celebrado parcelamento do saldo remanescente”.

O banco quer que o imóvel integral seja vendido, imediatamente, para receber os 15% restantes do crédito, que calcula em R$ 4,3 milhões. Advogados que analisam a questão apontam, porém, que considerando essa mesma lógica de cálculo, os 85% quitados pela família representariam mais de R$ 20 milhões. Além disso, existem dois outros processos sobre o caso ainda sem decisão final, um deles pelo reconhecimento do direito de usucapião da área.

Terreno

A escola foi fundada em 1968 por Yolanda Amaral, mãe de Marisa, que assumiu o projeto em 1992, quando o nome passou de ABC do Lobinho para Geração. O terreno sempre pertenceu à família e agrega, também, a residência de Marisa e seus filhos.

A ação movida pelo Bandes é contra a empresa falida Café Glória e os seus herdeiros desde os anos 90, mas, por deficiência na transferência de propriedade feita na década de 50, a escola foi envolvida no litígio. 

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