Capitania dos Portos atenta contra tradição do Ticumbi de São Benedito

Transporte do grupo pelo rio Cricaré até as Barreiras para devoção do santo foi proibido nesse domingo

Fotos: Rogério Medeiros

A Capitania dos Portos do Espírito Santo proibiu a navegação da chalana pelo Rio Cricaré, como tradicionalmente o fazia, conduzindo o grupo folclórico Baile de Congo de São Benedito de Conceição da Barra, Ticumbi, que vai a Barreiras, no mesmo município, há mais de 200 anos, louvar São Benedito das Piabas. 

Esta chalana navega habitualmente pelo Rio Cricaré transportando turistas e, em janeiro, o Ticumbi.  Entretanto, após a divulgação da programação das comemorações de São Benedito deste ano, foi consolidada nesse domingo (13) a proibição, o que dificultou o cumprimento da obrigação dos devotos com o santo, expresso pela imagem de São Benedito do Córrego das Piabas, a que gera maior devoção nos municípios de Conceição da Barra e São Mateus.

A imagem remonta à história de Benedito Meia Légua, líder dos escravos na luta contra os fazendeiros da região. Ele é sempre lembrado e referenciado nestes festejos, já que andava com esta imagem no seu embornal no decorrer dessas lutas. 

Sobre a coincidência de proibir a navegação da chalana nos festejos de São Benedito, o Rei de Congo do Ticumbi, Jonas Balbino, filho de Tertulino Balbino, o mais longevo mestre do Ticumbi, lembra que o grupo vem louvando o santo com a utilização, ao longo dos séculos, do rio Cricaré como via de transporte até as Barreiras, e há mais de duas décadas tem utilizado a chalana, onde vão cantando e em evolução, como fazem em suas apresentações. 

Jonas prossegue afirmando que nunca, em tempo algum, sequer um deles caiu na água e acredita que esta proibição se configura uma perseguição à religião da forma que é professada pelos negros. 

Também considera a medida preconceituosa, além de ocorrer num momento em que o Ticumbi se torna referência reconhecida internacionalmente, ao ter sido convidado para representar a cultura brasileira em um encontro ocorrido no segundo semestre de 2018 no Ceará e, anterior a este evento, fez apresentações em Vitória, com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, com casa cheia e participação do público.

O fato que faz Jonas acreditar que o grupo foi vítima de preconceito e não de cuidados de segurança, foi que ao saber da proibição procurou o responsável pela Capitania dos Portos para tratar do assunto e não foi sequer recebido, mesmo com a programação já tendo sido tornada pública. Ao dono da chalana foi dito que ele precisava de um assistente, como ocorre em grandes embarcações, e de três coletes salva–vidas para crianças.

O resultado foi que o grupo não foi junto para Barreiras, mas devoto que é devoto, se vira, e foi o que eles fizeram. Cada um foi como pode, de canoa, de barco de pesca ou de carro, dando a volta por São Mateus. A subida do rio tradicional com cantorias, já antecipando a louvação do santo, porém, não foi possível. 

As soluções para uma propalada situação de emergência não surgiram: uma embarcação da Marinha; a liberação da chalana com a ajuda do pessoal da Capitania dos Portos; uma solução de meio termo com um ônibus alugado pela prefeitura de Conceição da Barra, levando o grupo por São Mateus. Nada foi viabilizado. O mais importante grupo folclórico do Espírito Santo ficou sozinho, mas não se abateu, pois sua origem é de luta e já enfrentou outros embates ao longo de sua história e está aí até hoje para provar que são duros na queda.

Não por acaso e, sim, por toda a sua história, os negros do Ticumbi são um orgulho racial, cuja data máxima de representação é o dia primeiro de janeiro, na porta da Igreja de São Benedito, em Conceição da Barra. Fazem parte de uma elite negra com papel político importante, pois são descendentes daqueles que foram líderes na luta contra a escravatura, cujas gerações seguintes mantiveram este papel ao longo da história. Hoje muitos lutam contra a progressão do eucalipto, mantendo-se resistentes em suas terras cercadas pelas extensas plantações no norte do Estado.

A segunda data mais importante é a louvação de São Bendito do Córrego das Piabas, morador das Barreiras. Segundo consta no lendário popular, Benedito Meia Légua, aquele citado acima que carregava sempre a imagem do santo no embornal, tinha por hábito ocultar-se durante o dia no oco de árvores junto com o santo. Um dia foi descoberto e queimado vivo.  O santo não queimou. Seus algozes, talvez assustados, jogaram a imagem no Córrego das Piabas e a correnteza a fez aportar em Barreiras, onde desde então é guardada e louvada. 

Assim, se mantêm até hoje a tradição de louvar São Benedito e de rememorar a luta de Benedito Meia Légua contra a escravatura. O poder que é dado a esta imagem e a força da sua louvação são tão presentes na região, que despertou a atenção de uma pesquisadora da negritude, Carla Osório. Ela participou do evento em Barreiras e registrou o que viu e ouviu dos devotos. A insatisfação virou tema da Roda Grande. “Nós não podemos vir de barco, porque a Marinha não deixa”.

 

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
3 Comentários
  • Lizamara Tomaz , quinta, 17 de janeiro de 2019

    A marinha do brasil é uma instituição muito séria, quando esta tal embarcação foi parada para vistoria os marinheiros explicaram que a embarcação estava com deficiências de documentação e que precisava ser recolhida. Fomos orientados e Muito bem tratados pelos marinheiros. Em momento algum alguém explicou o porque da dita perseguição... isto é uma grande hipocrisia desta matéria, sujeitando esta instituição a uma vergonha que não existe, isso para mim é pura balela e mau caratismo.

  • Arthur Wolf Oberg , quarta, 23 de janeiro de 2019

    Admiro muito as tradições, mas temos que lembrar o respeito da obrigação dos serviços alheios e não devemos misturar política, preconceitos, etc....

  • Arthur Wolf Oberg , quarta, 23 de janeiro de 2019

    Essa chalana (barco de madeira) não existia a duas decadas, existia uma balsa de ferro com o nome de Chalana.

Matérias Relacionadas

Empresa de ônibus de Aracruz descumpre contrato de transporte público

Ministério Público apresentou ação contra a Expresso Aracruz com multa de quase R$ 2 milhões

Aracruz (Fibria/Suzano) ataca familiares de guardião das águas no Sapê

Metre Berto, do Ticumbi, protege o território quilombola, há meio século, contra o avanço do deserto verde

Prefeitura de VV apresenta bicicletas para portadores de necessidades especiais

Evento será no próximo domingo (30), às 9h, na Praia de Itaparica

Thiago Balbino e o afrofuturismo do mangue

Residindo na Alemanha, artista capixaba não deixa de lado as raízes e o legado do avô Terto