Casagrande abre mesa de resolução de conflitos com o MST

Governo vai apoiar demandas de educação, políticas para mulheres e juventude, assentamentos e acampamentos

Com mais de mil famílias acampadas, algumas há quase uma década, e sem a criação de um novo assentamento desde 1991, o Espírito Santo precisa retomar o andamento de políticas e ações voltadas à Reforma Agrária e à resolução de conflitos no campo.

“Conflitos agrários não são responsabilidade somente dos movimentos sociais, todos têm sua parte no processo. O governo do Estado é fundamental, porque nos conflitos quem é chamado a despejar é ele", explana Marco Antonio Carolino da Silva, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Espírito Santo.

Um aceno nesse sentido foi feito pelo governador Renato Casagrande nessa terça-feira (21), a partir de uma reunião entre a coordenação do MST, o secretário de Estado de Governo (SEG), Tyago Hoffmann, e a deputada Iriny Lopes (PT).

O objetivo foi iniciar uma mesa de diálogo e resolução de conflitos para atendimento das principais demandas do movimento, como educação, políticas para mulheres e juventudes e apoio a assentamentos e acampamentos.

Depois de quatro anos sem serem recebidos pelo Palácio Anchieta e de verem a gestão de Paulo Hartung regularizando terras devolutas para grandes fazendeiros, a perspectiva que se abriu esta semana é boa, apesar de a questão de criar novos assentamentos ainda não estar na prioridade. “Fechamento de escola do campo também é conflito, e vivemos muito isso nos últimos anos”, exemplifica Carolino.

Sobre a questão agrária propriamente dita, o diálogo aberto com o governo estadual também pode auxiliar. “Com essa postura truculenta do governo federal, de não conversar com movimentos que ele chama de ilegítimos, o governo do Estado pode cumprir com o papel de ser esse interventor”, avalia.

Agronegócio

Os conflitos no campo, sobretudo no norte e noroeste do Espírito Santo, são fomentados pelas empresas do agronegócio, especialmente pela Aracruz Celulose (Fibria/Suzano) e sua expansão dos monocultivos de eucalipto, via de regra, em terras devolutas, que deveriam ser alvo de desapropriação para reforma agrária.

“Nós temos a postura de ocupar porque não tem outra perspectiva, a cana está saindo de cena, mas o eucalipto está avançando”, registra. Para além das mil famílias acampadas, o aumento do desemprego faz com que muitas pessoas tenham o desejo de possuir uma terra para plantar, ter uma casa, ter uma vida social mais organizada, explana Carolino.

“Está na Constituição Federal, mas o Brasil nunca fez a Reforma Agrária. O pouco que fez foi por pressão dos movimentos sociais. Mas uma política de reforma agrária nunca foi feita. E é uma certa ignorância, porque é só olhar pros assentamentos. Há os que têm problemas, mas a maioria está consolidada, as famílias trabalham, tem escola, espaços sociais. São 22 assentamentos no Espírito Santo. É só visita-los e ver o resultado”, explica o líder do MST.

E mesmo nos momentos de despejo das famílias acampadas, quando o sistema judiciário decide em favor dos latifundiários, o governo estadual pode intervir para garantir mais justiça para os que reivindicam a Reforma Agrária.

O Espírito Santo não tem histórico de resistir a despejo, diz Carolino. Mas no governo Paulo Hartung houve muita violência policial nessas ações. “Polícia destruir tudo, como é isso? Em Conceição da Barra aconteceu. Em Nova Venécia, conseguimos sair antes, mas destruíram lavouras e barracas. Que os bens das pessoas também num processo de despejo, se vier a acontecer, sejam respeitados. Que sejam garantidos a integridade e o cuidado com as pessoas. O juiz determina, mas a ação da polícia tem várias formas de acontecer”, explica.

Num próximo momento, segundo o secretário de Governo, Tyago Hoffmann, também serão convidados para a mesa de diálogo membros das secretarias de Estado de Agricultura, Abastecimento, Aquicultura, e Pesca (Seag), Educação (Sedu) e de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social (Setades) e representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Moradores em ocupação de 2017 são expulsos por reintegração em Vila Velha 

Cerca de 80 policiais fizeram a retirada de 150 famílias. Defensoria Pública acompanha ação 

Evento une academia e movimentos sociais para discutir desafios para o campo

A Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (Jura) acontece nos dias 19 e 20 na Ufes

Assentamento Zumbi dos Palmares comemora 21 anos em São Mateus

Latifúndio improdutivo foi transformado em área de residência e produção agrícola para 200 famílias

Famílias sem-terra despejadas em Nova Venécia pedem solução

Acampamento Ondina Dias sofreu ação policial e moradores foram destinados provisoriamente à área municipal