Centenário de Ruschi: 'o único capixaba imortal' é aviltado em sua própria terra

Louvado no Brasil e exterior, 103 anos do nascimento de Augusto Ruschi passam despercebidos no Estado

É do célebre cronista capixaba Rubem Braga a profecia de que “a partir da metade do século XXI, o único capixaba que será eterno será Augusto Ruschi”.

Produtor de mais de 60% de todo o conhecimento existente – em sua época – sobre os beija-flores, nome de gênero (Ruschia) e de mais de 300 espécies de orquídeas, fundador do primeiro museu de história natural do Espírito Santo, autor dos estudos científicos que resultaram na criação da maioria das unidades de conservação capixabas.

Augusto Ruschi nasceu em Santa Teresa, região serrana do Espírito Santo, em 12 de dezembro de 1915, e morreu em 3 de junho de 1986, sendo enterrado em 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, recebendo, oito anos depois, o título de Patrono da Ecologia do Brasil.

Neste 2018, quando se completam 103 anos de seu nascimento, relembrar os fatos e títulos acima mencionados dão uma pista da possível assertividade das palavras do amigo Rubem Braga.

Fatos e títulos, registre-se, que não são reconhecidos em sua própria terra, seja Santa Teresa ou o Espírito Santo. A verdade é que, a despeito do reconhecimento nacional e internacional de sua importância como cientista e militante conservacionista, Augusto Ruschi sempre foi perseguido e aviltado pelos governos, academia e imprensa hegemônica do Estado.

Em seu livro O Agitador Ecológico, o jornalista Rogério Medeiros, fundador e diretor deste Século Diário, conta que Augusto Ruschi, em 1971, declarou em palestra para a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), que a Ponta de Tubarão não poderia receber as gigantes companhias Vale do Rio Doce e Siderúrgica de Tubarão (CVRD e CST, hoje Vale e ArcelorMittal Tubarão), devido à pesada carga de poluição por pó de minério que seria expelida sobre a população da região metropolitana Vitória.


Foto: Rogério Medeiros

Ruschi também fez alertas seguidos contra a instalação da Aracruz Celulose no norte do Espírito Santo, seja pelos terríveis impactos socioambientais das monoculturas de eucaliptos, seja pelas próprias emissões poluentes da unidade fabril da multinacional.

O jornal A Gazeta, por exemplo, fazia de Ruschi um de seus preferidos alvos de achincalhamentos, tendo o colunista Gutman Uchôa de Mendonça como porta-voz costumaz dos ataques e tentativas de ridicularização.

A cada brado de alerta de Ruschi contra as anacrônicas decisões político-econômicas em favor da industrialização desordenada do Espírito Santo, a grande imprensa lhe dirigia explícitas campanhas de desqualificação, acusando o cientista de charlatanismo e sensacionalismos.

Habitante da floresta

Enquanto isso, a obra viva de Ruschi se avolumava em ritmo acelerado. As incursões na floresta, seja em Santa Lucia, na Amazônia ou outros redutos de biodiversidade no Brasil e no exterior; os escritos em seu escritório, em seu Museu Mello Leitão; as viagens internacionais; as palestras; as atuações diversas nos ofícios de botânico, zoólogo, conservacionista.

Publicou sobre beija-flores, orquídeas, Agroecologia. Desenvolveu a tese do combate biológico ao morcego transmissor da raiva e um método de atuação biológica contra a esquistossomose, por meio do peixamento de rios com espécies de cascudo predadores de caramujos hospedeiros.

Mais de meio século dentro da floresta lhe autorizava a dizer: “Meus filhos, ando dentro dessa floresta melhor do que vocês na rua. Acreditem que eu sou um habitante dela”. A fala, registrada por Rogério, foi dita a dois pesquisadores do Museu de Nova Iorque que visitam Santa Lucia para estudar macacos.

O diálogo em inglês se deu, dentro da mata, num período de intenso fogo cruzado estabelecido entre o cientista e o então governador do Estado Élcio Álvares, que pretendia desapropriar a Estação Biológica para ali realizar um plantio de palmitos.

“É por isso sua revolta contra a pretensão do IEF [Instituto Estadual de Florestas] em arrebatar-lhe a floresta?”, perguntou um dos estrangeiros, Warren King. “Não vão. Garanto que não. Não vou permitir. Isso ninguém toma da natureza. A alegria do barulho desses beija-flores ninguém vai silenciar enquanto eu existir”, respondeu-lhe, exaltado, o protetor da floresta.

Naquele momento, Ruschi mantinha uma defesa enérgica da Mata Atlântica em Santa Lucia. Isolado em sua luta dentro de Santa Teresa e do Espírito Santo, o naturalista recebeu farto apoio de cientistas, juristas, jornalistas, ambientalistas de todo o país, e até uma Caravana Ecológica, saída do Rio de Janeiro, veio fisicamente apoiá-lo na luta. O resultado foi a vitória da vida e a posse da Reserva, felizmente, foi-lhe mantida.

Museu roubado

O Museu por ele criado, ao contrário, no antigo sítio da sua família, a poucos quilômetros da Santa Lucia, encontra-se hoje refém de um Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), criado em 2014 no Ministério da Ciência e Tecnologia, por um grupo de professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da própria Sociedade dos Amigos do Museu de Biologia Mello Leitão (Sambio), entidade que, por força de seu próprio estatuto, deveria proteger o museu do Ruschi.

A primeira versão da lei que criou o Instituto chegou a estabelecer, em seu Artigo 1º, que estava “extinto o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão”. A obscenidade foi extirpada tempos depois, num dos tantos ajustes feitos no texto da equivocada lei.

Na prática, no entanto, a extinção se consolida, camuflada de homenagem e fortalecimento institucional. Todo o patrimônio do Museu foi alienado pelo Instituto, que já logrou as mais estapafúrdias tentativas de desonrar o legado de Augusto Ruschi.


Foto: Leonardo Sá

“Como pesquisador eu sinto pela falta de segurança quanto ao futuro das coleções que meu pai criou. Já tentaram removê-la pra Aparecidinha [localidade rural no interior de Santa Teresa], já mencionaram intenção de levar pra Ufes. E como todo esse patrimônio foi alienado, nada pode garantir que eles não levem essa coleção pra qualquer outro lugar”, relata o biólogo Piero Angeli Ruschi, filho caçula de Augusto, herdeiro de sua verve conservacionista e guardião legal, atualmente, de sua memória e patentes científicas.

Muita coisa já desapareceu, lamenta, citando as coleções de toras de espécies arbóreas da Mata Atlântica capixaba e artefatos indígenas. Depois do INMA, além do acervo, houve também a ameaça declarada de extinguir o Boletim do MBML, criado por Ruschi junto com o próprio Museu, em 1949.

No livro, Rogério conta que, durante toda a sua vida, Augusto Ruschi cuidou da subsistência financeira do Museu de forma independente, seja com recursos próprios de seu trabalho como professor titular do Museu Nacional do Rio de Janeiro, seja com os provimentos de zoólogo e botânico em parques internacionais. Membros ativos do Museu Mello Leitão também contribuíam como doadores. “E Ruschi sempre conseguiu, com a soma desses valores, manter o museu, sem recursos dos governos municipal, estadual ou federal”, conta o jornalista.

É célebre uma fala proferida em 1977 pelo então jovem Augusto Ruschi, ao italiano Fillipo Silvestri, do Reggio Laboratorio de Entomologia de Portici, Nápolis, que visitava o Brasil em busca de uma solução para uma doença que acometia laranjais. Já no Rio de Janeiro, Fillipo recebeu 500 caixas de percevejos, um presente inusitado enviado por um jovem autodidata do interior do Espírito Santo. Decidiu conhece-lo pessoalmente, acompanhado do cientista brasileiro Cândido Firmino Mello Leitão.

“Em Santa Teresa, achou um jovem cheio de novidades, contestando algumas enraizadas teorias de botânica com novos fatos detectados no mundo animal e vegetal. Aquele moço do interior tentava fazer Fillipo acreditar nele, mostrando que suas informações eram colhidas na floreta, enquanto que as do professor eram encontradas apenas nos livros. ‘Eu vi, o senhor leu’”, narra Rogério Medeiros, registrando que o incandescente encontro levou Ruschi, imediatamente, aos 22 anos, a ingressar no Museu Nacional, sob as bênçãos de Mello Leitão e Fillipo Silvestri.

A verdade

Com pouco mais de 30 anos, Piero também é zoólogo e concluiu há pouco seu Doutorado no Museu Nacional, com etapa sanduíche na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Sua trajetória científica inclui estudos em Biologia, Taxonomia (investigando espécies descobertas pelo seu pai), Ecologia (com estudos sobre comportamento reprodutivo de aves), e Biodiversidade Molecular (Genética) de beija-flores.

Recentemente, registrou a presença, no Espírito Santo, de uma espécie de colibri até então conhecida apenas na Bahia, entre outras descobertas.

Piero não conviveu com o pai, que faleceu quando o menino tinha menos de dois anos de idade. Curiosamente, Ruschi confessou a Rogério Medeiros que o caçula daria continuidade ao seu trabalho científico e conservacionista.

Desde a graduação em Biologia, e durante o mestrado e doutorado, Piero manteve orgulhosamente o vínculo de pesquisador voluntário do MBML. Ao retornar dos Estados Unidos, porém, percebeu a manobra em curso e tentou evitar que a criação do INMA significasse a extinção do Mello Leitão, o único museu de história natural do Estado. Em meio à batalha, Piero teve seu pedido de renovação de trabalho voluntário negado pela direção do Museu. “Hoje não tenho mais vínculo nenhum de pesquisa em Santa Teresa, apenas no Museu Nacional do Rio de Janeiro e nas Universidades de Berkeley e Harvard”, informa.

Afastado compulsoriamente da instituição onde passou toda a infância e onde desenvolveu o amor pela natureza, a conservação e a ciência, Piero agora dedica seu tempo a publicar artigos e dar continuidade às suas pesquisas.

“Algumas pesquisas estão rendendo patentes e essas patentes são de produtos de inovações científicas que nós vamos começar a fabricar”, anuncia, referindo à empresa que está implantando em sociedade com um médico amigo. “Nós estamos abrindo uma fábrica de produtos de inovação científica, começando pela área médica”, diz, ressaltando o caráter socioambiental da atuação da holding onde a empresa está abrigada.

Além dos produtos médicos, inicialmente, a empresa tem como pilar o ponto da memória de Augusto Ruschi e de outros pesquisadores esquecidos no Espírito Santo, como o taxidermista Elias Lorenzutti.


Foto: Rogério Medeiros

“Como família, filho, me sinto desrespeitado porque falam no nome do meu pai através de um memorial que não tem o meu consentimento, mas isso não me desmotiva em continuar lutando para que a verdade venha à tona. Pelo contrário, eu ainda anseio por desmentir o que está sendo feito de forma tão desonrada e contar a história verdadeira”, vaticina.

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