Coleção reúne trajetória de grandes pensadores do Espírito Santo

Judith Castelo Leão é uma dos 25 personagens dos três primeiros livros que serão lançados nesta quarta

As ideias de 25 personagens históricos atuantes desde a época colonial no Espírito Santo são tema da coleção Os Pensadores do Espírito Santo, cujos três primeiros livros serão lançados nesta quarta-feira (20), às 18h30, na sede da Associação de Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes), no campus da universidade de Goiabeiras, em Vitória, como parte do lançamento coletivo de livros promovido pela Editora Milfontes.

Entre os selecionados para compor a trilogia estão pessoas que não necessariamente nasceram no Espírito Santo, mas que se vincularam ao estado - ou às antigas província e capitania- em sua atuação profissional, política e social. “São pensadores que de alguma maneira passaram a problematizar o Espírito Santo, refletir sobre ele e projetá-lo olhando em perspectiva e traçando horizontes”, explica Ueber de Oliveira, doutor em Ciência Política e professor do Departamento de História da Ufes, que coordena o projeto junto com o doutorando Bruno Cesar Nascimento. 

Para escrever os capítulos foram convidados 35 estudiosos de cada personagem abordado, com textos individuais ou coletivos. O disparador foi a busca de analisar e interpretar o Brasil a partir de seus pensadores, que levou também a busca de entender como era projetado de forma regional. “O Espírito Santo geralmente é negligenciado nas leituras nacionais. Daí a tentativa de reunir colaboradores para construir um trabalho sobre os pensadores capixabas”, conta o professor. “A maioria desses pensadores também é desconhecida ou pouco conhecida pelos próprios capixabas, inclusive por intelectuais”.

A coleção separa os três livros de acordo com os tempos históricos. No primeiro, personagens que vão desde o período colonial, como José de Anchieta, que atua não só como padre mas como escritor, gramático e dramaturgo, passando por diversos outros pensadores, que chegam até a época das reformas estruturais do período do Marquês de Pombal, quando Portugal decide adotar reformas modernizantes que permitam melhor prospectar as riquezas do império e de suas colônias.

No livro número um aparece a vida e as ideias do matemático e ex-governador da capitania Silva Pontes, Francisco Alberto Rubim, que ajuda a reposicionar o Espírito Santo dentro do Império Luso-Brasileiro; Manuel Pinto Ribeiro de Sampaio, que analisa a formação da elite brasileira no processo de construção do Estado Nacional; José Bernardino Batista Pereira de Almeida, importante nos debates da Constituinte em 1823 e 1924; Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, um liberal exaltado de atuação intensa no período regencial; José Francisco Monjardim, que participa do processo de constituição da ordem imperial no Espírito Santo; e José Marcelino Vasconcelos, jurista de grande importância no século 12, que embora tenha escrito vários livros é pouquíssimo conhecido.

O segundo capítulo incluiu personagens históricos inseridos no período pós-1960, período pós proibição do tráfico de pessoas escravizadas, fazendo com que parte do recurso que era utilizado para aquisição de mão de obra fosse destinado para investimentos modernizantes. Esta segunda parte começa com Misael Penna, intelectual que faleceu precocemente mas que conseguiu deixar um legado e participou ativamente do debate político da época.

Passa por Afonso Claudio, líder abolicionista e primeiro presidente da província, grande pensador da realidade capixaba; Moniz Freire, também presidente do Estado e primeiro a apresentar um projeto de desenvolvimento para o Espírito Santo; Bernardo Horta de Araújo, importante líder republicano de Cachoeiro de Itapemirim; Saturnino de Brito, carioca que participou da construção do Novo Arrabalde, marco urbanístico de Vitória; Dom Fernando de Souza Monteiro, religiosos que assumiu a Arquidiocese de Vitória e contribuiu para o  equilíbrio político no Estado; Loren Reno, pastor protestante estadunidense que contribuiu para a diversidade religiosa e adquiriu legitimidade para seu projeto evangelizador; Carlos Xavier Paes Barreto, pernambucano que colaborou com o projeto de modernização no governo de Jerônimo Monteiro; e por fim, Maria Stela Novaes, nascida no final do século 19, que contribuiu como naturalista, educadora, historiadora e folclorista, ajudando a construir parte da história do Espírito Santo, especialmente a narrativa histórica em torno da “superação do atraso”.

No terceiro e último volume, destacam-se pensadores mas contemporâneos, que viveram no século 20. Quem abre a obra é Judith Leão Castelo Ribeiro, primeira deputada capixaba eleita, que exerceu cinco mandatos no cargo. Embora de perfil conservador, disputava e ocupava espaços institucionais importantes até então negados para as mulheres da época. Pensar essa contradição é um dos objetivos do capítulo.

Seguem personagens como o escritor Antonio Dias Tavares Bastos; o governador e interventor Jones dos Santos Neves; Lídia Besouchet, intelectual e militante comunista e feminista que faleceu nos anos 90; Deusdedit Baptista, professor de Direito de Cachoeiro de Itapemirim; Mário Gurgel, deputado estadual e federal, um trabalhista autêntico, defensor dos menores abandonados, que foi cassado pela ditadura militar; Christiano Dias Lopes, ex-governador e responsável pela implementação de um projeto de desenvolvimento urbano e industrial para o Estado após a crise do café e a política nacional para sua erradicação. Fecha o capítulo Graça Andreatta, ainda viva, militante da luta por moradia popular na região de São Pedro, em Vitória, que traz reflexões que ajudam a pensar a periferia e suas reivindicações.

O plano de Ueber de Oliveira e Bruno Nascimento é poder continuar o projeto com novos lançamentos, outra trilogia para o próximo ano, e depois um volume final no ano seguinte, disponibilizando materiais sobre cerca de cem pensadores do Espírito Santo.

No lançamento da Editora Milfontes nesta quarta-feira, também será apresentada a coleção Os Povos Indígenas do Espírito Santo, com quatro volumes, retratando diferentes etnias que habitam ou habitaram o território capixaba. Outras diversas obras também serão apresentadas na ocasião, como O Fascismo Tropical, O Futuro da História, Currículo integrado na Educação de Jovens e Adultos, Entre as Províncias e a Nação, Projeto Político de um Território Negro, O Espírito Santo da Primeira República, Lembranças do Rio Marinho e História (In)disciplinada.

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