Com ato cultural, capixabas reforçam luta contra manicômios

Atividades na Praça Costa Pereira questionaram retrocessos na política nacional de saúde mental

A tarde desta quarta-feira (26) foi repleta de mensagens na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória. Pacientes e funcionários dos equipamentos de saúde mental, profissionais, estudantes e outras pessoas participaram de um ato cultural em defesa das políticas de saúde mental e contra os manicômios. Inicialmente previsto para 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o evento teve que ser adiado devido às fortes chuvas e veio acontecer neste dia 26 de junho.

A proposta do ato foi de protagonismo dos usuários dos serviços de saúde mental de diversos municípios da Grande Vitória, que assumiram o microfone para se expressar com falas, poesias, danças e músicas, trazendo um pouco de alegria e também de protesto diante de um momento bastante crítico para o setor. Durante a atividade que se estendeu por algumas horas, foram realizadas oficinas de pintura e elaboração de cartazes que enfeitaram a praça com mensagens.

Na ação, buscou-se mostrar assim os resultados do tratamentos humanizados nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ao mesmo tempo em que se denuncia os retrocessos na política nacional. No governo de Jair Bolsonaro (PSL), uma nota técnica do Ministério da Saúde reorientou diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental, possibilitando a volta da prática de eletrochoques e a internação em hospitais psiquiátricos.

Psicóloga e integrante do Núcleo Estadual da Luta Antimanicomial, Rafaela Amorim, lembrou que as conquistas e avanços que vêm desde os anos 70 vêm sendo destruídas desde que Dilma Rousseff foi tirada do poder. “É um momento em que se aumentam as internações compulsórias e o governo não nos dá nenhuma perspectiva de aumentos nos investimentos nas políticas de saúde mental e de cuidados relacionados ao álcool e outras drogas”, disse, lembrando o absurdo de projetos como o proposto pelo vereador de São Paulo Fernando Holiday, que prevê a possibilidade de internação psiquiátrica compulsória de mulheres que sejam consideradas com “propensão ao abortamento ilegal”.

O Movimento Nacional da População de Rua também esteve presente e manifestou seu apoio à luta antimanicomial. “Como militantes somos totalmente contrários às comunidades terapêuticas porque achamos que o tratamento tem que ser de portas abertas e no momento que o indivíduo deseja”, disse a representante Rosângela Cândido, que foi frequentadora por anos dos Caps e reafirmou a importância desses equipamentos públicos.

Segundo Rafaela Amorim, o Núcleo Estadual da Luta Antimanicomial seguirá alerta contra os retrocessos. Em outubro deve acontecer em São Paulo um encontro nacional buscando avaliar a luta antimanicomial levando em conta os aspectos da transversalidade, considerando questões como o racismo, o extermínio da juventude negra, as violências contra a população LGBTI+ e mulheres, que tornam essas populações mais vulneráveis a processos de sofrimento mental como a depressão. “Precisamos fortalecer nossa luta como um todo. Não tem como discutir saúde mental sem discutir todas as violências e opressões”, finalizou a psicóloga.

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