Comunidade reivindica transporte e currículo agrícola em escola de Águia Branca

Ano letivo começou sem transporte para 100 alunos e sem metade das aulas de agricultura

Alunos do Centro Estadual Integrado de Educação Rural (CEIER) Águia Branca e seus familiares realizaram um protesto na manhã desta quinta-feira (14) na portaria da escola, exigindo transporte escolar para cerca de cem dos 270 alunos matriculados.


Com cartazes e palavras de ordem e vídeos compartilhados também nas redes sociais, os estudantes e suas famílias relatam que o ano letivo de 2019 ainda não começou para mais de um terço dos alunos, que estão impossibilitados de frequentarem as aulas, por ausência de pelo menos três linhas de ônibus escolares que até o final de ano passado funcionavam normalmente.

Localizado na comunidade de São Pedro, o CEIER atende a diversas outras localidades rurais de quatro municípios do noroeste do Estado – Águia Branca, São Domingos do Norte, Nova Venécia e São Gabriel da Palha - com o ensino fundamental 2 e ensino médio profissional. As turmas são grandes, a maioria com mais de 40 alunos.

Durante o protesto, a superintendente regional responsável pela escola, que fica em Barra de São Francisco, Edilena Cirilo de Paula Lopes, foi contatada e, novamente, se recusou a atender ao pleito.

Segundo familiares ouvidos pela reportagem, Edilena disse, em áudio enviado à direção do CEIER, que não irá até a escola, apenas atenderá aos pais e alunos se os mesmos forem até a superintendência.

“Ela disse que a manifestação é ilegítima porque estamos ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente. E os cem alunos que não estão podendo vir pra escola? Fizemos esse ato hoje porque já foram realizadas várias reuniões aqui na escola com o diretor e conselheiros e nada foi resolvido. Ontem teve reunião de pais e ela não compareceu, disse que não tinha carro pra vir”, relata Paulo César dos Santos, pai de aluno, ex-estudante da escola e morador da comunidade. “A questão é vem se arrastando há muito tempo”, conta Paulo.

Pedagogia da Alternância

Além do transporte, a reivindicação dos familiares também inclui a manutenção das disciplinas de agricultura. “Mudaram o currículo da escola sem consultar as famílias”, denuncia. “Nós somos do interior e tem uma pedagogia própria pra cá. A Sedu [Secretaria Estadual de Educação] e a Superintendência têm que rever seus conceitos e se aproximar mais da escola, dialogar com as comunidades. A escola é agrícola!”, ensina.

“Não precisa ser doutor pra entender. Cada setor sabe da sua realidade. É preciso dialogar de acordo com cada realidade. Nós estamos lutando pela alternância há mais de 14 anos! Protocolamos documento na Sedu em Vitória na época. E em vez de avançar, está retrocedendo, está ao contrário!”, relata.

Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Paulo afirma que o CEIER, além de escola rural, é também um ponto de resistência pela qualidade de vida das famílias de pequenos agricultores, tendo atuado inclusive na defesa da permanência das mesmas quando da criação do Parque dos Pontões, hoje Monumento Natural. Na época, as famílias foram ameaçadas de expulsão de seu território tradicional e o CEIER atuou em favor da permanência dos agricultores.


Resistência

Quero que minha neta estude aqui daqui a uns tempos. Mas do jeito que está, se não tomar providência ...”, diz, deixando explícito seu receio pelo fechamento da escola. “Só não fecharam ainda o CEIER porque a comunidade se posicionou na Sedu e na Superintendência. Porque eles foram aniquilando tudo pra fechar. Vão tirando as coisas e vai desanimando as pessoas”, relata.

O Espírito Santo é um estado muito agrícola, e de agricultura familiar, lembra o ex-aluno. Os grandes fazendeiros, diz, se estabeleceram no litoral, forçando os camponeses e agricultores familiares a se deslocarem para o interior e o noroeste. E o movimento de expulsão – e de resistência – continua, pois o êxodo rural agora é forçado principalmente por grandes empresas de eucalipto que querem expandir suas monoculturas.

“Cada morador do perímetro urbano, o custo é quatro vezes maior do que no interior, por causa da violência, saúde”, informa o camponês. “A gente discute isso com os alunos. Quando eles vêm visitar a propriedade, a gente fala isso, é formação pedagógica, formação de ser humano”, declara.

Paulo lembra ainda que houve uma tentativa de transformar o CEIER Águia Branca em Escola Viva. Na reunião sobre o assunto, em Boa Esperança, a comunidade se posicionou em defesa do currículo e da história da escola. “Pra nós não importa o nome, mas queriam mudar para Escola Viva, não pra melhorar pra comunidade, e sim pra quebrar esse elo entre comunidade e escola, essa resistência. São 35 anos!”, conta.

“Aqui não sai só com diploma, se forma cidadão, verdadeiro ser humano. Não tem dinheiro que paga isso. E vem um Estado falar que um CEIER é caro!”, protesta.

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