Construção de contorno é opção para salvar Reserva de Sooretama

Na opinião de ambientalistas, duplicação vai ampliar mortes de animais e pôr em risco espécies em extinção

Uma decisão que está nas mãos de órgãos ambientais, sobretudo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), governantes e empresas privadas pode comprometer (ainda mais) a existência de uma das mais importantes e antigas reservas do País e do mundo: a Reserva Biológica (Rebio) de Sooretama, unidade de conservação federal, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

Uma possível duplicação do trecho da BR-101 - sob concessão da ECO 101 - que atravessa a reserva pode ampliar a mortalidade de animais e comprometer toda a biodiversidade local.  A solução, para ambientalistas, é construir um contorno desviando a BR para fora da área preservada.

Localizada no norte do Espírito Santo, a 170 quilômetros de Vitória, a Reserva de Sooretama foi mortalmente ferida desde a inauguração da BR-101, que a dividiu em duas partes. O trecho que atravessa o interior da reserva foi construído no final da década de 1960, durante o governo militar no Brasil, à revelia da legislação ambiental, uma vez que já era área protegida pelo Código Florestal da época. 

“Desde sua inauguração, essa rodovia promove a matança de animais por atropelamento e isola as populações da fauna e plantas silvestres. Além disso, a BR-101, uma das mais movimentadas rodovias do país, é um vetor de poluição e pressão antrópica [do homem] sobre a Rebio de Sooretama e sua zona de amortecimento, gerando vários conflitos ambientais no uso e ocupação da terra e das águas na região”, explica o biólogo, doutor em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva e professor associado da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Aureo Banhos. 

E completa: “Resta ao poder público pelo menos honrar o histórico compromisso e os objetivos que levaram à criação da Rebio de Sooretama, reparando os danos que a reserva vem sofrendo em seu interior e entorno, inclusive retratando o desrespeito à legislação por aqueles que atravessaram uma rodovia federal nesta área protegida. Se cometeram um erro em dividir a reserva em duas partes por uma rodovia; podem voltar a atrás e consertar esse erro”, ressaltou o professor. 

Um novo caminho

Para os ambientalistas, em vez de propor uma duplicação, o melhor caminho seria desviar a BR-101 com seu alto fluxo de veículos da área da unidade de conservação e sua zona de amortecimento. Depois disso, transformar o trecho em uma estrada parque estadual.

“A Estrada Parque teria 17 km, corresponderia a uma área de aproximadamente 76 hectares e alavancaria a conservação de várias outras áreas naturais privadas e públicas em seu entorno. Isso também sanaria o passivo socioambiental que seria deixado após o desvio da rodovia”.

Entre os objetivos da Estrada Parque estariam: promover o desenvolvimento sustentável da região de Sooretama, Linhares, Jaguaré e Vila Valério; desenvolver o turismo de observação de animais selvagens; desenvolver o turismo rural; desenvolver o turismo de contemplação da natureza, esporte, aventura e lazer; desenvolver a rede hoteleira e os eventos que tenham como cenário a natureza; e gerar empregos e renda pela via do turismo. 

Atropelamentos

Segundo Aureo Banhos, o atropelamento de fauna é o impacto ambiental mais evidente provocado pela BR-101 na Rebio de Sooretama e seu entorno. A mortandade de dezenas de animais diariamente, incluindo indivíduos de espécies ameaçadas de extinção, é um problema considerado gravíssimo pelos gestores da UC e pela comunidade científica.  

No ano de 2014, durante um workshop realizado em Vitória - ES, um grupo de pesquisadores e técnicos apontou um conjunto de medidas emergenciais para serem estabelecidas no trecho da BR-101 que intercepta a Rebio de Sooretama e sua zona de amortecimento (ZA), com o objetivo de reduzir os atropelamentos. O documento contendo as medidas foi recebido pelo Ministério Público Federal, que acordou a adoção das mesmas com a concessionária que administra a rodovia, mas nada efetivamente foi realizado pela concessionária.

“Todos os tipos de crimes ambientais atravessam a Rebio de Sooretama pela rodovia BR-101, trazidos de norte e sul do país. Essa violência, negligência e omissão contra a reserva afrontam as palavras de Álvaro Aguirre, pois as gerações atuais conhecem a fauna herdada com os esforços de proteção empregados pelos antepassados, como vítimas de crimes ambientais, os atropelamentos e a caça. Por esse caminho, muitas das espécies de animais na região não serão mais conhecidas pelas próximas gerações. A geração atual de tomadores de decisão está destruindo o que a geração de Aguirre consagrou, a 'terra dos animais da floresta'. O golpe fatal será a ampliação da BR-101 nesse cenário, que está planejada para ocorrer nos próximos anos. Esse trecho de rodovia está na contramão da conservação da biodiversidade. Definitivamente, o melhor caminho para a Rebio de Sooretama não passa pela BR-101".

Em março de 2018, o Projeto de Lei (PL) 27/2018, que propõe regulamentação para a construção de ecodutos em vias de grande circulação de veículos, foi reapresentado na Assembleia pelo autor da matéria, deputado Sergio Majeski (PSDB). Os ecodutos, também chamados de faunodutos, são passagens subterrâneas ou sobre as vias, que permitem a travessia de animais sem riscos de atropelamento. O PL também prevê a construção de cercas para que a fauna seja direcionada para esses dutos.

Um dos casos de necessidade de ecodutos é justamente da BR-101 no trecho que atravessa a Reserva Biológica de Sooretama. Segundo o monitoramento feito pela Rebio e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), 50 animais são mortos todos os dias ao longo dos 25 km da BR 101 que atravessam as duas reservas. No mesmo trecho, 25 pessoas morreram em acidentes de carros em alta velocidade nos últimos três anos.

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
1 Comentários
  • Helena , quarta, 08 de maio de 2019

    Não é possível tanto descaso com nossa fauna pelas concessionárias que parecem só pensar em lucro. As soluções dadas pelos técnicos e biólogos precisam ser postas em ação e não apenas aprovadas en papel. Isso é URGENTE para que as próximas gerações ainda tenham possibilidade de conhecer a nossa fauna

Matérias Relacionadas

ECO 101 cumpriu apenas 10% das obras de duplicação previstas em contrato

Deputado federal Da Vitória defendeu na Assembleia o cancelamento do contrato e a prisão dos responsáveis

Mata Atlântica pode valer ainda mais que Amazônia, afirma biólogo da Ufes

Na Amazônia e Cerrado, calculam-se ganhos anuais de R$ 3,5 mil e 2,3 mil com a mata nativa em pé

Sem duplicação, 41 pessoas já morreram na BR-101 neste ano

De janeiro a junho, das 55 mortes em BRs capixabas, 41 (74,54%) ocorreram na 101