Crianças de Cedrolândia sofrem surto de diarreia e vômito

Famílias e direção da escola acreditam que a causa seja a água contaminada e exigem providências do Estado

Como previsto e noticiado em Século Diário em janeiro, estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Cedrolândia, na localidade homônima, na zona rural de Nova Venécia (noroeste do Estado), estão sofrendo um surto de diarreia e vômito desde que voltaram a consumir a água tratada na comunidade, que chega oleosa e de cor amarela nas torneiras.

O secretário municipal de Saúde, André Wiler Silva Fagundes, foi oficiado pela direção da escola nesta quinta-feira (18). No documento, a diretora da EMEF, Suede Mara Scheidegger de Souza Lobato, informou que, dos 200 estudantes, pelo menos 28 crianças perderam aulas nos últimos dias, muitas delas internadas, com febre. Dois funcionários também apresentaram sintomas semelhantes.

O surto teve início há três semanas, logo depois que a escola voltou a ser abastecida com a água do córrego local, que é tratada de forma rudimentar na própria comunidade. No início do ano letivo, em cinco de fevereiro, o abastecimento foi feito com água mineral fornecida pela Secretaria Municipal de Educação, assim que constatada a má qualidade da água do córrego.

Nesse período, os moradores que atuam na Estação de Tratamento local receberam treinamento por parte da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) na tentativa de melhorar a qualidade da água. Terminado o treinamento, a água de Cedrolândia voltou para a cozinha e o bebedouro da escola, dando início ao surto nas crianças. “O bebedouro daqui tem três velas grandes, mas precisa limpar duas vezes por dia. Mesmo assim a água sai amarela e oleosa”, conta a diretora Suede.

Flavia Danieletto da Cunha, mãe de uma aluna da educação infantil, conta que a filha teve que ser levada para o pronto-socorro municipal, na cidade. “A gente não sabe ao certo o que é, mas pelos sintomas leva a entender que é a água, porque a água da região não é própria pra consumo”, pondera.

É o primeiro ano na sua filha escola e, até então, a criança não havia bebido da água do córrego, pois a família coleta água de nascente para beber e cozinhar. “Ela leva água na garrafinha, mas as crianças gostam de pegar água do bebedouro, que é geladinha”, conta Flávia, lembrando que toda a merenda é feita com a água de má qualidade.

É a segunda vez, em três semanas, que a filha de Flávia apresenta os mesmos sintomas. “A gente não manda pra escola, trata, ela melhora. Mas é só voltar a estudar que vêm os mesmos sintomas”, lamenta.

Na família de Genair Pires de Souza, duas crianças também passaram mal, chegando a ficar internados no hospital de Barra de São Francisco, com febre e vômito. “Estamos suspeitando que seja a água. Você precisa ver a água como é: amarela, esquisita, parece que tem uma nódoa. A gente manda a água mas eles gostam do bebedouro”, diz.

Ação Civil Pública

A luta da comunidade de Cedrolândia por uma água de qualidade já dura anos. Os moradores já fizeram denúncias à Cesan, à Prefeitura, à Câmara de Vereadores – onde foi pedida a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) – ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES). Já realizaram manifestos e abaixo-assinados, mas nem a Cesan nem o Município assumiram suas responsabilidades no caso para resolver o problema.

No início deste mês, a comunidade, com cerca de mil habitantes, a maior população fora da área urbana de Nova Venécia, ajuizou uma Ação Civil Pública por meio da Associação Nacional das Donas de Casa e Defesa dos Consumidores do Brasil.

Na ação, são requeridas indenizações por danos morais e danos às relações de consumo no valor de R$ 8 mil a cada um dos cerca de dois mil habitantes, além de demonstração da análise química de água fornecida à comunidade, análise laboratorial da água do Rio Guararema e novas análises de avaliação em todos os poços de captação de água, tanques, reservatórios e lagoas que atendem aos moradores, a serem custeados pelos dois réus: a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) e o Município de Nova Venécia, responsáveis pelo saneamento básico na localidade, por meio de um contrato de concessão de serviços firmado em 1984.

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