Dallagnol aproveitou fama da Lava Jato para faturar também no Espírito Santo

O plano de palestras montado com a operação trouxe Deltan Dellagnol ao Estado entre 2016 e 2018

O procurador-chefe da operação Lava Jato, Deltan Dellagnol, que teve desfeito seu discurso de “herói no combate à corrupção” com as revelações de reportagens do site The Intercept e do jornal Folha de S.Paulo, aproveitou a fama para obter lucro também no Espírito Santo. 

De 2016 a 2018, o procurador fez várias palestras no Estado, como parte do plano de negócios montado para ganhar dinheiro e baseado na visibilidade gerada nas investigações desenvolvidas na operação. As investigações estão em suspeição pelos vazamentos de conversas secretas entre ele, Dellagnol, o então juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e outros procuradores. 

Aqui ele também lançou o livro A luta contra a Corrupção, com o subtítulo A Lava Jato e o futuro de um país marcado pela  impunidade, vendido a R$ 25. 

Unimed, Universidade de Vila Velha (UVV) e Faculdade de Direito de Vitória (FDV) estão entre as instituições patrocinadoras de palestras de Dellagnol, que esteve também na Primeira Igreja Batista da Praia da Costa, em Vila Velha, comunidade que reúne parte da elite religiosa do Espírito Santo.  

Em julho de 2016, já elevado à condição de estrela no combate à corrupção nas igrejas evangélicas e na classe empresarial, que representam uma das mais fortes bases de sustentação para a eleição do presidente Jair Bolsonaro, Deltan Dellagnol falou para líderes evangélicos na Primeira Igreja Batista da Praia da Costa. 

O evento, organizado pelo Conselho Estadual das Igrejas Evangélicas do Estado (Ceigeves), teve como tema central o posicionamento da igreja diante da situação política do Brasil. Em suas palestras, Dellagnol segue um roteiro padrão, com vídeos, tabelas, charges e mapas. Além de citar o sociólogo Max Weber, faz referências a passagens bíblicas.

O curso de Especialização em Compliance, Lei Anticorrupção Empresarial e Controle da Administração Pública da FDV recebeu Dellagnol no dia 7 de julho de 2018. Ele falou sobre Investigações anticorrupção do Ministério Público e lançou o seu livro. A palestra abordou corrupção, reformas no sistema de justiça, colaboração premiada e Lava Jato. O evento foi direcionado aos alunos da especialização em Compliance, a palavra da moda para definir o respeito às regras institucionais, mas foi aberto à participação da comunidade acadêmica. 

Já clientes empresariais da Unimed Vitória assistiram à palestra de Deltan Dallagnol, na  13ª  edição do Fórum Empresarial Unimed, em julho de 2017.  O evento reuniu “clientes empresariais para assistir uma palestra com tema relevante ao ambiente corporativo ou ao cenário brasileiro”, segundo o jornal interno da instituição. 

Durante o encontro, os 214 participantes tiveram acesso a um quadro que mostra a situação da corrupção no Brasil e no mundo. “Os números são preocupantes, mas o palestrante garantiu que é possível revertê-los”, diz a publicação. 

Palestras patrocinadas pela Unimed foram muitas no Brasil afora. Uma delas veio à tona nessa segunda-feira (15), por meio da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo. Na conversa vazada, Deltan Dallagnol comentou sobre seus planos: “Posso pegar [a data de] 20/7 e condicionar ao pagamento de hotel e de passagens pra todos nós”, disse Dallagnol à esposa. E foi o que fez, conforme contaria mais tarde a Sergio Moro, o juiz da operação Lava Jato. “Eu pedi pra pagarem passagens pra mim e família e estadia no Beach Park. As crianças adoraram”, disse Dallagnol. “Além disso, eles pagaram um valor significativo, perto de uns 30k [R$ 30 mil]. Fica para você avaliar”. 

Em setembro de 2018, o procurador esteve em Vila Velha como palestrante do I Congresso Jurídico de Ciências Penais e Segurança Pública do Espírito Santo na Universidade de Vila Velha (UVV). Além de Dallagnol, participaram o procurador de Justiça de Minas Gerais, Rogério Greco; os promotores de Justiça Rogério Sanches Cunha (SP) e Paulo Cesar Freitas (MG); e Wilman Rene Gonçalves, major do Bope do Rio de Janeiro.

Após a revelação de que o procurador Deltan Dallagnol pediu ao então juiz Sergio Moro dinheiro do Poder Judiciário para financiar uma propaganda do Ministério Público, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, anunciou que terá encontro com Deltan, previsto para esta terça-feira (16). 

Para a advogada criminalista do Espírito Santo, Elisângela Melo, o comportamento do procurador é antiético, porque o processo não pode ser transformado em “shows business”. “Isso não faz o menor sentido com advogados particulares, quanto mais com um procurador”, ressalta.

Ela reforça que Dellagnol jamais poderia dar palestras sobre o processo, ainda mais remuneradas. “Atrapalha o juízo de valor, quando o interesse está mais voltado ao lucro, da mesma forma que a relação entre o procurador e o juiz [Sergio Moro]”. 

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