Diversificação é a solução para a agricultura familiar

Crise do preço da pimenta-do-reino expõe novamente relevância da agroecologia para famílias agricultoras

A diversificação da produção e a conversão para a agroecologia são a solução para melhorar a renda e a qualidade de alimentação e de vida das famílias agricultoras. A orientação, há muito feita por organizações sociais do campo como o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), continua atual.

Uma nova crise do preço da pimenta-do-reino tem despertado uma sugestão, do mercado, para estocagem da colheita como forma de forçar uma alta dos preços. O quilo tem variado neste mês de abril entre R$ 6,00 e R$ 7,00, insuficiente para pagar sequer os custos de produção.

O Espírito Santo, especialmente o município de São Mateus (norte capixaba), é o maior produtor de pimenta-do-reino do País, responsável por aproximadamente metade de tudo o que é produzido.

A orientação dos camponeses, no entanto, é bem diferente do mercado: a solução é a produção saudável de alimentos para a própria família, para a merenda escolar e para a sociedade em geral.

“Com certeza! Se ficar só no café e pimenta, passa muita dificuldade, como já está passando, para arcar com os compromissos de financiamento no banco, depois da seca”, testemunha o camponês Santo Quartezani, da região de Nestor Gomes, interior de São Mateus, próximo a Nova Venécia. “Estocar não resolve. Quando começar a vender o estoque, o preço cai de novo”, diz.

A conversão de sua propriedade para a agroecologia se deu há cerca de seis anos, com apoio do MPA. Desde então, ele percebe que a renda familiar melhorou em pelo menos 50%. Na agricultura convencional, compara, “o dinheiro do agricultor fica todo nos pesticidas. Ele vende o café e a pimenta e paga a loja de agrotóxicos. Sobra muito pouco de lucro”, conta.

A sua história é muito semelhante a de outros pequenos agricultores do norte e noroeste do Estado. Há cerca de trinta anos, a produção era ecológica e diversificada. Mas o desmatamento deixou a terra seca e pobre, necessitando muito gasto com adubos, defensivos químicos e irrigação.

A venda dos produtos alimentícios afora o café, por sua vez, ficou inviável, pois entregar a supermercados exige burocracia inacessível para o camponês e o preço pago pelos grandes mercados não compensa. Resultado: propriedades que produziam alimentos variados passaram a ser praticamente monoculturas de café, que já tem uma rede de comercialização própria, que, por sua vez, também aprisiona o pequeno produtor.

Há cerca de quinze anos, a pimenta-do-reino chegou na região com incentivos do Estado por meio de linhas de crédito específicas e assistência técnica oficial. Santo foi um dos primeiros a aderir. Os preços da pimenta, que no começo eram mais atrativos, passaram a oscilar muito e, mais recentemente, estabilizaram em valores muito baixos. “Não aumenta mais”, constata.

A chegada do MPA em sua vida trouxe um novo alento, um retorno para a produção diversificada e agroecológica, com assistência técnica e formação política providenciadas pelo próprio Movimento. “Pra mim agora tá bem melhor. Produzo pra merenda escolar, são duas entregas por mês. E com isso garanto as despesas mensais. Café é dinheiro extra. Precisou, usou, senão deixa lá guardado”, relata, elencando alguns dos principais alimentos que enriquece a merenda das crianças e a mesa das famílias mateenses, clientes seus na feira: banana, aipim, milho, feijão, tempero verde, frutas...

Para os colegas agricultores familiares, que ainda não iniciaram sua conversão para a agroecologia, para a diversificação e a produção isenta de agrotóxicos, Santo recomenda: “É a família que tem que tomar a decisão de mudar. Se ela não quiser mudar, não tem como. Tem que mudar a consciência. E seguir o processo de conversão, que não é do dia pra noite”, explica.

“Quem trabalha com agricultura familiar tem pouca terra, tem que saber aproveitar. Um cultivo só num pedacinho de terra é complicado. Nas áreas de reflorestamento, pode ser consórcio com frutas. Pimenta com banana, laranja. Café com banana, com árvores pra sombreamento”, ensina.

E a conta, que muitas vezes é recebida com desconfiança pelos agricultores, é real: 100 sacas de café convencional geram menos lucro pro agricultor do que 20 sacas de café agroecológico. “Produz menos sem agrotóxico, mas o lucro é maior. Vale a pena. Sem falar na saúde”, recomenda.

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1 Comentários
  • jordano avelar , quarta, 24 de abril de 2019

    O mais engraçado é que aqui no norte do ES, na época que pimenta estava a R$35,00 o quilo, muitos pequenos agricultores, inclusive os agroecológicos, deixaram de seguir com muitos cultivos para dedicar aquele espaço de terra ao plantio de pimenta. E agora?

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