Documentário sobre Cláudio Guerra entra em cartaz em Vitória

Ex-delegado convertido em pastor revelou horrores e crimes da ditadura. Filme estreou no Cine Metrópolis

Nunca ninguém havia revelado com tanta frieza e detalhes os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil. Ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), um dos órgãos de repressão da época, Cláudio Guerra, convertido em pastor evangélico depois de passar pela prisão, agora chega às telas de cinema com seus relatos no filme Pastor Cláudio, dirigido por Beth Formaginni, em cartaz no Cine Metrópolis, em Vitória.

A diretora havia realizado em 2007 o filme Memória para uso diário, que fala sobre os desaparecidos políticos da ditadura. Anos depois, em 2012, foi lançado o livro Memórias de uma guerra suja, pelos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, reunindo depoimentos que colheram em entrevistas com Guerra.

Para o filme, Beth veio ao Espírito Santo entrevistar o ex-delegado, trazendo também Eduardo Passos, militante de direitos humanos e psicólogo que trabalha no atendimento de vítimas da ditadura. Mais que um antagonista, Eduardo atua como interlocutor na conversa durante a qual se projetam algumas imagens de fundo que retratam a época e os crimes cometidos.

“A interação dos dois personagens e as cenas e fotos no telão, que também são projetadas no corpo de Cláudio, trazem à tona memórias e reflexões sobre a banalidade do mal e seus desdobramentos. A violência dos homens e do Estado continua a nos assombrar até hoje no Brasil e no mundo", explica a diretora. É na tela projetada que o assassino é colocado frente a frente com as imagens dos mortos, as cenas dos crimes e o depoimento de parentes que ainda esperam respostas sobre o que aconteceu.

Assusta a frieza das revelações de Cláudio Guerra, apontando para imagens e reconhecendo vítimas que ele mesmo assassinou ou incinerou durante a época. “O grande filme de terror do ano não é uma ficção. É um trauma”, escreveu o crítico Dodô Azevedo. Personagem polêmico, protegido pela Lei da Anistia e pelo cristianismo que contradiz toda suas ações, Guerra é uma voz rara e isolada a falar sobre os crimes, quando todos outros militares optaram por um silêncio cúmplice e ensurdecedor para as vítimas em busca da verdade e justiça em relação a seus entes queridos.

As revelações do ex-delegado ajudam a jogar luzes sobre crimes como a morte da estilista Zuzu Angel, o desaparecimento de líderes do Partido Comunista Brasileiro, atentados à bomba, torturas, assassinatos e incineração de corpos praticadas por ele e sua equipe em diversas localidades no Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O longa-metragem de Beth Formaginni foi exibido no ano passado no Espírito Santo durante o Festival de Cinema de Vitória, em que venceu o prêmio de Melhor Filme. Participou de festivais no Brasil, Equador, França, Cuba e Uruguai e estreou nesta semana no circuito comercial no Brasil. Confira abaixo os horários dos próximos dias no Cine Metrópolis, localizado no campus da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em Goiabeiras.

AGENDA CULTURAL

Documentário “PASTOR CLÁUDIO”,  de Beth Formaginni (Brasil, 2018, cor, 76’)

Quando: Sexta-feira (15), às 18h20; Domingo (17), às 16h30; Segunda-feira (18), às 16h; Terça-feira (19), às 18h20; Quarta-feira (20), às 18h20

Onde: Cine Metrópolis - Campus da Ufes em Goiabeiras, Vitória/ES

Sinopse: Um encontro histórico entre duas figuras pessoalmente antagônicas: o bispo evangélico Cláudio Guerra, responsável por assassinar e incinerar os opositores à ditadura militar brasileira, e Eduardo Passos, um psicólogo e ativista dos Direitos Humanos.

Classificação Indicativa: 10 anos.

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