Dois Aroldos

Presidente do Bandes e a Escola Geração: solidário para fora, irredutível nos bastidores

Na imprensa e notas oficiais, um gestor solidário, que defende a inclusão social e a educação. Nos bastidores, um discurso que tenta transferir responsabilidade e deslegitimar uma reivindicação justa e necessária. Assim tem sido, até agora, a postura de Aroldo Natal Silva Filho, diretor-presidente do Banco de Desenvolvimento do Estado (Bandes), no caso da Escola Geração, diante da mobilização popular em favor de uma educação humanitária e voltada para crianças carentes e com deficiência em Vitória. Publicamente, Aroldo sempre aparece dizendo reconhecer a importância da mobilização pela manutenção da escola, que funciona há mais de 50 anos, e se mostra disposto ao diálogo para encontrar uma solução, além de fazer questão de dizer que a desocupação é uma determinação da Justiça, a pedido dos herdeiros, e que o Bandes – imagina – quase não tem nada com isso. “A portas fechadas”, porém, tanto na resposta à proposta protocolada no banco recentemente junto com abaixo-assinado, como nas tratativas com a classe política, sensibilizada à causa, um outro Aroldo: irredutível, que não reconhece os pais e responsáveis de aluno como os protagonistas do movimento em prol da escola e sua importância para a sociedade, e interessado apenas na venda do terreno, cuja negociação envolve milhões e grupos poderosos do Estado. Qual Aroldo vai falar mais alto, afinal?

‘Mentira’ 
A insistência dele em jogar o problema para o colo dos herdeiros gerou, inclusive, uma reação do movimento de pais nas redes sociais contra o que chamam de “fake news”. Eles avisam: basta olhar o processo: somente existem petições do Bandes para que o imóvel seja vendido, imediatamente, no próximo dia 27. 

Interlocução
Nessa quarta-feira (14), representantes do movimento, que já se reuniram com lideranças políticas tanto do atual governo, de Paulo Hartung, como de Renato Casagrande (PSB), estiveram na sessão da Assembleia Legislativa. Receberam atenção especial do deputado José Esmeraldo (MDB), que fez um discurso contra o fechamento da escola e se comprometeu a intervir no caso.

Interlocução II
Esmeraldo tratou o caso como “inusitado” e “inadmissível” e apelou ao diretor-presidente do Bandes e à Justiça para que resolvam a questão. Prometeu, ainda, levar o caso a Hartung.


Foto: Tati Beling/Ales
 
Interlocução III
Horas depois, por articulação de Luzia Toledo (MDB), o grupo teve uma agenda com a assessoria da Casa Civil no Palácio da Fonte Grande. O secretário José Carlos da Fonseca Júnior não estava. A maioria das conversas, no entanto, tem esbarrado nesse Aroldo dos bastidores, que muitas vezes chega até antes para emplacar seu discurso e impedir qualquer avanço na negociação. 

Do ramo
Aroldo é economista e assumiu o Bandes em julho de 2016. Antes, atuou em áreas que representam exatamente os poderosos do Estado: Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Estado do Espírito Santo (Sindiex) e a Federação do Comércio do Estado do Espírito Santo (Fecomércio).
 
Fatos
Enquanto o discurso dele sobre o caso diz “a”, a ação judicial mostra “b”. O Bandes é quem tem atuado sistematicamente para afastar o reconhecimento do direito de posse da família ao terreno. Como também não acatou a decisão que deferiu a habilitação da família na execução como credor sub-rogado na proporção da dívida que pagou em 1995 (85% do valor) - ano que soube do caso, que envolve, na verdade, terceiros: a falência do Café Glória.
 
Fatos II
Da mesma maneira, é do Bandes o pedido de que o imóvel integral (escola e residência) seja vendido logo em leilão, para satisfazer o restante da dívida. Foi por esta razão que a Justiça proibiu a Geração de fazer matrículas e determinou a desocupação total até o dia 20 de dezembro deste ano.

Mobilização 
A decisão obrigou a direção da escola a enviar um comunicado aos pais e responsáveis, que não sabiam do imbróglio jurídico. Foi, aí, que teve início a mobilização para manter a escola, com protestos e ações que resultaram na adesão da comunidade, que, ao contrário do banco, entende a importância do trabalho da Geração para o Estado. Aroldo tem dito, internamente, que não acredita nesse movimento voluntário, lançando suspeição sobre a família.

Rejeitadas
Esse mesmo movimento protocolou um requerimento no Bandes no dia 31 de outubro com dois abaixo-assinados - quase 4 mil adesões em menos de 15 dias - e a reivindicação de que o banco peça a suspensão do processo de execução e da ordem de desocupação por, no mínimo, 15 meses. Apresentou, ainda, uma proposta de pagamento de taxa de utilização da área pelo período de suspensão do processo, para assegurar a continuidade da escola. O Bandes rejeitou todas elas.
 
Infelizmente?
Aroldo repete, em nota, que as propostas, “infelizmente” não satisfazem, porque não contemplam o pagamento da dívida. Acontece que esta tornou-se impagável. Pela lógica do Bandes, hoje representa mais de R$ 4 milhões. Só para se ter ideia, o valor pago pela família em 1995 e que representava 85%, foi de R$ 40 mil. Na época, o banco ainda dispunha da área dos herdeiros para receber os 15% restantes. Mas sempre quis o terreno inteiro.

Direito
A família tem a posse do terreno desde 1958, mas, por ausência na formalização do negócio em que recebeu o imóvel, não tem a escritura. O antigo proprietário faleceu e o Café Glória faliu. Sobre o mesmo caso, existem mais dois processos judiciais. Um deles para que a Justiça reconheça o direito de usucapião da área e outro para suspender a execução. Como liquidar o terreno sem resolver questões tão essenciais?

Esperança
O recurso para impedir o fechamento da Geração está no gabinete do desembargador substituto Raimundo Siqueira Ribeiro. É nele que estão depositadas todas as esperanças sobre o futuro da escola que é referência no Estado e deveria, ao invés de fechar, ser copiada. A corrida agora também é contra o tempo.

PENSAMENTO:
“Fechar escola não é desenvolvimento, Bandes!”. Movimento de Pais e Alunos da Escola Geração

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