'É preciso repensar esse modelo de desenvolvimento'

Afirmação é de Fernando Repinaldo, chefe do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, em função da confirmação, pelo ICMbio, da chegada da lama da Samarco/Vale-BHP no santuário capixaba-baiano

“A pesca e o turismo poderiam ser um poderoso vetor de desenvolvimento de toda essa região, que já tem essas atividades entre as mais importantes em geração de emprego e renda. É preciso repensar esse modelo de desenvolvimento predominante, e conciliar as atividades industriais com a conservação da biodiversidade, da saúde e mesmo das vidas humanas. É preciso valorizar a biodiversidade, seus serviços ecossistêmicos essenciais”, afirma o analista ambiental Fernando Repinaldo, chefe do Parque Nacional Marinho de Abrolhos (Parnam).
 
Sua análise foi feita para Século Diário, ao repercutir o conteúdo da Nota Técnica 3/2017, produzida pela Diretoria de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (DIBIO/ICMBio), o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema).
 
Na NT, os técnicos das três autarquias levantam novamente a gravidade do crime da Samarco/Vale-BHP contra um dos maiores berçários da vida marinha em todo o Atlântico Sul: o Banco de Abrolhos, que se estende desde a Foz do Rio Doce, no Espírito Santo, até o sul da Bahia, na altura de Caravelas.
 
Publicada no dia 17 de fevereiro, a Nota Técnica apresenta um apanhado geral de toda a movimentação da chamada “pluma de rejeitos” no litoral, desde o início do monitoramento, em novembro de 2015. O mapa consolidado traz claramente a presença da lama sobre todo o Banco de Abrolhos, incluindo uma área dentro do Parque Nacional Marinho, unidade de conservação de proteção integral criada para proteger a biodiversidade, paisagem e atributos ambientais mais importantes.
 
Fernando Repinaldo alega que ainda não foi confirmada a identidade química completa dos contaminantes que, já se sabe, chegaram ao Parnam, dados que se espera conhecer a partir dos resultados das análises do material capturado pelas armadilhas de sedimentos depositadas durante três meses pelo Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LARAMG-UERJ).
 
Mas, independentemente disso, afirma o chefe do Parnam Abrolhos, todo o ambiente está sofrendo interferências da lama. “Os peixes, os corais, a microbiota, o fitoplâncton, as aves, as baleias, as tartarugas marinhas ... os impactos já chegaram a Abrolhos por meio dos organismos que utilizam o Parque, devido à interação entre organismos e ambiente”, pondera Fernando.
 
O gestor cita vários problemas que podem afetar os organismos, como taxa de reprodução, natalidade, mortalidade, composição, abundância e diversidade dessas populações. “Outras instituições de pesquisa estão se somando e, provavelmente, a partir de agora, vamos descobrir novos potenciais de impacto”, avalia.
 
Em função dessas novas descobertas que tendem a acontecer, Fernando salienta que é preciso também renovar a abordagem dada nos licenciamentos ambientais dos empreendimentos. “Ninguém poderia considerar que um empreendimento localizado em Mariana ou Governador Valadares poderia impactar o Parque de Abrolhos”, exemplifica.
 
O gestor esclarece que, a partir das confirmações da identidade química dos contaminantes presentes em Abrolhos – alguns estudos já apontaram similaridade entre partículas de ferro encontradas na região, por duas expedições do Navio Soloncy Moura, e as partículas de ferro presentes na lama da Samarco – será possível estabelecer medidas de responsabilização da empresa, bem como de reparação, controle e monitoramento dos impactos. 
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