‘Economia de Francisco’ reúne três trajetórias rumo ao mesmo objetivo

A potência da complementaridade de atuações dos capixabas que irão ao evento mundial do Papa Francisco

Um seminarista e economista, uma ativista social da periferia de Vitória e pedagoga e um estudante de Medicina e líder estudantil. Três origens e três trajetórias que se complementam de forma potente e criativa rumo à Economia de Francisco. Vitor César Noronha, Crislayne Zeferina e Marcos Batista Herkenhoff são os três jovens que levarão o Espírito Santo ao evento mundial que acontece em novembro em Assis/Itália, sob iniciativa do Papa Francisco. 

A intenção do sumo pontífice, o primeiro latino-americano a ocupar a autoridade maior da maior Igreja do mundo, é reunir jovens economistas, empreendedores e ativistas de todo o mundo para, junto a lideranças maduras – entre elas, alguns vencedores do Prêmio Nobel da Paz – elaborar uma proposta de uma nova economia mundial, “realmada” (com alma), inspirada nos valores de São Francisco de Assis. 

Os três capixabas estão entre os cerca de dois mil jovens de até 35 anos, oriundos de 115 países, que foram selecionados para a grandiosa missão. O evento ocorreria no final de março, mas em função da pandemia de coronavírus, foi adiado para novembro, o que permite mais tempo para mobilizar a juventude nos debates e indicação de proposições a serem apresentadas na Itália. “Vamos ter mais tempo pra organizar essa mobilização dos jovens”, disse Marcos Herkenhoff no primeiro evento em que os três se apresentaram juntos. 

O encontro aconteceu no último dia sete em Itararé, bairro onde vive Crislayne, em uma edição do Papo de Jovem, que os coletivos locais promovem periodicamente. Além de Marcos, Cris e Vitor, apresentaram-se a economista Eduarda La Rocque e a estudante de Economia Ana Clara Raft. 

Durante toda aquela manhã de sábado, as falas dos convidados e de membros da seleta plateia mostraram que é dos jovens, das periferias e dos movimentos sociais que emergem indicativos preciosos que devem guiar a criação de um modelo econômico mais justo e sustentável, com mais equidade na distribuição da riqueza, provendo com mais dignidade as necessidades dos mais pobres e vulneráveis. 

Ocupar os espaços

A anfitriã enfatizou a necessidade dos pobres e pretos ocuparem os espaços de poder, reconhecendo que, durante muito tempo de militância, duvidou da eficácia dessa medida, devido ao risco de cooptação. “Só vamos acabar com o genocídio da juventude negra ocupando os espaços do Executivo e Legislativo”, conclama, agora convicta, a ativista que iniciou sua caminhada ainda criança, acompanhando a avó nas tarefas da Pastoral da Criança, em troca de pequenos prêmios em moedas.  

O despertar para a certeza que daria continuidade ao trabalho da avó ocorreu durante visita a uma família que só tinha mingau de fubá para comer. “Era mingau puro de manhã, mingau com alguma carne, quando tinha, no almoço, mingau doce no lanche da tarde”, recorda Crislayne. O choque que teve diante daquela dura realidade, tão próxima dela, foi definitiva para conduzir suas decisões dali em diante. “Precisamos de direitos em equidade! Por que o posto de saúde de Jardim Camburi é melhor que o do Bairro da Penha, que já está sem pediatra há três meses?”, provoca, indignada. 

Essa “segregação espacial das cidades”, foi enfatizada pelo seminarista e economista Vitor Noronha, que pontuou a década de 1940 como o início desse processo. Até então, conta, era comum ter ruas em que os mais pobres e mais ricos eram vizinhos de muro, compartilhando calçadas. 

Com o crescimento desordenado das cidades, no entanto, os pobres forem sendo expulsos para as periferias geográficas dos centros urbanos, hoje periferias econômicas, sociais e políticas. E com a segregação vieram a violência e a criminalização dos mais pobres, a quem cabe a tarefa de “tomar conta da riqueza produzida”, afirma o seminarista, que é coordenador da recém-criada Escola de Fé e Política Dom Silvestre Luís Scandian.  

“O 192 [Samu – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] não vem se quem chamar é uma pessoa em situação de rua”, indigna-se, lançando aos presentes números que refletem a “lógica do Deus Dinheiro”, em que "uma pessoa morrer de fome não é notícia, mas a Bolsa de Valores cair um ponto é": 820 milhões de pessoas passam fome no mundo e dois bilhões são miseráveis. 

“Realistas esperançosos”

Isso com um PIB mundial de trinta e cinco trilhões de dólares, ou trinta e sete mil e cem dólares por mês por cada família de quatro pessoas, informa Vitor. “Precisamos de uma economia que esteja a serviço da vida”, roga o religioso e acadêmico, repetindo a tríade do Papa Francisco: Teto, Terra e Trabalho – nenhuma pessoa sem teto, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem trabalho.  

Classificando-se como um “realista esperançoso [nem otimista nem pessimista]", Vitor também elencou os dez princípios da nova economia, conclamada por Francisco: 1) Democracia econômica; 2) Democracia real, participativa; 3) Taxação dos fluxos financeiros, renda e patrimônio (reforma tributária progressiva); 4) Acesso universal a emprego e renda; 5) Políticas sociais universais; 6) Vínculos de produção nas proximidades; 7) Sistema financeiro como serviço público; 8) Educação popular (economia do conhecimento); 9) Democratização dos meios de comunicação; 10) Pedagogia da Economia. 

“Mobilizar o amor”

Inscrito na temática Trabalho e Cuidado, dentre as oferecidas no evento do Papa Francisco –  “É trabalho qualquer atividade que emancipe as pessoas” – o estudante Marcos Herkenhoff conta que lançou-se à conquista de uma vaga para a Economia de Francisco inspirado no Padre Kelder, militante ativo do Território do Bem, do qual Itararé faz parte, ao lado de São Benedito, Jaburu, Floresta, Consolação, Bonfim, Bairro da Penha e Engenharia. “Padre Kelder disse que a juventude precisa se comprometer. Por isso estou aqui”, declarou.

O futuro médico defende que “o conhecimento em saúde não é um produto; pertence a toda a sociedade que de alguma forma financiou a formação do profissional de saúde”. E faz coro à poesia da esperança realista do colega Vitor Noronha, invocando o amor. “Não acho que ‘mobilizar o ódio das pessoas’, como muitos afirmam, vá resultar nas mudanças que queremos. Acredito que precisamos mobilizar o amor”, encoraja. 
 

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