Em protesto, centro cultural pinta 80 tiros em sua fachada

Intervenção da artista Yvana Belchior faz referência ao recente assassinato de Evaldo Santos pelo Exército

Foram 80 tiros que chocaram o Brasil na última semana. Disparados pelo Exército contra uma família indefesa dentro de um carro, ocasionando a morte de Evaldo dos Santos Rosa, músico e segurança, de 51 anos, no Rio de Janeiro. No bairro de Santo Antônio, em Vitória, o centro cultural Emparede Arte Contemporânea exibiu em sua fachada uma intervenção artística que serve como um desabafo diante de mais este absurdo entre tantos que vêm ocorrendo no país.

A artista plástica Yvana Belchior pintou na parte externa do espaço os 80 tiros, em tinta vermelha, que deixou escorrer feito sangue, como forma de “indignação às atrocidades corriqueiras do nosso mundo real irreal, surreal”. Aquele muro, que nas semanas anteriores estampava uma intervenção sobre os direitos e as lutas das mulheres em referência ao 8 de março, é a porta de entrada e o marco de início do espaço cultural “caseiro”.

Nas redes sociais, o espaço publicou a foto junto com os dizeres:

EMPAREDE

Imoral

Intolerável

Desumano

Desigual

Há momentos que só a arte nos acalma. Expurga os males.

Yvana explica porque a arte demorou alguns dias para sair. “Estava remoendo por dentro tudo isso, segurando até. Porque a gente atende muita criança e queria pensar isso com menos dor, mas não consegui. Estou num momento que preciso expressar essa dor, expurgar. Está tudo muito tenso”, desabafa. Ela reforça a indignação diante às respostas das autoridades, classificando o evento com “incidente”. “É de doer a alma”, manifesta.

No sábado (13), a artista havia pintado de branco a parede para preparar a intervenção. No dia seguinte, uma série de livros foram colocados no chão, encostado na parede que serve como tela, levados para doação por alguém da comunidade. “De forma anônima. Geralmente isso acontece. Adoro isso. Mas não dei muita importância aos títulos. Depois que pintei, e não retirei os livros, verifiquei que a tinta havia caído sobre eles”.

Livros com gotas do sangue fictício pintado por Yvana em sua arte-protesto. Os livros “ensanguentados” eram quase todos sobre questões sociais e de comportamento do Brasil e dos brasileiros.

A experiência do Emparede começou em 2012, quando Yvana passou a expor algumas de suas obras no muro externo da casa onde reside com o marido Rogério Caldeira e os filhos. Logo o local virou um mural público que é renovado periodicamente e expõe a arte para quem passar pela rua. Não demorou para a arte invadir a casa, que hoje conta com um mini cinema e uma pequena galeria de arte, além de um espaço de criação de abelhas sem ferrão, usadas na educação ambiental, e da produção de cerveja artesanal no quintal.

No momento, além da obra na fachada externa, o local conta também com uma exposição na sala interna trazendo uma retrospectiva dos artistas e trabalhos apresentados no local nos quase sete em anos desde que a casa de família passou a ser também um centro cultural.

 

 

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