Projeto de vitrine do governo Hartung quer dar 'golpe de morte' nas escolas do campo

Comitê Estadual da Educação do Campo e comunidades rurais repudiam intenção da Sedu de levar o Escola Viva para três escolas do norte do Estado

Um "golpe de morte" contra a Educação do Campo é o que sugere a intenção da Secretaria Estadual de Educação (Sedu) de levar o Programa Escola Viva para três Centros Estaduais Integrados de Educação Rural (CEIER) no norte do Estado.

Esse é o entendimento unânime dos educadores que compõem o Comitê Estadual de Educação do Campo e é também o receio das comunidades rurais de Boa Esperança, Vila Pavão e Águia Branca, onde os CEIERs estão localizados, cada um com cerca de 200 estudantes matriculados.

“As três diretoras, que são cargos comissionados, aderiram à proposta. Mas as comunidades estão receosas. Por um lado gostam da ideia de receberem mais recursos, mas, por outro, temem que a Escola Viva afete negativamente o programa que já é desenvolvido com sucesso nas escolas”, relata Carminha Paolielo, membro do Comitê.

Segundo o professor Valter Martins Giovedi, do Centro de Educação e do curso de Licenciatura de Educação do Campo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), “ainda que não seja simples nomear de um só jeito, é possível identificar o projeto de vida individual do estudante como o eixo central do Escola Viva. E a Educação do Campo, desde que ela foi criada, nunca se fundamentou em projetos de vida individuais. A Educação do Campo se fundamenta em projeto de vida coletivos”.

O educador enfatiza que a Educação do Campo é centrada na comunidade como referência a partir do qual organiza o currículo, a gestão, o tempo e espaço da escola, o Projeto Pedagógico como um todo. “A partir das situações que a comunidade vive é que os estudantes, junto com os educadores, vão organizar os encontros pedagógicos. Daí você contribui com uma reflexão crítica transformadora para os projetos coletivos e as individualidades”, explana.

Não significa que os indivíduos são anulados, ressalta o educador. Significa, sim, que ele pensa a sua individualidade a partir desse projeto coletivo. “E isso é a marca fundamental da Educação do Campo”, destaca.

E é aí também que está a armadilha para a qual as populações camponesas precisam ficar atentas. “O discurso é muito sedutor e parece que está promovendo uma educação extremamente democrática e humana, quando na verdade, ela nega a ideia do ser humano como sujeito coletivo”, completa o acadêmico.

Valter lembra que o Programa Escola Viva se encontra no bojo das ações da ONG Espírito Santo Em Ação, executado pelo governo estadual juntamente com grandes empresários ligados à Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), e que tem como perspectiva principal a valorização do pensamento empresarial, que deposita sobre os sujeitos a responsabilidade sobre o seu futuro. “A responsabilidade pelo futuro é coletiva. Não dá pra solucionar problemas das comunidades a partir de projetos individuais. E, sem a escola, não há outra instituição que promoverá essa educação”, alerta.
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