Estudantes questionam abordagem de policiais militares na Ufes

Policiais aposentados atuam na segurança dos campi desde agosto em convênio com o governo estadual

Eram cerca de 20h dessa quinta-feira (13) quando quatro policiais militares se aproximaram do espaço da antiga cantina do Centro de Artes da Universidade Federal do Estado (Ufes), em Goiabeiras, Vitória. Um grupo realizava um projeto de entrega de alimentos ao centro do local, enquanto outro, de quatro jovens, localizados em outro espaço nas proximidades, foi abordado pelos agentes de segurança. Nada foi encontrado e eles foram liberados.

A abordagem, porém, foi considerada exagerada segundo relato de um deles, estudante de Física da universidade. “Achei uma abordagem ofensiva e incisiva. Nos sentimos oprimidos dentro do próprio campus. Chegaram com arma em punho, nos sentimos coagidos. Sou negro, universitário, de classe baixa”, declarou, questionando porque apenas aqueles estudantes que atendiam a este perfil foram abordados. Segundo os policiais, foi identificada atitude suspeita pelas câmeras de vigilância no local. A cantina do local está desativada à espera de licitação e tem sido visada por ser considerada um ponto de uso de drogas.

Uma estudante de mestrado, que também não quis se identificar, presenciou a abordagem e se mostrou preocupada com a ação, justificada como medida para proteger os estudantes. “A abordagem foi feita com o argumento de trazer segurança para nós estudantes, mas é um tipo de ação muito hostil à autonomia universitária, sobretudo por impossibilitar que nos sintamos tranquilos inclusive para debater sobre o que está acontecendo. A militarização da universidade pública já está acontecendo”, declarou. 

Ela também questionou que os policiais busquem distinguir entre estudantes e não estudantes, já que a universidade é um espaço público e de livre circulação. “É como se estivessem privatizando a universidade, enviando uma mensagem para as pessoas de que não podem circular ali, mas há muitas pessoas da cidade que vêm para a Ufes”.

Na terça-feira passada, o movimento estudantil promoveu um debate sobre a questão da segurança e da presença da PM na universidade, que acontece desde agosto deste ano por meio de convênio com o governo do Estado usando oficiais reformados. 

Em julho, na ocasião da assinatura do convênio, Reinaldo Centoducatte, reitor da instituição de ensino superior, declarou: “Nossos campi estão inseridos nas cidades, fazemos parte delas. Não temos condições de resolver sozinhos esse problema de segurança e não podemos ser omissos, não vamos esperar acontecer uma tragédia para buscar parcerias. Entendemos que esse convênio vai trazer maior segurança para a Universidade e também vai contribuir com a segurança nas cidades onde estamos inseridos”.

Isabella Mamedi, presidente do Diretório Central de Estudantes (DCE), questiona o convênio firmado entre a Ufes e o governo do Estado para o policiamento da universidade, que é território federal. “O convênio não faz sentido. É caro e coloca um responsabilidade grande para a universidade, de pagar equipamentos e salários de policiais aposentados”, questiona.  

Ela critica que, assim, a Ufes perde a gerência sobre seu plano de segurança, já que quem prepara atuação dos policiais é a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp). “É muito perigoso porque os policiais não vão ter preparo para lidar com as particularidades da universidade, onde também circulam crianças e apenados, por exemplo”, disse a representante estudantil.

Reação

A presença da PM na universidade gerou protesto em agosto e a criação, um mês depois, do coletivo “PM na Ufes, não!”.  O contrato, no valor de R$ 4 milhões, já foi alvo de notas de repúdio de diversas categorias e coletivos, como o Sindicato dos Trabalhadores da Ufes (Sintufes), o grupo de pesquisa “Pedagogia Histórico-Crítica e Educação Escolar”, a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes) - Seção Sindical do Andes-SN, o Diretório Central dos Estudantes (DCE), o Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) e o Fórum Capixaba de Lutas Sociais.

Os coletivos contestam a justificativa apresentada pela Ufes de corte do repasse de recursos por parte do governo federal, impondo assim uma redução dos contratos das empresas terceirizadas, entre a quais, a de segurança. Para os pesquisadores, estudantes, docentes e ativistas que repudiam a medida, a solução encontrada parece contraditória, uma vez que é a Ufes que arcará com todos os custos de salário e equipamentos a serem utilizados pelos policiais que atuarem nos campi.

O coletivo "PM na Ufes, não", formado pela Adufes, o CEDH, o Fórum Capixaba de Lutas Sociais, o Círculo Palmarino e o cursinho popular AfirmAção, realiza um levantamento sobre experiências de melhoria da segurança dentro de campi universitários em vários estados, com objetivo de trazer referências para encontrar soluções para a universidade capixaba, bem como estuda medidas administrativas ou judiciais que podem ser tomadas para contestar o convênio, visto que o mesmo não foi apreciado pelo Conselho Universitário.

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