Estudo matemático mostra como o isolamento pode evitar o colapso da saúde no ES

População deve reduzir em seis vezes o número de ‘contatos’ para que leitos disponíveis sejam suficientes

Sem as medidas tomadas pelo governo do Estado na última semana, principalmente a partir de sexta-feira (20), o sistema de saúde do Espírito Santo atingiria sua capacidade máxima de atendimento dos casos mais graves de coronavírus por volta do dia 22 de abril e a partir daí entraria em colapso, não tendo mais leitos hospitalares suficientes para atender a todos os que precisam de internação para sobreviver. 

Vinte dias depois, por volta de 12 de maio – 60 dias após a confirmação do segundo caso, ocorrida em 12 de março – a pandemia atingiria seu pico, com cerca de 62% da população infectada simultaneamente, o que equivale a 2,5 milhões de casos. Desses, quase 125 mil pessoas demandariam internação (considerando o percentual otimista de apenas 5% dos casos confirmados evoluírem para estado severo ou crítico), e pelo menos 25 mil morreriam (média conservadora de 1% de óbitos no total de pessoas infectadas). 

Como, obviamente, ter 125 mil leitos hospitalares disponíveis de uma só vez num estado com as dimensões do Espírito Santo é algo absolutamente impossível - existem hoje cerca de 7,9 mil leitos em unidades públicas e particulares - estaríamos diante de situação semelhante ou pior do que a vivida na Itália nesse momento, onde médicos estão tendo que “escolher” quem vive e quem morre, diante da falta de equipamentos de UTI suficientes. 

O alerta é do matemático Diego Henrique, professor e pesquisador do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) - campus Cariacica, que desenvolve um estudo sobre o impacto da crise do Covid-19 sobre o sistema de saúde do Espírito Santo e cujos primeiros resultados foram publicados em uma nota intitulada “Precisamos ficar em casa”. 

Os cálculos, explica Diego, foram feitos com base nos boletins do Covid-19 publicados pela Secretaria de Estado de Saúde até a sexta-feira (20), quando as medidas mais impactantes de restrição de circulação das pessoas, como fechamento do comércio, ainda não estavam sendo aplicadas. 

A tendência, acredita o pesquisador, é que na próxima semana essas medidas já mostrem resultados e a curva de evolução da pandemia já apareça mais “achatada”, com o pico atingindo um percentual menor da população e numa data mais distante de meados de maio. 

Seis vezes menos contatos

Além desse cenário mais catastrófico, fruto da hipotética inércia do governo e da população diante da necessidade de isolamento domiciliar, o estudo apresenta outros resultados preliminares, descrevendo outros três cenários possíveis para o Espírito Santo, à medida que cada cidadão reduz mais e mais o número de “contatos” que costumava ter, em média, com pessoas no seu dia a dia, antes da pandemia. 

Reduzindo pela metade o número de contatos, relata o matemático, o pico da epidemia ocorreria por volta de 12 de agosto – 150 dias após 12 de março – e atingiria cerca de 40% da população, o que equivale a 1,6 milhões de infectados, 16 mil mortes e necessidade de 80 mil leitos. 

Já para o caso de se reduzir quatro vezes, o pico seria mais de um ano após esta data e atingindo cerca de 17% da população, o que seria equivalente a 680 mil infectados, 6,8 mil mortes e necessidade de 34 mil leitos até março de 2021. 

“Embora ambos os quadros sejam menos drásticos, ainda teríamos um instante crítico em que o número de casos ultrapassaria a capacidade atual do sistema de saúde”, adverte o pesquisador. 

Desta forma, prossegue, foi calculado também em quanto deve ser reduzido o número médio de contatos de cada pessoa, de forma que o pico da epidemia não ultrapasse a capacidade. O resultado encontrado, afirma, foi seis. “É necessário reduzir em seis vezes o atual número médio de contatos para evitar que o sistema de saúde do Espírito Santo não entre em colapso”, recomenda. 

Bases de dados

O estudo considerou a população capixaba com 4,01 milhões de habitantes e a existência de 7.929 leitos hospitalares, somando-se os do Sistema Único de Saúde (SUS) e os particulares, segundo dados do DataSUS.

O modelo utilizado foi o SIR, que divide os indivíduos em três classes: Suscetíveis (que ainda não se infectaram); Infectados; e Removidos (curados ou mortos). O modelo, explica Diego, supõe que a infecção se propaga a uma taxa proporcional ao número de encontros entre indivíduos suscetíveis e infectados e que a taxa em que infectados se tornam removidos é proporcional ao número de infectados. 

“Vale ressaltar que é otimista essa estimativa de 5% dos infectados necessitarem de internação. Na China chegou-se a ter 19% de infectados severos e críticos e, na, Itália 55%”, ressalva o pesquisador. 
 

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