Estudo revela que evasão no Morro da Piedade chegou a quase 50% desde 2010

Realizado por Jocelino da Conceição Silva Júnior, o estudo traça um perfil do berço do samba 

Jocelino da Conceição Silva Júnior,  nascido e criado na comunidade Piedade, pedagogo, educador social e membro do Grupo Raízes da Piedade, elaborou um documento em que traça um panorama a respeito de um dos bairros mais antigos e tradicionais da Capital. Intitulado “Um lugar de Piedade, Morro da Piedade – Território do Samba” apresenta dados sobre a evasão de moradores do bairro após a onda de violência, que teve seu pico neste ano de 2018. 

Segundo o levantamento do ativista social, a partir de pesquisa realizada pelo Grupo Raízes tendo como fontes dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi identificado que, entre 2010 e 2018, houve uma redução de 62,7% no número de habitantes nos bairros Fonte Grande e Piedade. “Observamos que a diminuição somente na Piedade foi de 48%”, explicou. 

“Este documento tem como objetivo apresentar de forma breve a situação diagnóstica do Morro da Piedade, após a situação drástica de violência que impactou a comunidade no período de março a julho de 2018, mobilizando instituições de defesa dos direitos humanos, entidades governamentais, a cúpula da segurança pública do Estado, além de todos os canais de imprensa capixaba. Na verdade, essa escrita tem mais o cunho de instigar uma análise mais profunda e coletiva da situação da Piedade de nós”, explica Jocelino. 

O texto relata que “após os lamentáveis episódios de violência que levaram a quatro assassinatos brutais, é facilmente identificado o número de evasões ocorrida no morro da Piedade. Com uma simples caminhada pelo bairro se consegue contabilizar o número de casas vazias ou abandonadas. Só no auge da violência e do medo no morro, a partir das mortes ocorridas, principalmente após a última no dia 10 de junho de 2018, ocorreu uma saída em massa de moradores. 

“Ao todo em 2018, mais de 180 moradores deixaram suas casas, reunindo cerca de 40 famílias. Considerando o impacto imediato que causou em quem morava na comunidade e precisou deixar seus lares, o Raízes acionou a Defensoria Pública, que ajuizou medida judicial para solicitar do poder público a garantia de apoio e aluguel social para quem teve que deixar suas casas por conta da violência, ao todo 26 famílias estão incluídas no processo”.

Para Jocelino, infelizmente, as pesquisas apontam que a expectativa para 2020 é que esse número ultrapasse lamentavelmente a marca dos 70% de evasão somente no Morro da Piedade. “O que nos resta é continuar o acompanhamento e nossas ações no território, visando sempre prevenir quaisquer violações de direito”.

Falta de diálogo

Além disso, o documento também cita que a discussão com a Polícia Militar e a Secretaria de Segurança Pública (Sesp) não avançaram, na verdade. A Sesp, inicialmente, desejava ocupar o Telecentro, o que foi amplamente combatido por nós e toda comunidade. Assim, uma assembleia com mais de 100 moradores decidiu democraticamente que a “base da PM” deveria ser instalada na parte mais alta do morro, onde os ataques e trocas de tiros aconteciam com maior frequência. No entanto, os anseios da comunidade não foram respeitados e em decisão justificada com teor técnico e logístico, a base será instalada no início do morro. Merece menção que todo o processo de instalação nunca foi dialogado amplamente, os anúncios em sua maioria são conhecidos por meio da imprensa, em tom de exploração da mídia pela Sesp”.

O documento explica que o Morro da Piedade é vizinho e se interliga pelas matas ao Morro da Fonte Grande. Juntas, as duas comunidades reuniam, segundo o IBGE (2010), aproximadamente 3 mil moradores. O “território do samba” possui, segundo a pesquisa, mais mulheres e pessoas com idades de 0 a 29 anos, que somam 70% da população local, com renda média de R$ 744, majoritariamente composto por pessoas negras e pardas.

O Grupo Raízes da Piedade atua no território desde 2008, sempre usando o viés do samba para dialogar sobre as situações que circunstanciam o território e a vida de quem habita ali. Diante da inércia do poder público e das vulnerabilidades no território, o Raízes desponta, como outras instituições da sociedade civil, como caminho de diálogo, mobilização e resistência. De se trabalhar com cidadania, cultura da paz e empoderamento social. O papel de atuar valorizando cultura e arte do samba com seus principais personagens busca não só a valorização, mas a salvaguarda de uma expressão cultural que é a maior identidade do território: o samba.

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