Exposição Gira reúne nova geração de artistas negros capixabas

Com curadoria antirracista, mostra com obras de sete artistas segue até seis de dezembro no Mucane

"A vingança é um prato que se come frio" diz a faixa na entrada da exposição Gira, que está em cartaz até o dia seis de dezembro no Museu Capixaba do Negro Veronica da Pas (Mucane), Centro de Vitória. Sete artistas da nova geração formada no Espírito Santo fazem parte da mostra, que fica em cartaz até 6 de dezembro na galeria do museu.

A curadoria, feita por Napê Rocha, tem como norte a perspectiva antirracista e anticolonialista.

Felipe Lacerda apresenta uma série de bandeiras e faixas com palavras de ordem, trazendo questionamentos ao status quo para falar sobre os processos de exclusão e normatização ao mesmo tempo em que busca construir um discurso que posicione os sujeitos que lutam contra essas opressões como ativos e potentes.

Castiel Vitorino traz a instalação Local de Trava, onde apenas pessoas travestis podem entrar, de forma a comunicar com esse público específico mas também com o público em geral, para que possa pensar sobre processos de exclusão. Logo à frente Kika Carvalho, artista oriunda do graffiti, apresenta uma grande pintura em retrato de uma travesti, trabalhando com o pigmento azul que faz parte de sua pesquisa artística que encontra nesta cor uma simbologia dos povos africanos.

Ione Reis investe no retrato de rostos negros que olham fixamente ao visitante, pensando também modos de representar a negritude por meio da pintura, mas não como o "outro" da arte eurocêntrica, mas sim como autorrepresentação, o que vai aparecer sugerido por entre os quadros pintados.

Júlia Muniz mostra a obra Entre Rosas e Frutos, com três fotografias como resultado de sua pesquisa sobre transitoriedade e movimentos que reelaboram o sujeito. Rafael Segatto traz uma instalação também a partir da fotografia, juntando lambe lambe e colagem, com uma frase que traz reflexão para o espectador, assim como as bandeiras de Felipe Lacerda.

Nathan Dias revela um trabalho de esculturas em ferro preto, uma matéria que ao mesmo tempo que está em exposição se encontra em processo de oxidação, representando a fragilidade de algo que parece tão rígido mas que tende a se desfazer, o que faz pensar sobre a permanência e a morte.

Conversamos um pouco com Napê Rocha sobre a proposta da curadoria de Gira. Confira:

Por que a exposição leva o nome de Gira?

Existe primeiro uma grande motivação mais geral, que seria a construção de uma curadoria antirracista, uma curadoria decolonial, anticolonialista, porque existe uma necessidade de construção de novos olhares e narrativas sobre a negritude.

A curadoria vai fazer diálogo e aproximação com conhecimentos que são tradicionais de povos de matriz africana, mais especificamente naquilo que se refere a sua cosmologia e liturgia. A Gira, a partir desses conhecimentos populares e afrorreligiosos, é um espaço efêmero, é a ativação de um espaço em que o que está em jogo é a produção de uma comunicação entre os espaços visíveis e invisíveis que possibilitam formas diversas de existência nesse espaço, na gira sempre tem muita gente.

A curadoria vai entender a potência dessa gira e tentar fazer uma transposição poética para o espaço expositivo, para pensar possibilidades dialógicas entre cada trabalho e também as possibilidade de comunicação com o público.

No entanto, a partir dessa concepção da Gira como um lugar onde corpo está presente e aberto à comunicação, a curadoria faz esforço de colocar primazia da experiência nesse espaço expositivo no corpo, há uma tentativa de desestabilizar esse regime de visualidade que vai elencar o olho como único órgão de apreensão, como única possibilidade de fruição desse trabalho. Por isso a gente tem trabalhos que vão passear por diversos formatos: instalação, fotografia, pintura e escultura.

Então o exercício da curadoria é também trazer esses trabalho para o espaço expositivo como se fossem realmente formas diversas de vida e de estar no mundo, que estão ali para dialogar entre si, pensar esse diálogo também de maneira que não necessariamente é amistosa. Os trabalhos estão compondo espaço num jogo de tensões e aproximações.

Como se deu o processo de curadoria para a realização da exposição?

O processo de trabalho junto com os artistas tem sido não convencional para uma curadoria. Porque não houve exatamente uma seleção prévia dos trabalhos, houve contato primeiro com os artistas, a partir das suas criações, porque a partir desse contato conversei com cada artista, apresentei a proposta e conversei para entender o que cada artista tinha a partir de sua trajetória para contribuir com a narrativa que a curadoria estava se propondo a construir.

A partir daí os trabalhos foram desenvolvidos para essa proposta. Então foi um trabalho muito de orientação em relação aos trabalhos elaborados, orientação com cada artista. É um grupo muito coeso. 

É importante estar nesse espaço do Mucane, que infelizmente passou boa parte do ano com a galeria sem receber exposições, e a gente faz todo trabalho para conseguir levantar essa exposição num momento de precarização. Então nós somos artistas curadores, montadores e produtores levantando de fato essa exposição, por entender a importância que o Mucane tem para a gente como grupo, como pessoas negras moradoras da Grande Vitória. Essa é uma tentativa também de tornar esse espaço da galeria do Mucane como espaço vivo, que precisa ser ocupado, precisa receber a potência dos trabalhos, o axé desses artistas.

Como os trabalhos apresentados na Gira se relacionam entre si?

Estamos usando duas salas da galeria do Mucane e o que orienta a expografia da Gira é a produção de uma dialogia, uma conversa entre esses trabalhos, que se dá a partir de uma ideia de circularidade, pensando a circularidade como sabedoria ancestral africana, um modo de gestar nosso ritmo, do trabalho de cada artista, da curadoria. Por isso a curadoria optou por não produzir eixos temáticos, não fragmentar, não construir blocos desses trabalhos. Por mais que estejam em salas diferentes, conectadas por corredor, não estão distantes um do outro, na medida que a curadoria coloca todos trabalhos para conversar, e a forma de os colocar para conversar é produzir certa contradição entre eles.

Ao longo deste ano, todos os artistas presentes têm movimentado a cidade de Vitória, no sentido de pensar espaços realmente propositivos de arte, de formação, que vão trazer a centralidade da discussão para as contribuições das culturas afrobrasileiras na formação cultural do Brasil, pensar as contribuições dos povos negros e africanos para a história da arte.

São artistas que estão construindo e contribuindo para a circulação de seus próprios trabalhos mas também circulando essas questões que vão agenciar em seus trabalhos, que são questões políticas e afetivas, que são individuais mas que também são coletivas. Mesmo que esses trabalhos partam do lugar da experiência de cada um, vão se ampliar no sentido de promover uma coletividade.

Então, a concepção da curadoria é muito cadenciada com as proposições poética de cada artista. A Gira é um trabalho coletivo afrorrefecenciado, na medida em que a gente se coloca, curadoria e artistas, para ler o mundo, entender a realidade, expressar outras realidades, pensar realidades talvez impossíveis a partir de uma matriz africana de referenciais afrobrasileiros. Então não é só o exercício de falar sobre o outro. Não se constrói uma outridade, a gente elabora uma alteridade. Na verdade a curadoria tem sido pensada como discurso poético, não existe uma mera seleção ou organização dos trabalhos, o trabalho de curadoria de fato é pensar uma narrativa que vai aglutinar e agenciar esses trabalhos todos. É como corporificar essa questões todas e de fato potencializar o que já existe de potente em cada trabalho.

Mais uma vez, tem a ver com pensar como todo espaço, todo território carrega um discurso e pensar importância de colocar esse trabalho no mundo nesse momento. O que quer dizer para nós, num momento político tão conturbado, construir narrativas possíveis, potentes e muito originais? Não apenas sobre negritude, mas a partir de um olhar afrobrasileiro, como a ideia do sankofa [um ideograma de origem africana], de olhar para o passado, olhar para trás e buscar alguns caracteres, aquilo que foi esquecido, para partir daí fazer outros caminhos, criar um futuro comum.

E o movimento que a gente está construindo com o Mucane, entendendo a importância que esse espaço tem para nós, para o contexto da Grande Vitória, que faz com que a gente de alguma maneira se coloque como responsáveis por esse espaço, por ocupá-lo e torná-lo vivo. Essa é uma grande questão para a gente retornar, um espaço vivo, potente, fazer a energia circular no espaço expositivo do Mucane.

AGENDA CULTURAL

Exposição Gira

Quando: até 6 de dezembro, de terça a sexta-feira, das 14h às 19h

Onde: Museu Capixaba do Negro (Mucane) - Avenida República, 121 - Centro de Vitória/ES

Classificação livre.

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