Exposição registra os 'reis negros' do norte capixaba

Com fotografias de Zélia Siqueira, "Ticumbi: Eu Sou o Rei" estará em novembro no Ifes de Vitória

"Esses são os reis que eu elegi", diz Zélia Siqueira. Fotógrafa, ela apresenta a partir da próxima terça-feira (5), no campus de Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), a exposição Ticumbi: Eu Sou o Rei, que reúne mais de 20 fotos do Ticumbi, manifestação de cultura popular que existe unicamente no território quilombola do Sapê do Norte, mais especificamente em Conceição da Barra.

A exposição acontece na Biblioteca do Ifes, com inauguração às 20h30, como parte da programação da Semana Integrada da Consciência Negra, Educação Para a Vida, Humanidades, Livro e Biblioteca. A abertura terá participação especial da Folia de Reis de Goiabeiras.

Em homenagem ao mês da consciência negra, a exposição fica até o dia 30 de novembro no local. As fotos apresentam um olhar delicado de Zélia sobre a manifestação, que é uma riqueza pouco valorizada e conhecida do Espírito Santo, apesar existir há mais de 200 anos como uma encenação incluindo música e teatro que relembra as guerras tribais na África, continente de onde vieram ou descendiam os negros que a criaram.

Pandeiros, violas, bandeiras e coroas de flores compõem os artefatos da apresentação do Ticumbi, que sai para festejar em torno do Dia de São Benedito em dezembro e termina as celebrações em janeiro do  ano seguinte.

O contraste entre as roupas brancas, as peles negras e as coroas e fitas coloridas que fazem parte da vestimenta dos brincantes dão uma força especial para as imagens, que mostram uma aura de majestade para aqueles homens negros esquecidos pelo resto da sociedade, mas que ali no Sapê do Norte interpretam os grandes reis africanos.

A exposição Ticumbi: Eu Sou o Rei vem de fotos de anos atrás, nos primeiros encontros de Zélia com os "congos", como são chamados os brincantes. Por isso ainda traz a riqueza do registros de grandes mestres que já não estão neste plano. Francisco, Manoel, Marcelino e, mais recentemente, Miltinho, faleceram já com idade avançada. Mas suas imagens permanecem presentes.

No primeiro encontro com o Ticumbi, Zélia Siqueira conta que levou a câmera mas não usou. Preferiu a aproximação, a conversa, o conhecer cada um, para depois em outras ocasiões voltar e fotografá-los. Desde então não parou de registrar as festividades, mas embora tenha fotos novas com jovens brincastes que assumiram os postos, prefere por enquanto manter a homenagem em memória aos que já foram, enquanto vai preparando material para uma nova exposição no futuro.

Nascida no sertão baiano, ela viu as brincadeiras da cultura popular que assistia quando criança irem desaparecendo junto com o êxodo rural, já que as pessoas buscavam condições melhores de vida diante do abandono do campo e da criação de grandes projetos nas cidades. Os mais velhos morriam com o conhecimento e os mais novos não estavam lá para aprender ou não tinham interesse.

Depois de passar tempos em Minas Gerais, Zélia se encantou com o Espírito Santo e aqui ficou. Encontrar o Ticumbi foi despertar o fascínio do que via na infância, com a oportunidade de eternizá-lo em forma de fotografia.

"O que vale nas fotografias é o olhar. A máquina fotográfica é apenas um super olho, mas quem olha é quem fotografa; e a máquina não pode fazer milagre. O fotógrafo sim. Daí a importância, como no caso de Zélia, daquela que sabe ver", diz Gilbert Chaudanne, curador da exposição.

O trabalho fotográfico de Zélia com o Ticumbi estreou em Conceição da Barra na primeira edição do Festival Pocar e já foi exposto também em duas ocasiões na Universidade Federal do Espírito Santo.

A fotógrafa entende que estar num espaço educativo como o Ifes, com público de adolescente para adulto, possui total sintonia com a intenção de seu trabalho, que busca com que as pessoas conheçam mais da própria cultura, nesse caso, da cultura negra que se manifesta de forma tão rica e criativa no Espírito Santo.

O tema central da Semana Integrada do Ifes, da qual a exposição faz parte, é "Enfrentamento ao racismo estrutural/institucional e preconceitos no Ifes, na sociedade e na vida: reflexões necessárias e proposições urgentes", contando também com palestras, bate-papos, workshops, minicursos, treinamentos, e apresentações artísticas dentro da temática central. A programação completa pode ser encontrada aqui

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