Exposição traz fotografias tiradas a partir de câmeras feitas com latas

Resultado de oficinas de fotografia com técnica rudimentar, exposição está no Centro Cultural em Cariacica

Tirar fotos virou um mero apertar de botões em mecanismos tão pequenos e práticos como smartphones. Mas por trás de tudo isso há um punhado de história e tecnologia. Uma das técnicas mais rudimentares - e didáticas - de fotografia é o pinhole (do inglês pin hole, buraco de alfinete). Qualquer recipiente vedado de luz mas com um pequeno furo pode ser utilizado para produzir fotografias.

Com esse princípio, foram realizadas oficinas, entre junho e novembro de 2018, em Cariacica, ministradas por Camila Costa e Luisa Naves. O resultado da experiência dos alunos pode ser conferida na Exposição Coletiva de Fotografia Pinhole, que está disposta no Centro Cultural Frei Civitella, em Campo Grande de segunda a sexta-feira, de 13h às 18h.

As imagens transitam entre os campos do documental e da arte na busca da percepção de memórias individuais e narrativas coletivas. “No resultado das fotografias pudemos observar a preocupação com o enquadramento e com os elementos que iriam compor a imagem, como texturas, linhas e contrastes cuidadosamente pensados”, diz Luisa sobre o resultado obtido a partir das oficinas.

“Foi a técnica pinhole a responsável pela intimidade entre o ser humano e aquilo que hoje chamamos de imagem, antes distante e indomável e, a partir da técnica, possível de ser capturada. Se hoje em dia temos câmeras e equipamentos de alta tecnologia para gravar a realidade em imagens, isto é resultado de uma série de experiências químicas e ópticas, dentre elas, as da fotografia pinhole, que consiste em colocar um papel fotossensível (papel mergulhado em sal de prata, que escurece em contato com a luz) na superfície oposta ao furo e, posteriormente, revelá-lo em químico reagente”, explica Camila.

Além de extremamente didática para entender o processo fotográfico, a técnica também tem a vantagem de ser acessível economicamente, já que a tecnologia digital, embora muito difundida, tem custos elevados. “Queríamos ensinar fotografia, mas pareceu inviável a compra de uma máquina para cada aluno, até porque não tínhamos como saber quantos iriam se inscrever. Como solução, cada aluno fabricou sua própria máquina fotográfica pinhole, aprendendo os princípios básicos que orientam a fotografia a olho nu. Dividiram o mesmo papel e o mesmo químico”, conta Luisa, lembrando que a técnica já foi utilizada para observação de eclipses solares e para a pintura de quadros realistas.

As oficineiras consideram que a experiência dos cursos foi “extremamente lúdica e empírica”, demandando uma extensa pesquisa sobre fenômenos óticos e químicos. “Começamos pelo básico: a luz é uma onda eletromagnética. Os alunos se mostraram extremamente curiosos, porque conseguimos aplicar fatos do dia a dia no ensino, como por exemplo o fato de que as abelhas enxergam em ultravioleta e as cobras em infravermelho e, a partir daí, traçar um paralelo sobre porque o céu é azul e porque a luz do laboratório onde revelamos as fotos é vermelha. Para explicar como funciona a técnica, apresentamos-lhes conceitos físicos como o fato de a luz viaja em linha reta e regras de proporção, por exemplo, que quanto mais distante está o objeto do furo menor será a sua escala de proporção impressa no papel fotossensível, enquanto que se o objeto estiver muito próximo ao furo o resultado da foto seria um ‘close’”.  Além da teoria, os alunos tiveram acesso a livros sobre fotografia.

Na hora da prática, apesar de simples no equipamento, a técnica do pinhole é complexa. Não há visor  como em câmeras modernas e é preciso “calibrar” o equipamento, que também está sujeito às condições climáticas. O tamanho do furo, a intensidade do sol, o tempo de exposição, tudo influencia no resultado que será obtido em laboratório usando os reagentes químicos.

O aprimoramento do olhar dos alunos era uma das metas das oficinas. “Foi um pouco frustrante no começo, e tivemos que nos adaptar às nossas expectativas. Pinhole nada mais é do que prática e experiência. É quase um experimento científico, que só após muitos testes aponta a direção correta. E foi mais ou menos assim o desenvolver das oficinas: um caminhar entre erros e acertos, epifanias e frustrações, até o momento em que as fotos dos alunos não paravam de nos surpreender, uma após a outra!”, comemora Luisa.

Para Camila, o que mais chamou atenção na relação dos alunos com a tecnologia foi a curiosidade despertada para ver o resultado das imagens após a captura. “Condicionados pelo instantâneo das câmeras dos celulares, a ansiedade de ver o resultado das fotografias se espalhava pelo ambiente, numa atmosfera de curiosidade generalizada: não estavam apenas ansiosos para ver suas próprias fotos, mas também as fotos dos colegas. Na era das selfies, o despertar da curiosidade pelo trabalho do outro nos surpreendeu de maneira muito positiva!”

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