Filme capixaba aborda racismo na infância

Curta-metragem Guri, filmado na Barra do Jucu, será lançado na próxima terça-feira no Cine Metrópolis

Um menino negro, morador da periferia e que ostenta um cabelo black power é o personagem principal de Guri, curta-metragem de Adriano Monteiro, que será lançado na próxima terça-feira (26), às 19h, no Cine Metrópolis. A trama vai apresentar a história de Victor, de 12 anos, que sonha em vencer um campeonato de bolinha de gude, mas também se depara com o racismo na escola em que estuda.

Entre a leveza do brincar e a dureza das violências cotidianas e estruturais do Brasil, a obra de 13 minutos promete um drama-aventura infanto-juvenil que pode suscitar vários debates: as brincadeiras e vivências de rua cada vez mais perdidas, o racismo na infância, o bullying na escola, a masculinidade negra infantil, entre outros.

“Há uma lacuna no cinema brasileiro de produções audiovisuais para população negra infantil, existem poucas obras”, diz o diretor que é jornalista, cientista social e mestre em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O roteiro remete à sua infância, no bairro Guarunhus, em Vila Velha, entre as ruas de terra onde se brincava de peão, furingo, pipa, bolinha de gude, entre outros. “A questão racial me atravessa no sentido da pesquisa teórica e também da experiência de vida. Chegar na proposta do filme foi um processo orgânico e natural”, considera.

O racismo – como outros tipos de violência e preconceitos- costumam ser uma realidade dolorosa e difícil de compreender para as crianças, que podem ser induzidas a tentar ocultar sua identidade como forma de proteção ou assumi-la e enfrentar as consequências. No caso de Guri, Victor, interpretado por Wesley Silva, encontra em sua mãe, Madalena (Rejane Faria), a fortaleza de uma mulher negra consciente de sua ancestralidade e auto-afirmação.

Protagonizado por crianças negras, o elenco infantil conta com seis personagens, além de outros como a mãe, diretora da escola, professora e um sábio, interpretado pelo experiente Markus Konká, fora os figurantes.

Guri foi totalmente filmado tendo como cenário a Barra do Jucu. “Tudo começou no congo”, conta Adriano. Enquanto buscava locação para a filmagem, foi participar das festividades tradicionais no bairro e percebeu as várias ruas sem pavimentação, propícias para o jogo de bolinha de gude que sustenta a trama e que buscava reproduzir no filme, mas que estão cada vez mais raras hoje em dia, mesmo nas periferias.

Por coincidências ou “conspiração transcendental”, como sugere, várias conexões interessantes foram acontecendo, como encontrar na própria Barra do Jucu um grupo de teatro infantil que serviu para compor o elenco e outros fatos curiosos como a mãe chamada Madalena e as diversas referências a São Benedito, que estavam no roteiro mesmo antes do bairro ser escolhido para as filmagens.

Adriano Monteiro promete uma narrativa simples, ágil, que possa divertir o público ao mesmo tempo que consiga provocar reflexões e debates sobre a equidade racial. Inicialmente o filme deve circular por festivais, mas após essa etapa, o diretor pretende trabalhar com projetos pedagógicos para levar essa produção e outras para escolas.

“Temos que propor outro tipo de educação para as crianças, sejam elas negra, brancas, indígenas ou de qualquer etnia, para minimizar os impactos e traumas que o racismo provoca na autoestima delas, é muito cruel”, diz com a convicção de quem sentiu isso por experiência própria. “Propondo uma outra educação e parando de reproduzir certas coisas, acho que a gente consegue imaginar um novo tipo de sociedade, menos racista, homofóbica, machista. Espero que o filme possa ao menos apoiar esse debate nas salas de aula e lugares por onde circular”.

Para o lançamento nesta terça-feira, está prevista uma abertura com a exibição de episódios inéditos da websérie Palavra Negra, também dirigida por Adriano Monteiro, com poesias que refletem sobre a questão racial. Após exibição de Guri, haverá uma roda de conversa entre o diretor e a equipe do filme e o público.

AGENDA CULTURAL

Sessão Especial de Lançamento do Curta-metragem Guri, de Adriano Monteiro

Quando: Terça-feira (26/3) às 19h

Onde: Cine Metrópolis – Campus da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Goiabeiras, Vitória/ES.

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