Filme vai abordar chegada da epidemia de AIDS em Vitória

Longa-metragem ficcional 'Os Primeiros Soldados' está selecionado atores e atrizes LGBT no Espírito Santo

O biólogo Suzano retorna à Vitória depois de estudar na França sabendo que há algo estranho acontecendo em seu corpo, e encontra outras pessoas na mesma situação. Rose, uma mulher transexual que trabalha como artista na noite, é uma delas, que está sendo retratada por Humberto, um estudantes da Ufes, em um trabalho. "Aos poucos esses três personagens vão se aproximando, e no entorno deles toda uma rede dos homens e mulheres homossexuais de Vitória que estavam na linha de frente nesse primeiro ano da epidemia na cidade", conta Rodrigo de Oliveira, roteirista e diretor do longa-metragem Os Primeiros Soldados.

O filme vai se passar em sua maior parte na Grande Vitória, entre os reveillons de 1983 e 1984, numa época em que havia muito mistério e desinformação sobre AIDS, doença que começava a expandir pelo mundo. Com muitos personagens espalhados pela cidade, vai trazer os boêmios do Centro de Vitória, os hippies de Manguinhos, a turma das saunas e cinemas eróticos, artistas da noite, estudantes da Ufes, entre outros. O protagonismo é da comunidade LGBT. "Nós já começamos o processo de busca de locações, indo atrás daqueles lugares onde ainda parece ser 1983, e existem muitos por aí", relata

No momento, Os Primeiros Soldados está realizando seleção de elenco em busca de atores e atrizes que tenham identidade de gênero com os personagens retratados, já que a obra terá como foco e cenário esta comunidade. As inscrições podem ser feitas até o dia 10 de março por meio de um formulário que traz mais informações.

Para Rodrigo, que já dirigiu outros três longa-metragens, o tema da AIDS é quase invisível no cinema brasileiro. "É importante porque o vírus ainda está aí, forte e perverso como sempre, mas também porque ignorar as origens dessa história só faz com que os mesmos erros sejam repetidos".  Ele considera que o tema segue atual e a consciência política e senso de comunidade que a AIDS despertou no público LGBT é algo que marca a experiência de qualquer pessoa homossexual hoje no Brasil e no mundo, mesmo que ela não saiba disso.

"A homofobia, a tentativa de criminalização da experiência LGBTQ cotidiana, a censura contra a arte homossexual, mentiras como a 'cura gay' ou o 'kit gay', que colocou gente no poder na última eleição, tem a mesma raiz: a ideia de que a homossexualidade é algo 'transmissível', algo que se pega, e por isso não se pode ensinar educação sexual na escola, por exemplo. A AIDS está no coração disso, a terrível e equivocada história da 'peste gay", e esses preconceitos arraigados e que agora fundamentam políticas públicas", explica o diretor.

Rodrigo analisa que a narrativa dominante sobre a AIDS é a francesa e a americana, embora haja muita gente pesquisando e testemunhando há anos sobre o início da epidemia no Brasil, estes são relatos muito pouco conhecidos. Nesse sentido, o cineasta buscou pesquisar sobre o início da AIDS em Vitória mas encontrou poucos dados. "As estatísticas das vítimas só começaram a ser computadas em 1985, por exemplo: há relatos diversos de pessoas doentes e mortas antes desse período, mas elas nunca foram oficialmente reconhecidas como as primeiras vítimas, era uma doença nova, o fim da ditadura reunia a dilapidação do sistema de saúde e uma perseguição brutal à população homossexual, isso simplesmente não era importante para o poder".

O filme tentará então através de uma ficção imaginar quem foram essas primeiras vítimas não registradas pelas estatísticas oficiais. Aí entra o mergulho nessa comunidade LGBT, na qual o diretor busca dar um protagonismo com mais de 30 personagens homossexuais com fala, o que reconhece como parte de um ativismo "de um cineasta gay que quer trabalhar com seus pares", diz Rodrigo. Mas, também, é uma oportunidade de ter rostos e vozes que não se veem muito na representação do homossexual no Brasil. "Uma série de padrões impedem que um ator pintoso, afeminado, possa um dia aspirar a ser o galã heterossexual, mas toda hora a gente vê esses galãs carregando nas tintas pra interpretar as bichas mais caricatas. Isso é feio, mas também é desnecessário por causa do número absurdo de talentos gays que existe por aí", argumenta.

Assim, a seleção está focada em fortalecer e incentivar o talento de atores e atrizes LGBT no Espírito Santo. "Em 'Os Primeiros Soldados' eu quero muito ver as pessoas que eu vejo na vida real: a barbie branca da Praia do Canto e a poc negra de Cobilândia, os nerds machinhos e as pintosas, as não-binárias. Isso sem falar nas personagens transexuais: embalado pelo movimento contra o trans fake, nossas personagens transexuais serão interpretadas exclusivamente por pessoas trans", explica.

Embora considera que na arte os atores e atrizes podem interpretar qualquer personagem, os artistas LGBT não têm as mesmas oportunidades. Um filme sozinho pode não mudar a realidade, mas conta para a experiência e currículo que pode ajudar no desenvolvimento de suas carreiras.

"A hora de contar as histórias das minorias é agora, porque estão tentando nos apagar de vez", exclama.


 

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