Governo atende demanda judicial e cria comissão para o bairro Piedade

Mais de 40 famílias que deixaram o bairro precisam de apoio para moradia. Luta contra violência continua 

O Morro da Piedade, na Capital, foi alvo no último ano de conflitos que resultaram em assassinatos e a disseminação do medo entre os moradores. O resultado foi o êxodo de famílias obrigadas a abandonar o bairro e morar de forma improvisada na casa de terceiros ou pagar aluguel, mesmo sem terem condições financeiras para isso. Destas, 40 procuraram a Defensoria Pública do Estado (DPES) solicitando ajuda, o que motivou uma ação civil pública para cobrar providências do Governo do Estado. 

Por meio do Núcleo de Defesa Agrária e Moradia (Nudam), a Defensoria, em agosto de 2018, pediu na ação que o governo criasse uma comissão integrada com a participação da população e do poder público municipal e estadual, além de moradores da Piedade e Defensoria Pública, o que foi atendido no início deste mês.

Também solicitou o pagamento de aluguel social, atendimento psicossocial e escolar para as famílias. Acionada pelos próprios moradores, a Defensoria verificou a necessidade de solução não apenas dos problemas relacionados à moradia, mas também de questões envolvendo a segurança pública e a infraestrutura do local. 

Para o defensor público Vinicius Lamego, os moradores da Piedade precisam receber mais atenção do poder público. “Precisávamos resolver principalmente a questão da segurança, mas também a questão da assistência aos moradores, buscando a implementação de mais serviços na comunidade, que tem uma estrutura muito precária e é muito carente da atenção do poder público”, explicou.

Crise

O Morro da Piedade, localizado nas imediações do Centro de Vitória, vem sofrendo com a forte violência desde março de 2018, depois da morte dos irmãos Ruan e Damião Reis, executados com mais de 20 tiros cada um. Em julho, após a morte de Wallace de Jesus Santanna, considerado o braço direitos do traficante João Paulo Ferreira Dias, o “dono do morro”, moradores passaram a ser ameaçados. Em janeiro deste ano, outras três pessoas foram mortas e duas ficaram feridas na divisa com o Morro Moscoso.

Além dos irmãos Ruan e Damião, também foi executado Lucas Teixeira Verli, de 19, que jantava na varanda de sua casa, quando foi alvejado com disparos, inclusive no rosto, no dia 28 de maio. De acordo com relatos, um grupo com mais de 20 criminosos chegou ao bairro pelo alto atirando contra as residências antes das 21 horas. Entre os atiradores, homens com máscaras para esconder os rostos. Além de Lucas, Walace de Jesus Santana foi executado pouco tempo depois.

Reunião com Sesp 

Nesta semana, integrantes do Fórum Estadual de Juventude Negra (Fejunes) se reuniram com o secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, com o objetivo de elaborar mecanismos e estratégias que visam a melhoria do atendimento dos policiais com a população negra, sobretudo a juventude negra periférica. O objetivo é reduzir os índices de extermínio da juventude negra e o encarceramento em massa. Os problemas enfrentados pelos moradores da Piedade também estiveram em pauta.

Segundo Crislayne Zeferino Pereira, coordenadora do Fórum, essa foi a primeira vez em 12 anos que um secretário estadual de Segurança atendeu a um pedido de encontro exclusivo.“Foi uma reunião histórica. Essa é a primeira vez que somos atendidos, desde 2007, em uma pauta exclusiva do fórum por um secretário de Segurança Pública do Estado. Sempre tinha que ser uma pauta com outras entidades, em conjunto. O governo precisa sentar com os movimentos sociais e construir as estratégias em conjunto”, afirmou.

As principais pautas apresentadas pelos representantes do Fórum da Juventude Negra foram, segundo a coordenadora, a criação de um canal de diálogo com as forças policiais e um setor especializado em crimes de intolerância.

“O índice de morte da juventude negra é alarmante. Nossa principal proposta é a criação do fórum de diálogo, com perspectiva de uma criação de política de segurança comunitária e melhora de relacionamento com as forças policiais na comunidade. Teria participação das forças de segurança e dos gestores públicos. Pedimos também a implementação de um setor de investigações especiais de crimes de racismo, intolerância religiosa, preconceito contra deficientes e intolerância à preferência sexual. Ele nos falou sobre as dificuldades, mas se mostrou disposto a ouvir e dialogar”, explicou.

Também foi abordada a situação da Piedade. Os representantes da Fejunes enfatizaram que mesmo com o posto policial, inaugurado na fim da gestão Paulo Hartung, as mortes continuam. “É preciso rever e pensar junto com a comunidade e movimentos sociais o melhor caminho”, reforçou Crislayne.

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