‘Hartung continua a catequizar técnicos qualificados e ignorantes políticos’

Economista Eduarda La Rocque contesta o Estadão e defende política fiscal e educacional de Casagrande

“Tem que desfazer essa ideia de que o Renato Casagrande está flertando com a irresponsabilidade fiscal. A gestão fiscal vai muito bem e a educação está sendo redirecionada”. 

A dupla afirmação é da economista Eduarda La Rocque, ex-diretora do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e atual economista-chefe do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), ao contestar enfaticamente dois dos principais pontos expostos em um artigo publicado nesta terça-feira (8) no jornal O Estado de São Paulo: as políticas fiscal e educacional do Espírito Santo, nos governos de Paulo Hartung (sem partido) e Renato Casagrande (PSB). 

O artigo do Estadão é assinado pela também economista Ana Carla Abrão, sócia da consultoria Oliver Wyman e integrante do RenovaBR, movimento político ordenado por grandes empresários que visam impor uma visão corporativista de mercado à política nacional, e lançou nomes como os deputados Felipe Rigoni (PSB) e Tábata Amaral (PDT/SP). 

Intitulado Retrocessos, o artigo defende avidamente a gestão de Paulo Hartung e tenta desmerecer o governador Renato Casagrande. “O Espírito Santo, sob a gestão de Paulo Hartung, tornou-se exemplo de equilíbrio fiscal e eliminou de vez a falsa dicotomia entre gestão fiscal responsável e conquistas sociais”, alega Ana Carla Abrão. 

“Juntamente com a única nota A do Tesouro Nacional, veio também o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Estado, que ocupava a 14ª colocação em 2014, alavancou a qualidade da educação básica capixaba graças ao Programa Escola Viva, bandeira de campanha do então candidato a governador”, conta a integrante do RenovaBR. 

“Mas o Espírito Santo de hoje é outro”, ressalva. “A nova gestão ameaça fechar as Escolas Vivas sob alegação de que são muito caras”, critica, comparando ainda as atuações dos dois gestores no caso do movimento paradista encabeçado pelos familiares dos policiais militares em fevereiro de 2017. 

Ignorantes políticos 

O discurso da consultora mostra total falta de conhecimento sobre a realidade social e política do Espírito Santo, ressalta Eduarda La Rocque. “Paulo Hartung continua a catequizar técnicos qualificados, mas ignorantes políticos”, diz. 

A ardorosa defesa da gestão fiscal do ex-governador, aponta a economista-chefe do Banestes, não leva em consideração os retrocessos impostos às políticas públicas de bem-estar social. “Ele não fez os investimentos sociais que poderia, que tinha dinheiro pra fazer e não fez”. 

E também esconde a realidade sobre a construção da boa gestão fiscal do Espírito Santo, iniciada nos anos 2000 por toda uma geração de novos políticos, que incluem Renato Casagrande e Luiz Paulo Vellozo Lucas. 

“Os dados oficiais do Tesouro existem a partir de 2013, mas desde 2012 o Espírito Santo tem nota A em equilíbrio fiscal, governo de Casagrande. O Paulo Hartung se apropriou de algo que é obra de uma geração inteira, e que ele traiu”, expõe Eduarda. 

Ensino fundamental II

Sobre as medidas tomada em relação à Escola Viva, vitrine do ex-governador, Eduarda é veemente: “Existe uma avaliação contínua dos gastos públicos para redirecionamentos. A Escola Viva está longe de ser exemplo de resultado”, argumenta, com base em uma avaliação feita pelo Instituto Jones durante sua gestão na diretoria do órgão, quando o Sistema de Monitoramento e Avaliação de Política Pública (Simap) estava sob sua responsabilidade. 

A avaliação da Educação precisa ser holística, explana. “Não basta ter um crescimento no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica]”, diz, fazendo coro às críticas feitas por especialistas, incluindo o deputado estadual e professor Sergio Majeski (PSB) aqui neste Século Diário. 

A não aplicação do mínimo constitucional de 25% do orçamento na Educação e a consequente perda de R$ 4 bilhões que o setor sofreu nos últimos quatro anos de Paulo Hartung é uma das principais denúncias do parlamentar. A medida provocou a evasão de 60 mil jovens e crianças em idade escolar que não estão matriculadas em nenhuma escola; fechamento de quatro mil salas, com destaque para as classes noturnas e, especialmente, de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Os alunos do EJA são aqueles que, quando vem a avaliação do Ideb, têm a pior performance. Quando você tira esses alunos da escola, contribui pra elevar a avaliação. Essa melhora do Ideb tem tudo a ver com essa situação macabra de expulsar o aluno da escola, principalmente do noturno e do EJA”, exaspera-se o parlamentar, que também é professor.  “Aumentou em 50% o número de alunos fora da escola no governo de Hartung”, informa.

Com base na avaliação do IJSN, Eduarda diz que a Escola Viva custa três vezes mais que as demais escolas de ensino médio, sendo que, em muitos casos, tem mais de 50% de excesso de vagas. “Não foi um processo bem planejado, conversado, compactuado, que é o maior pecado do Paulo Hartung: decidir as coisas de cima para baixo. Isso não funciona”, assevera. 

O estudo técnico do Instituto apontou que a solução é redirecionar as excelentes escolas de tempo integral para o ensino fundamental II. “Precisamos de uma política educacional mais efetiva”, afirma. 

Financiamento para a sustentabilidade 

Mantido o equilíbrio fiscal, La Rocque anuncia que o Estado agora se prepara para construir um modelo de risco e oportunidade e disponibilizar, a partir do Banestes, uma linha de financiamento para o desenvolvimento regional, usando consórcios, parcerias público-privadas e parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 

O BNDES quer ser o banco de serviços do estado brasileiro e o Banestes quer replicar isso no Espírito Santo. “O Banestes consegue dar a capilaridade necessária e chegar nas prefeituras do interior”, explica. 

“Vamos criar uma rede para integrar todas as ações já existentes, do Bandes, da Aderes [Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo], do Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], e criar uma rede de assistência técnica com as universidades”, anuncia, citando também financiamento estrangeiro, principalmente da China e dos Estados Unidos, “que o Brasil não faz mas que o Estado pode fazer”.

"Integrar o ES regionalmente e também internacionalmente, sempre com foco no desenvolvimento sustentável, integral e holístico”, diz. “Vamos qualificar os projetos a serem financiados, para garantir o retorno social, ambiental e econômico dos investimentos”. 

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