'Nós não temos policiais suficientes para investigar tantos crimes', afirma presidente do Sindipol

Baixo efetivo policial faz com que a Polícia Civil capixaba priorize casos de maior repercussão, em detrimento dos crimes em áreas mais periféricas das cidades, como a Piedade

“Nós não temos policiais suficientes para investigar tantos crimes. O trabalho na Piedade deveria ser conjunto entre, pelo menos, dois setores da PC/ES Divisão de Homicídios e Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes. Infelizmente, sabemos que crimes em periferias não são investigados com o mesmo empenho de casos como o da médica Milena Gotardi e das crianças assassinadas no norte do Estado. São casos midiáticos e de grande repercussão, que também servem de trampolim político, por isso, os gestores da segurança, que são políticos, priorizam esse tipo de crime”, ressalta Jorge Emílio Leal, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Espírito Santo (Sindipol/ES).

A defasagem no quadro de policiais civis do Estado supera 60%, segundo o último levantamento feito pelo Sindipol/ES, fato que levou o Conselho Nacional do Ministério Público a defender publicamente a injeção urgente de investimentos públicos na Polícia Civil capixaba.

Os números são alarmantes: na década de 1990, havia aproximadamente 3.800 policiais para dois milhões de habitantes. Hoje, a população mais que dobrou e o efetivo baixou para 2.200. A situação caótica vem sendo denunciada pelo Sindipol/ES há anos, acompanhada de cobrança assídua por melhorias ao Executivo e à Assembleia Legislativa.

Consciente de que a melhoria da segurança pública passa por investimentos em saúde, educação, cultura, infraestrutura, lazer e outros serviços públicos essenciais, o Sindicato qualifica de forma precisa a importância do bom aparelhamento das polícias.

“A Polícia Civil é um dos pilares do sistema de segurança pública, para onde é canalizada toda ocorrência policial e situação flagrante oriunda do sistema de justiça criminal e das agências policiais que envolvem a segurança pública. Por isso, precisa passar por uma efetiva reestruturação que envolve investimentos em recursos humanos, materiais e de estrutura, além da valorização do profissional operador da segurança pública, com a pertinente formação continuada, qualificação e requalificação”, afirma.

A entidade sindical relata ainda o fechamento de muitas delegacias de Polícia Civil (DPs) e Destacamentos da Polícia Militar (DPM) em diversos bairros da Grande Vitória, entre eles, as DP do Centro de Vitória, de São Pedro, de São Torquato, de Vila Garrido, do Centro de Vila Velha, de Serra Sede, de Novo Horizonte, de André Carloni, a Regional de Vila Velha, outras, no âmbito da Polícia Judiciária, além da a Delegacia de Homicídios do Centro de Vitória. “O Espírito Santo é o único Estado do país cujo centro de sua capital não tem uma delegacia de polícia”, compara Jorge Emílio.

“Não se pode coadunar que diante de todo esse quadro de caos e abandono, se afirme que o crime está controlado, pois a realidade vivenciada pela população de uma maneira geral é bem diferente e mais problemática do que aponta a visão romântica do governo do Estado”, reclama.

Por tudo isso, argumenta o Sindicato, “é urgente a realização de concurso público para todos os cargos policiais, que novas unidades sejam construídas e os policiais valorizados, diante da complexidade de suas atribuições. Sem uma Polícia Civil mais eficaz e cidadã, cenas como as registradas na mídia em geral, de violência imposta pela 'lei' do tráfico, podem virar rotina no Espírito Santo”.

Piedade

O Instituto Raízes divulgou, nesta quinta-feira (14), números sobre a desocupação do território da Piedade, Centro de Vitória, nos últimos dias, desde o último assassinato registrado no morro, no domingo (13), do jovem Walace de Jesus Santana, 26 anos. Pelo menos 56 imóveis foram encontrados abandonados ou vazios e 181 pessoas já deixaram o morro.

A área conhecida como "Seu Queiroz", no alto do morro, foi a que sofreu o maior impacto este ano, com 90% dos moradores deixando suas casas.

“As escolas também estão sofrendo com o processo de esvaziamento da Piedade. As três escolas que compõem o território já somam baixa frequência dos estudantes, pedidos de "guardar a vaga até as famílias se reorganizarem" e 20 pedidos de transferências”, diz o Raízes, informando que também na unidade de saúde já se notou o esvaziamento e ausência dos moradores nos atendimentos.
 
Segundo levantamento feito pelo Instituto, o Morro da Piedade reúne desde 1909 mais mulheres e pessoas com idades de 0 a 29 anos, que somam 70% da população local, com renda média de R$ 744,17. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve 48% de redução dos números de moradores entre 2000 e 2010.

Para minimizar a tragédia, a entidade aposta no empoderamento social da comunidade. “Nossas ações privilegiam o trabalho com as histórias e memórias desse lugar, bem como a potencialização do samba como maior expressão cultural do território”, conclama.

'Não é nos morros que se fabrica as drogas'

Uma contextualização ainda mais abrangente da situação, no entanto, direciona o olhar e a necessidade de atuação firme do Estado para muito além dos morros onde são travados os duelos mortais dos soldados do tráfico, que tanto penalizam as comunidades mais carentes de serviços públicos estruturantes.

O professor de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Maurício Abdalla, morador do Centro da cidade, de onde visualiza o Morro da Piedade diariamente, tocou o dedo no ponto mais sensível dessa grande ferida social. “Não é nos morros que ficam os que mais ganham dinheiro com o tráfico. Não é nos morros que vivem os que têm poder para acobertar, libertar ou inocentar os grandes traficantes”.

“A estrutura violenta e brutal que se forma nos morros é alimentada por uma rede riquíssima, organizada e poderosa, capaz de sustentar uma complexa logística para fazer as drogas cruzarem fronteiras e percorrerem o país sem serem notadas (ou fiscalizadas), de conseguir armas modernas e pesadas para municiar os varejistas da droga e de lavar todos os milhões que o narcotráfico rende aos seus agentes invisíveis (e, suponho, na maioria brancos, insuspeitos e socialmente bem posicionados)”, diz.

“Se a polícia e a Secretaria de Segurança querem mesmo acabar com a tragédia e a guerra nos morros, em particular em meu querido Morro da Piedade (paisagem cotidiana que enfeita minhas janelas), devem atacar o mecanismo que sustenta o tráfico. O secretário sabe disso. Polícia no morro não vai resolver nada no médio e longo prazo”, desafia.

Paliativo tardio

Enquanto isso, o Palácio Anchieta, também vizinho da Piedade, somente agora, que a crise atingiu as manchetes de toda a imprensa capixaba, decidiu deslocar recursos para o bairro. Em março, quando o primeiro grande escândalo do ano no local aconteceu – a execução dos jovens Ruan e Damião Reis, sem antecedentes criminais e ligação com o tráfico de drogas –, o governador Paulo Hartung se recusou a receber uma comitiva de jovens da comunidade, com uma pauta de reivindicações para atenuar a insegurança que historicamente caracteriza o lugar, que, a despeito disso, é um dos principais berços do samba capixaba.

Esta semana, sem mais poder ignorar os fatos, o governo enviou seu alto escalão para as ruas e ladeiras da Piedade, incluindo o secretário de Segurança Pública (Sesp), Nylton Rodrigues, o comandante do Policiamento Ostensivo Metropolitano, coronel Antônio Marcos de Souza Reis, o comandante do 1º Batalhão (Vitória), tenente-coronel José Augusto Píccoli de Almeida, e o secretário de Segurança Urbana de Vitória, coronel Fronzio Calheira Mota.

O objetivo é encontrar um imóvel para instalar uma base da Polícia Militar, tarefa que está sendo executada pela Companhia Independente de Missões Especiais (Cimesp), a Companhia Especializada de Operações com Cães, a Força Tática da Polícia Militar, o 1º Batalhão (Vitória), e o Grupo de Operações Táticas (GOT), da Polícia Civil. 
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