Impacto da lama nos corais capixabas pode ser maior que em Abrolhos

Coordenador das pesquisas em Abrolhos enfatiza necessidade de estudos no litoral do Espírito Santo

Se a lama de rejeitos de mineração da Samarco/Vale-BHP chegou no sul da Bahia, certamente no litoral norte do Espírito Santo o impacto foi o mesmo ou ainda maior, pela proximidade com a Foz do Rio Doce.

A afirmação é do professor Heitor Evangelista (foto à esquerda), do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (LARAMG) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), coordenador do estudo “Sobre a incorporação anômala de metais em corais do Parque Nacional dos Abrolhos decorrente da chegada da pluma de rejeitos da Samarco na foz do Rio Doce – ES”, que comprovou a presença da lama da Samarco/Vale-BHP nos corais do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Diante dos fatos, o coordenador recomenda: “É preciso estudar esse impacto, pois os corais do Espírito Santo são tão importantes quanto os do Parque Nacional de Abrolhos”.

De fato, o Parque protege de forma especial apenas uma parte do grande Banco dos Abrolhos, que tem início no litoral norte do estado, próximo à Foz do Rio Doce. Apesar de menos conhecidos que os do sul da Bahia, os corais capixabas têm importância ecológica idêntica.

No estudo, divulgado nesta terça-feira (19), os pesquisadores lembram que “Abrolhos é o recife de corais mais importante de todo o Hemisfério Sul” e que “as áreas recifais são responsáveis por mais de um terço de toda a biodiversidade marinha global conhecida”.

Heitor explica que os corais são animais marinhos que vivem em simbiose com microalgas e segregam um exosqueleto calcário. O crescimento deles se dá em camadas, anualmente, semelhante aos anéis nos caules das árvores, que registram a idade das mesmas. Nos corais, a cada ano, uma nova camada formada registra as condições do ambiente onde eles vivem, eventos abruptos relacionados a alterações físico-químicas da coluna d´água, impactos humanos e outras atividades.

Assim, para verificar a presença dos rejeitos de mineração, foram coletados corais de espécies diferentes e lugares diferentes dentro do Parque feita a datação dos corais e medição dos metais, as amostras foram analisadas em dois laboratórios independentes, que usaram técnicas diferentes e chegaram ao mesmo resultado: houve aumento dos metais pesados logo após a chegada da pluma da Samarco no oceano.

O resultado, enfatiza Heitor, “veio apenas carimbar uma serie de suposições que já existiam”, referindo-se a estudos feitos pela própria Uerj, com armadilhas de sedimentos, em 2016, que já verificavam a semelhança entre os metais verificados nas armadilhas e os da Foz do Rio Doce, e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que realizou um trabalho de modelo de dispersão da pluma, mostrando grande possibilidade de Abrolhos ser impactado. 

Os metais anômalos encontrados dentro dos corais pela equipe do LARAMG foram zinco, cobre, lantânio, cério e arsênio. Sim, além do ferro e do manganês, a lama da Samarco trouxe ao litoral também outros metais. “Porque na calha do Rio Doce há um passivo ambiental”, ressalta Heitor.

E quais as consequências desses metais nos corais baianos e capixabas? Ainda não há resposta. “É difícil dizer, porque nunca houve um caso parecido com esse. Pode ser que os corais deem conta dessa contaminação ou tenham alguma resposta biológica. É preciso mais monitoramento”, ressalta. Afinal, o que acontece com os corais afeta grande parte da vida marinha, sublinha o pesquisador. “Tudo o que está relacionado à ecologia do coral funciona como uma base da cadeia alimentar marinha”, diz.

 

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