‘Inimigo do servidor’

Crise instalada entre governo e funcionalismo público deixa Casagrande na corda bamba para 2020

O primeiro ano do atual mandato de Renato Casagrande, que marca seu retorno ao governo, começou num clima pra lá de favorável, mas tem tudo para terminar bem longe disso, como mostra a crise instalada com as diversas categorias do funcionalismo público há meses, agravada agora com a aprovação, na “tratorada”, da Previdência Estadual. Detalhes: em tempo recorde e sem debate, apesar dos prejuízos a todos os trabalhadores, e nenhuma tentativa de consenso ou emenda. Ainda amargando o resultado e o andamento dos projetos na Assembleia, que ignoraram protestos, reuniões e inúmeros apelos, entidades representativas reagiram nesta terça-feira (26) colando no governador a marca de “inimigo do servidor” e já avisaram que estudam possíveis medidas judiciais para tentar barrar as mudanças. O funcionalismo já vinha em campanha por valorização, o que resultou em protestos nos últimos meses e até ameaça de greve, movimento que se consolidou como um dos principais calos no sapato de Casagrande, junto com a Frente Unificada que reúne policiais militares, bombeiros e civis, outro calo enorme! E exatamente essa Frente, no dia da votação dos projetos, como se sabe, realizou o primeiro ato público e passeata, em Vitória, de um ciclo anunciado para ocorrer de 15 em 15 dias (o próximo, tudo indica, será no Palácio Anchieta), até que o governo sinalize positivamente para a pauta de reivindicações. Para além de questões específicas de cada área, não é novidade que os servidores têm como prioridade a abertura de uma mesa de negociação efetiva que garanta a recomposição salarial negada há anos. Casagrande parecia ter conseguido uma trégua nos sucessivos impasses, ao anunciar, no começo deste mês, o reajuste de 3,29%, que virou 3,5% no projeto enviado à Assembleia. Mas com a bomba da Previdência, a conta não fez sentido. O índice, que já era considerado pouco (as perdas acumuladas ainda somarão 28,73%), virou um nada perto da alíquota de 14% (aumento de 3%). Feliz 2020 pra quem?

Muito ‘eficiente’
O trabalho comandando nessa segunda pelo presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos), para garantir a aprovação dos projetos prioritários do governo, foi tão rápido e eficiente, que ele até suspendeu a sessão extra que havia sido convocada na última semana para às 18h desta terça-feira (26). Não precisa mais. Missão cumprida. 

Fora de alcance
Agora me diz, se havia essa programação pré-definida há dias, para que aquela pressa de convocar outra sessão inesperada às 20h30 dessa segunda e liquidar tudo naquela correria e atropelo? Mais um dia de protestos e presença dos servidores na Assembleia seria demais? Oras, se não aguenta o trote...

Teoria x prática
A propósito, tanto o governador Casagrande quanto o líder do Governo, Enivaldo dos Anjos (PSD), são acusados pelas entidades representativas de não terem cumprido com suas palavras na condução do processo. Em reuniões, foi garantido que as regras só valeriam para novos servidores. Mas ficou só no discurso mesmo. 

Pra lembrar
Deputados contrários à proposta e a favor do pleito dos servidores: Sergio Majeski (PSB), Carlos Von (Avante), Danilo Bahiense (PSL), Lorenzo Pazolini (sem partido), Iriny Lopes (PT), Capitão Assumção (PSL), Janete de Sá (PMN), Torino Marques (PSL) e Vandinho Leite (PSDB).

Na espera
Um dia depois da aprovação da Previdência e do discurso do deputado Lorenzo Pazolini (sem partido) de que o governo sequer havia enviado a mensagem de reajuste para a Assembleia, o projeto enfim apareceu. Começou a tramitar nesta terça-feira, arredondando o índice de 3,29% para 3,5%. Esse projeto não dava pra aprovar voando, né, tem que esperar...

Erick no controle
Se o debate sobre a Previdência estadual rendeu muito burburinho e chumbo trocado entre os deputados nessa segunda-feira (25) na Assembleia, a PEC que antecipa as eleições da Mesa Diretora, atendendo a interesse de Erick, passou quase despercebida pelo plenário. Quatro votaram contra, mas dois ficaram quietinhos, dois fizeram discursos críticos.

Ué...
Os quietinhos foram Fabrício Gandini (Cidadania) e Dary Pagung (PSB). No caso de Dary, uma posição um tanto contraditória. Basta considerar que, tão logo a intenção de Erick apareceu no mercado, no início deste mês, o vice-líder do governo na Assembleia soltou uma nota pública listando desde retrocesso à manobra semelhante da Era Gratz, quando foi a última vez que a disputa foi antecipada no legislativo estadual. Dary recuou depois da harmonia inabalável entre a Assembleia e Casagrande?

Posições
Já os que criticaram foram Majeski e Iriny Lopes (PT). O primeiro afirmou não ter visto a menor justificativa para uma alteração como essa, nem benefício para a sociedade e a própria Assembleia. Já Iriny fez questão de dizer que não concorda com a tese levantada por Dary, de repetir práticas do passado, mas não poderia votar favorável a uma proposta que altera PEC do período do ex-deputado Claudio Vereza, seu correligionário.

No mais...
Nesses dias de muita turbulência, já tem plano rápido (se é que tem) para tentar reverter o cenário e iniciar 2020 com o pé direito, Casão?

PENSAMENTO:
“Nenhum governo pode ser sólido por muito tempo se não tiver uma oposição temível”. Benjamin Disraeli 

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