Iriny contesta recurso para impedir homenagens a líder do MST e Jean Wyllys

A manifestação da deputada defende a liberdade de agir segundo a ideologia de cada parlamentar

Em resposta ao recurso de oito deputados para barrar a concessão do título de cidadão espírito-santense ao ex-deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) e a João Pedro Stédile, um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a deputada Iriny Lopes (PT) divulgou nessa sexta-feira (7) uma nota sob o título “A democracia resiste nos pequenos gestos”, na qual defende a liberdade “para indicar e agir conforme seus princípios e respeitando o seu eleitorado”. 

O recurso foi apresentado pelo deputado Euclério Sampaio (sem partido) e a ele aderiram Lorenzo Pazolini (sem partido) Capitão Assumção (PSL), Danilo Bahiense (PSL), Torino Marques (PSL), Carlos Von (Avante), Vandinho Leite (PSDB) e Marcos Mansur (PSDB). 

O recurso pede que a decisão seja decidida no plenário, o que é inusitado, segundo o presidente da Assembleia, Erick Musso (PRB), que transferiu a decisão para a semana que vem.  As homenagens geraram críticas de militantes da direita, que, em maio desse ano, se mobilizaram para defender a concessão da comenda Domingos Martins, a mais alta honraria da Casa, à ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. 

Na nota, divulgada também nas redes sociais, a deputada Iriny Lopes afirma: “A tradição da Assembleia Legislativa é de respeito aos parlamentares em relação às indicações para recebimento de comendas, medalhas e títulos. Ainda que eu não concorde com as indicações de meu colega Assumção em designar para recebimento de título de cidadão espirito-Santense Jair Bolsonaro, Moro e etc., por que considerar, como alguns gostam de dizer, que 'nada fizeram pelo Espírito Santo, vou defender o seu direito de fazê-lo". 

E prossegue: “Parece estranho que parlamentares queiram quebrar o tratamento de civilidade estabelecido nesta Casa, de respeito aos eleitores que conduziram cada um dos 30 parlamentares aos seus mandatos. Cada qual de nós tem a sua ideologia, partidos alinhados à esquerda, que é meu caso, ao centro, direita e ultradireita, e o pressuposto é compreender que a política é um instrumento de debate, de reflexão, sugestão e aprimoramento e, principalmente, de representatividade”. 

Em outro trecho, Iriny ressalta que os deputados “têm liberdade para indicar e agir conforme seus princípios e respeitando o seu eleitorado. Fui eleita por uma parcela da população que não se viu representada nesta Casa de Leis. Pequenos agricultores, mulheres, negras e negros, jovens, LGBTs, para citar alguns setores”.

E acrescenta: “Portanto, é coerente que eu defenda esses grupos discriminados, que muitos na Ales chamam de 'minorias' e ainda acrescentam uma frase comum de sugerir que eu deveria legislar para 'toda a população', como se esses setores não fossem parte desse todo. Que raciocínio é esse que parte expressiva do povo não está incluída no genérico que essas pessoas chamam de sociedade? E por que eu, que fui eleita por parte desse eleitorado, deveria esquecer tudo em que acredito e disse e me alinhar aos conservadores?”.

O documento aponta ainda que, a indicação de Jean Wyllys, que teve que abandonar o país por "ameaças muito graves de morte a ele e seus familiares – ameaças que partiram de milicianos e outros grupos que acreditam na bala acima de tudo (até mesmo acima de Deus), e uma prova de que os setores armados não só ameaçam, mas executam de fato quem pensa diferente foi a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes -, se deve à resistência que o ex-deputado federal demonstrou nesses anos todos dentro e fora do Parlamento, em defesa da democracia, de grupos historicamente perseguidos e que, embora os deputados locais não queiram, existem no Espírito Santo. É disso que estamos falando".

Iriny ressalta que “João Pedro Stédille, além de integrante do MST, é coordenador da Frente Brasil Popular, que reúne movimentos sociais diversos em torno da defesa da democracia desde o golpe contra Dilma Rousseff. A Frente Brasil Popular é muito ampla se posicionou nas ruas contra a reforma trabalhista, contra o fim do Ministério da Cultura, entre tantos retrocessos que temos assistido desde 2016”.

Recentemente, prossegue a nota, Stédille se juntou às estudantes, aos alunos, professores e pais contrários ao corte de 30% nos recursos da Educação. "João Pedro é um árduo defensor da democracia, esteja ela ameaçada aqui, ou em todo o País. Faço aqui um parêntese para ressaltar que além dos dois indiquei o compositor, integrante da Velha Guarda da Portela e, para desespero dos meus pares, um homem de esquerda, o nobre Monarco”. 

Mais adiante, diz: “De novo, as indicações estão relacionadas à luta pela democracia. É tão sintomático que oito parlamentares homens tentem cassar o direito de uma das raras mulheres neste parlamento, e talvez a única de esquerda, e que usem métodos intimidatórios, truculentos, arregimentando o ódio e o preconceito pelas redes sociais e mídia e que queiram se colocar acima de tudo e todos para fazer valer a sua ideologia. Lembro a quem insulta Jean que a maioria do STF[Supremo Tribunal Federal] decidiu que homofobia virou crime, assim como o racismo”.  

A nota conclui: “O país é plural, múltiplo e, por isso mesmo, os setores escolhem parlamentares identificados com suas causas. Eu tenho princípios e grupos sociais que desejam ter voz na Assembleia. Por isso e por eles fui eleita. A democracia é meu norte e reside nos pequenos gestos. O autoritarismo também. Esse é um episódio que demonstra o quanto a liberdade de expressão e pensamento andam sob ameaça no país”.

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