Iriny questiona versão de secretário sobre crime na Vila Rubim

Deputada considerou frágil hipótese de briga do tráfico como razão do atentado contra moradores de rua

A deputada estadual Iriny Lopes (PT) pediu mais explicações e questionou a tese apresentada pelo secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Roberto Sá, sobre os crimes ocorridos no último domingo (15) na Vila Rubim, em Vitória, quando duas motos disparam diversos tiros contra pessoas em situação de rua, resultando na morte confirmada de uma pessoa e ao menos mais nove feridos.

Com base no que apontou a Polícia Civil, a versão é de que os crimes teriam sido fruto de conflitos entre facções ligadas ao tráfico de drogas de Cariacica e do Bairro da Penha na disputa de territórios. "Curioso raciocínio, considerando que para se consumar como vingança, seria mais plausível que o ataque ocorresse no próprio território dominado pelos desafetos de Bairro da Penha. De que forma traficantes do Bairro da Penha considerariam vingança um ataque a 10 moradores de rua, em um lugar distante 7 Km do local de disputa, sobretudo a consumidores em situação de miséria e que pouco atingiriam, em tese, os negócios dos inimigos? Enfim, uma tese que carece de mais explicação", questionou a deputada.

Vídeos das câmeras de segurança da região mostram que as duas motos já entram na rua atirando contra todas as pessoas que se encontravam na viela. A polícia revelou que as motos foram localizadas em Cariacica. "Talvez fosse interessante que a polícia também aprofundasse a relação dos proprietários desses veículos com os ataques e ainda a localização exata dessas motos: estavam em via pública, em um comércio, em uma residência? Respostas que devem ser colocadas pelo governo para que enfim a tese levantada pela polícia se sustente medianamente", sugeriu Iriny.

Além do ocorrido o na Vila Rubim, outras duas pessoas em situação de rua foram foram vítimas de atentados mesmo final de semana. Trata-se de um casal que morava numa barraca em um terreno baldio no bairro Divino Espírito Santo, em Vila Velha, que foi incendiado por criminosos na madrugada de sábado. Eles foram socorridos e internados Hospital Jayme dos Santos Neves, na Serra. "Nos dois casos ocorridos no final de semana há pelo menos uma certeza, de que está ocorrendo de forma muito grave e frequente um processo de higienização da cidade e com métodos criminosos e bárbaros", pontuou a deputada estadual petista, que considera que as políticas do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) ampliam o empobrecimento e da população de rua.

Iriny Lopes lembrou que não muito tempo atrás, o Espírito Santo possuía atuação de um grupo de extermínio privado como a Scuderie Detetive Le Cocq, que incluía em seus quadros de associados policiais, delegados, advogados, juízes e empresários. "Os tempos são outros, mas a estratégia de eliminação dos pobres e negros se mantém. A semelhança entre esses dois momentos é perpassada por períodos de autoritarismo. Não resta dúvida que nos encontramos num momento em que o fascismo abre as portas para todo tipo de crime, em que muitos citam Deus como álibi. Resta saber se como no passado do auge da Le Cocq as autorias de crimes permanecerão sem resposta".

Além de Iriny, entidades como o Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) e o Fórum Igreja e Sociedade em Ação também publicaram notas de repúdio ao ato criminoso na Vila Rubim.  "O CEDH, lembrando que todas as vidas humanas valem, espera que as autoridades e as instituições adotem as medidas necessárias para apuração rigorosa do crime e devida responsabilizações".

O Fórum lembrou que incluindo o grave ataque na Vila Rubim, o triste saldo do final de semana foi de 12 homicídios só na Grande Vitória. Lembrou que as mortes e outras violências não são isolados e criticou a atuação do programa Estado Presente. "As ações são focadas numa política reativa depois que as coisas já aconteceram", criticou o Fórum em nota, pedindo a construção de outra política de segurança pública que conte com ampla participação social e pautada na garantia do direito à vida de todos.

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