Jovens no sistema socioeducativo: 81,7% são negros e 98% homens

Pesquisa do Instituto Jones revelou ainda que 73% dos entrevistados não estudavam antes da internação

Pesquisa do Instituto Jones dos Santos Neves, ligado ao governo do Estado, revelou o perfil de adolescentes internos nas unidades (internação provisória e semiliberdade) do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases). O estudo revelou que negros (soma de pardos e pretos, segundo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE) representam 81,7% do total de jovens que integram o sistema. Além disso, 98% são do sexo masculino.

A pesquisa apontou também que apenas a figura da mãe é, em mais de 50% dos casos, a única responsável legal pelos adolescentes. Enquanto que os pais (pai e mãe) apareceram em 21,8% dos casos e apenas o pai em 7,6%. Entre os socioeducandos entrevistados, 15% já tinham filhos no momento da entrevista, mesmo com média de idade de 16,6 anos.

Em relação ao estudo, a pesquisa constata dados alarmantes: apenas 27% dos adolescentes e jovens estavam frequentando a escola no momento que entraram no Iase, ou seja, 73% estavam sem estudar. Já os socioeducandos que já tinham entrado no ensino médio representam apenas 9,5% do total. 

Os dados relacionados a trabalho, por sua vez, revelam que, entre os adolescentes e jovens internos do Iases, 82% já haviam trabalhado antes da apreensão, e apenas 18% nunca havia trabalhado. Entre os trabalhos estão vendedores do comércio em lojas e mercados, garçons, lavadores de carro, feirante, ajudante de pedreiro, ajudante de pintor, etc. 

Os dados foram coletados por meio de entrevistas com os próprios socioeducandos, entre os anos de 2015 e 2018, nas unidades de internação da Grande Vitória (Cariacica), Sul (Cachoeiro de Itapemirim), Norte (Linhares) e nas unidades de semiliberdade (Serra e Vila Velha). O estudo foi realizado em conjunto com a Secretaria de Estado Extraordinária de Ações Estratégicas, hoje incorporada à Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH). 

Local de Moradia

A maioria dos adolescentes e jovens (53,2%) afirmou que não gostaria de mudar de cidade ou bairro, enquanto 20,6% admitiram que mudariam de cidade e de bairro, outros 14,2% do Estado, e ainda, 12% gostariam de mudar apenas de bairro. 

"Interessante ressaltar que quase a totalidade dos internos moravam em bairros periféricos, que costumam ser carentes de serviços e infraestrutura. No entanto, pode-se pressupor também que existam laços sociais construídos ao longo do tempo que remete a esse desejo do jovem permanecer no local de mais da metade dos entrevistados”, diz o relatório da pesquisa, que foi apresentada em evento nesta semana.

Os atos infracionais que os socioeducandos afirmaram estar cumprindo são, na sua maioria, ligados ao tráfico de drogas (35,4%). Além de roubo (23%), porte ilegal de arma de fogo (11,1%) e por homicídios (9,4%).  

Racismo Institucional

Para Gilmar Ferreira, do Centro de Cidadania e Direitos Humano da Serra (CDDH), desta vez, um relatório feito e divulgado por órgão do governo comprova que não há uma política pública preocupada com a infância, adolescência e juventude no Espírito Santo, contrariando a Constituição Federal e tratados internacionais, que dizem que a infância e a juventude devem ser prioridades.

Para o militante de Direitos Humanos, fica clara também que a situação é mais grave para a população negra dessas faixas etárias, que foram “eleitas” para a internação, segregação, e, em seguida, para o encarceramento no sistema prisional superlotado para adultos. “Essa população continua cada vez mais vulnerável, aumentando a categoria dos matáveis, e o Estado os elegendo como inimigos”. 

E completa: “O racismo institucional fica evidenciado na pesquisa e, nesse caso, as vítimas são adolescentes  jovens. Fica clara a escolha pela segregação e encarceramento dessa juventude, levando em consideração que várias unidades têm estrutura física análoga a "presídios juvenis".

Metodologia 

De acordo com o Instituto Jones dos Santos Neves, as entrevistas foram realizadas em etapas. A primeira delas entre os meses de setembro e outubro de 2015 com os adolescentes e jovens presentes nas unidades na data de aplicação, sendo realizadas 158 entrevistas, sendo 141 de adolescentes/jovens que se encontravam na UNIP II e 17 na Unidade Feminina de Internação, na Grande Vitória.

A segunda etapa do trabalho de campo ocorreu no ano de 2016, sendo que o levantamento foi realizado nas unidades de internação permanente e na provisória restante (UNIP I), também localizadas na Grande Vitória. Essa etapa totalizou 268 entrevistas. 

A terceira etapa da coleta de dados da pesquisa ocorreu nos primeiros meses de 2018, nas unidades provisórias e nas unidades de internação permanente do norte, em Linhares, e do sul, em Cachoeiro de Itapemirim. Em Linhares (Norte) foram entrevistados 313 socioeducandos, enquanto em Cachoeiro de Itapemirim (sul) foram entrevistados 176 jovens. Por fim, em agosto de 2018, foram entrevistados 22 socioeducandos na Grande Vitória que estavam na unidade de semiliberdade.

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Ufes 'mostra a cara' na Semana do Conhecimento

Em tempos de ataques, universidade mostrará a milhares de jovens projetos de ensino, pesquisa e extensão

Recompensa de Capitão Assumção para morte de criminoso gera notas de repúdio

Oito entidades da sociedade civil e o Psol de Cariacica ressaltam apologia à violência 

Iases divulga programa para melhorar políticas do sistema socioeducativo

Projeto tem foco na escolarização, profissionalização, saúde, esporte, cultura, lazer e segurança

População carcerária do Estado deve chegar a 30 mil em 2020

Previsão é do presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, Rhuan Fernandes, que esteve na Ales