Livro resgata história de casal capixaba exilado na Argentina

Militantes comunistas, Newton Freitas e Lídia Besouchet tiveram importante papel intelectual no exterior

Newton Freitas nasceu em Vitória e Lídia Besouchet se instalou no Espírito Santo ainda jovem, junto com a família que vivera em vários estados. Foi na juventude que os dois se conheceram, engajados no movimento comunista. O envolvimento político foi cada vez maior até 1935, quando já no Rio de Janeiro, participam da Intentona Comunista, quando grupos ligados à Aliança Nacional Libertadora (ALN) e ao então Partido Comunista do Brasil (PCB) tentaram derrubar o governo de Getúlio Vargas.

O fracasso da ação levou Newton à prisão e Lídia à clandestinidade. Anos depois, o casal partiria para o exílio no Uruguai e, meses depois, na Argentina. Foi em Buenos Aires que estabeleceram contato com intelectuais progressistas argentinos e de outros países que também se exilavam por lá, mantendo conexões com importantes pensadores e ativistas brasileiros que seguiam no Brasil ou no exterior.
Ambos exerceram uma intensa atividade intelectual, escrevendo diversos livros e artigos para jornais e revistas da época, muitos deles sobre a realidade e a cultura brasileira, contribuindo para fazer a ponte entre Brasil e os países hispano-americanos. Esse papel de diálogo e ponte intercultural foi o centro do estudo de doutorado da historiadora e pesquisadora Lívia de Azevedo Silveira Rangel, que resultou no livro Intelectuais fronteiriços: Lídia Besouchet e Newton Freitas: exílio, engajamento político e mediações culturais entre o Brasil e a Argentina (1938-1950), que será lançado nesta terça-feira (26), às 18h30, na Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, no Centro de Vitória. Na ocasião, 50 exemplares da obra serão distribuídos gratuitamente.

Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Lívia encontrou Lídia pela primeira vez nas páginas da revista Vida Capichaba, que marcou época com quase 700 edições lançadas durante mais de quatro décadas de existência. Nos arquivos, pesquisa escritoras feministas que haviam escrito décadas atrás sobre as questões das mulheres. 

Mas, para além dos artigos, encontrou poucas referências a ela. E menos ainda a seu companheiro, Newton. Foi essa ausência de informações que despertou a curiosidade na pesquisadora e levou a encontrar os acervos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), que funciona na USP, onde a obra e arquivos de ambos havia sido doada pelo filho do casal, constando mais de seis mil documentos em diferentes formatos e conteúdos.

Lívia vai então mergulhar na vida e obra dos dois, especialmente no período de vivência na Argentina, que termina em 1950. Por lá Newton havia ingressado na carreira diplomática e o casal viveria em diversos países antes de voltar definitivamente ao Brasil nos anos 80, falecendo no Rio de Janeiro, ele em 1996 e ela em 1997.

A pesquisa de Lívia Rangel articula elementos biográficos de ambos personagens e busca também arquivos da repressão policial em São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, para entender o ativismo que impulsionou o casal e alterou sua trajetória até se estabelecer na Argentina, onde também exerceu profícua atividade política registrada em artigos combatendo o peronismo, de linha populista e nacionalista com alguma similaridade ao varguismo. Lívia também foi à Argentina pesquisar nos arquivos locais os escritos e a influência do casal de intelectuais, já que muitos de seus livros não foram publicados no Brasil.

A pesquisadora destaca o trabalho de Newton Freitas na divulgação da cultura brasileira, em particular a cultura popular, indígena e afrobrasileira e suas celebrações, que ajudou a apresentar para o público argentino e hispânico, além de difundir os grandes nomes da literatura clássica brasileira.

Lídia Besouchet construiu uma contribuição mais voltada para o aspecto historiográfico, publicando livros sobre a atuação de personagens como Barão de Mauá e o Barão de Rio Branco nas relações do Brasil com Uruguai e Argentina. Mesmo no exterior, o casal nunca deixou sua relação com o Brasil e também com o Espírito Santo.

Pese a relevância que tiveram na época, porém, Lídia e Newton são ilustres desconhecidos na terra onde cresceram e começaram a atuar politicamente. "É interessante para o capixaba conhecer essa intelectualidade que esteve preocupada com a cultura brasileira e capixaba e que fez uma interação, um intercâmbio com outros países. Mas falta uma valorização, talvez pelo posicionamento político dos dois, foram jogados para escanteio, mas são figuras importantes para a cultura e história capixaba. Agora é um momento para trazê-los à tona e mostrar o que fizeram pelo Brasil e pelo Espírito Santo", afirma Lívia Rangel.

Foto1: Acervo pessoal de Augusto Newton Goldman / Fotos 2 e 3: Fundo Polícias Políticas/Desps-Aperj / Foto 4: Lívia Rangel / Foto 5: Acervo pessoal de Augusto Newton Goldman / Foto 6: Grete Stern

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1 Comentários
  • PERLY CIPRIANO , terça, 26 de novembro de 2019

    É muito importante o resgate da historia e da trajetória deste casal de capixabas,Newton Freitas e Lídia Besouchet que contribuíram na luta pela democracia,que viveram no exílio e mantiveram coerentes com seus ideais.Não conhecia a historia deste casal,embora militante de esquerda desde 1960,o que confirma que o passado sempre trás novidades boas,tristes ou trágicas.Não podemos jamais deixar cair no esquecimento o nosso passado e em especial a luta das gerações que nos antecederam.Não li,ainda o livro,mas quero felicitar Lívia Rangel pela sua dedicação e pesquisa para assegurar ao ES e ao Brasil,que sempre existiram pessoas que resistiram e lutaram por um mundo melhor.

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