Mais de 2/3 da poluição do ar na Grande Vitória são da Vale e ArcelorMittal

Relatório da Ecosoft mostra que seis dos sete poluentes aumentaram suas concentrações entre 2009 e 2015

Mais de dois terços da poluição do ar na Grande Vitória são emitidos pelas empresas Vale e ArcelorMittal Tubarão.

Seis dos sete poluentes medidos aumentaram suas concentrações na atmosfera no período entre 2009 e 2015.

A medição de algumas fontes emissoras dentro do Complexo minero-siderúrgico de Tubarão não foi feita de forma eficiente, como é o caso dos pátios de materiais.

O inventário de fontes poluentes não estabelece o impacto das emissões medidas sobre a qualidade do ar e a saúde da população.

Esses são alguns dos destaques extraídos do Inventário de Emissões Atmosféricas da Região da Grande Vitória - Ano Base 2015 (RTC190018-R1), elaborado pela empresa Ecosoft, e apresentado pelo governador Renato Casagrande (PSB) nessa quarta-feira (5), em solenidade pelo Dia Mundial do Meio Ambiente realizada no Palácio Anchieta.

Diante das inconsistências, o presidente da ONG Juntos SOS ES Ambiental, Eraylton Moreschi Junior, critica: “não adianta falar em PQAR, Padrões de Qualidade do Ar e etc., se não houver ferramenta com assertividade para indicar a fonte emissora da poluição que possibilitou o rompimento do valor estabelecido no padrão”. E protesta: “se não tem credibilidade, por que publicar?”.

Em suas redes sociais, a ONG destacou ainda o aumento de 33% da presença das partículas inaláveis finas – as mais perigosas para a saúde, além do aumento de 300% das emissões de dióxido de enxofre (SO²) da Vale, que agora emite mais do que a siderúrgica, historicamente, a maior produtora desse poluente.

“As poluidoras comandam e dão as ordens!”, denuncia. “Quer pior que um diretor-presidente do Iema [Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos] ter mais de 30 anos dentro da Vale?”, provoca. 

A entidade também produziu tabelas comparativas entre os anos de 2009 e 2015 na Ponta de Tubarão e entre as duas poluidoras.

No geral, o complexo minero-siderúrgico-portuário cresceu suas emissões em seis dos sete poluentes medidos. Material Particulado Total (MP) subiu 8% no período. Partículas inaláveis (MP10) cresceu 12,5%. Partículas inaláveis finas (MP2,5): 45,3%. Dióxido de Enxofre (SO2): 55,8%. Óxidos de Nitrogênio (NOx): 75,3%. Monóxido de Carbono (CO): 25,7%. Apenas os compostos orgânicos voláteis (COV) reduziram em 22,9%.

No período, a ArcelorMittal Tubarão aumentou suas emissões de MP (40,3%), de MP10 (22,1%), de MP2,5 (25,9%), de NOx (22,4%), de CO (14,7%) e de COV (100,8%), reduzindo apenas o SO², em 19,2%.

Já a Vale diminuiu MP (39%), MP10 (7,7%) e COV (4,8%), aumentado a produção de MP2,5 (32,9%), de SO² (300,82%), de NOx (89,2%) e de CO (200,24%).

Limitações reconhecidas

No documento, a Ecosoft afirma que “a quantificação das emissões atmosféricas devido ao processo de erosão eólica em pilhas de materiais, por exemplo, utiliza uma metodologia com uma formulação que em que muitos fatores foram idealizados”.

E que, “além disso, diversas variáveis aplicadas ao equacionamento utilizado estão relacionadas à rotina operacional, havendo limitações em relação à qualidade de informação fornecida”.

Dessa maneira, explica, “quando essa metodologia é empregada em uma situação real e complexa, como é o caso da RGV, sua aplicação corresponde a um elevado grau de incerteza”.

Assim, conclui, “recomendam-se maiores estudos, iniciativas de fomento ao desenvolvimento de técnicas de monitoramento de emissão para esse tipo de fonte e até mesmo o desenvolvimento de uma metodologia considerando as particularidades da RGV – grandes pátios, com diversas pilhas vizinhas uma das outras, diferentes tipos de materiais movimentados e com diversos tipos de controles atmosféricos atuando em sinergia”.

Sobre a relação entre volume de poluição medido e impactos na qualidade do ar, a consultora alega que “o conhecimento por si só das taxas de emissões das principais fontes poluidoras de uma região não garante uma relação direta entre causa e efeito na qualidade do ar. A maneira como os poluentes são lançados na atmosfera, as condições metereológicas, a distância entre a fonte e o receptor e o relevo atuam em complexas interações resultando na qualidade do ar da região”.

Por isso, recomenda: “técnicas específicas devem ser empregadas para avaliar os impactos da qualidade do ar de determinadas fontes emissoras, como por exemplo a modelagem matemática da dispersão de poluentes atmosféricos e o uso de modelos de balanço de massa químico (modelos receptores)”.

E sugere: “o conhecimento das fontes emissoras da RGV permite a realização de um plano de controle de emissões atmosféricas. Uma vez adotadas as medidas propostas para redução nas emissões, é verificada a qualidade do ar através do monitoramento contínuo, de modo que esse ciclo seja realizado quantas vezes forem necessárias, até que sejam alcançadas as metas finais de qualidade do ar estabelecidas no Decreto nº 3463-R de 16/12/2013”.

'Recall ambiental'

Em face dos dados incipientes constantes do relatório, a Juntos SOS requereu, ao secretário de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), Fabricio Machado (PV), em caráter de urgência, reunião extraordinária do Conselho Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Consema) para apresentação e análise conjunta do relatório, envolvendo Seama, Iema, academia e empresas responsáveis pela elaboração.

“Demoraram três anos e meio para entregar um produto com defeito, já necessitando de recall? Lastimável”, lamenta o presidente da Juntos SOS.

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