Meliponicultores alertam para plantas tóxicas às abelhas

Abelhas morrem dentro da bela flor da espatódia e larvas não sobrevivem ao polén do neem levado para o ninho

“Salvem nossas abelhinhas!”. A súplica, da meliponicultora Luana Pimentel, resume o alerta e apelo feito pela Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (Ame-ES), com relação a árvores exóticas que estão dizimando as abelhas nativas, os beija-flores e outros importantes polinizadores.

A espatódia e o neem são os principais alvos da preocupação no momento, devido seu alto poder mortífero e sua expansão acentuada nas cidades capixabas. A espatódia, explica João Luiz Santos, presidente da Associação, mata os animais imediatamente, já dentro da sua bela flor alaranjada.

Cada vez mais plantada nas beiras de estrada, devido à beleza de sua florada, ela tem se espalhado com facilidade, trazendo consequências graves para a polinização da floresta e das lavouras. Em São Paulo, informa João, já tramita uma lei para proibir o plantio da espatódia, fruto da mobilização dos apicultores e meliponicultores. 

Já o neem, ainda não se sabe exatamente como se dá o extermínio das abelhas. O que se observa, explica o presidente da Ame-ES, é que, onde há floradas de neem, as abelhas desaparecem, morrem dentro dos ninhos, o que leva a crer que o pólen ou néctar, ao ser levado para alimentação das larvas, impede seu crescimento, exterminando as colmeias.

O problema se intensifica após as chuvas, mas ainda não há estudos científicos conclusivos sobre como esse processo acontece exatamente.  “A gente se baseia em testemunhas dos produtores, na experiência e vivência, no empírico do pessoal”, diz João Luiz.

A resistência em tocar no assunto é grande, lamenta, por puro desconhecimento, pois as pessoas têm plantado o neem com o objetivo de repelir mosquito, o que é um engano. “É uma ilusão terrível! O que mata o mosquito é o repelente, o líquido feito a partir do extrato do neem, e não a presença da planta em si perto de casa”, esclarece.

O mesmo erro acontece com a cintronela, conta o biólogo da Ame-ES, Paulo Henrique Dettmann Barros. “O mosquito não se alimenta da planta. Já as abelhas pegam partes da planta, o néctar e o pólen, e se alimenta dele”, explica. Por isso, morrem no contato com a cintronela e o neem. Já o mosquito não.

Até o momento, o que se identificou, explica Paulo Henrique, é que o princípio ativo do neem, o Azadiractina, impede a larva de ficar adulta. É provável que na Índia, país de origem da árvore, as abelhas tenham proteção para o Azadiractina, “mas as nossas abelhas não têm proteção”, afirma.

“Se não tiver controle por parte da prefeitura, vai virar praga, vai levar a um desequilíbrio ambiental”, alerta Luana, referindo-se ao plantio de neem, feito pela Prefeitura de Aracruz, nas ruas da cidade, e à disponibilização de mudas da planta no viveiro municipal. “Qualquer um pode pegar essas mudas e plantar onde quiser. Isso é ruim pra quem quer preservar o meio ambiente”, destaca.

A solução, recomenda a meliponicultora, é distribuir mudas de árvores nativas, como ipês, bem como plantá-las nas vias públicas, substituindo as atuais espatódias e neens. “Tem que ter um controle”, cobra.

“O que vai acabar com o mosquito e as doenças é não deixar água parada”, lembra. “As pessoas não sabem como as árvores exóticas podem fazer mal pro nosso ecossistema. Quem não tem manejo com abelhas nem percebe”, alerta.
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