Monocultura de eucalipto é o uso do solo que mais cresce no Estado

Estudo do IBGE destaca avanço do deserto verde no norte capixaba entre 2016 e 2018

O avanço contínuo do deserto verde, vivenciado em campo por camponeses e quilombolas do norte capixaba, revela-se em mais uma estatística oficial, desta vez, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

O Monitoramento da Cobertura e Uso da Terra para 2018, divulgado nesta quinta-feira (26), enfatizou que, “no período de 2016 a 2018, as mudanças [no uso do solo] no Espírito Santo predominaram no norte do Estado. Em destaque, observa-se a conversão de Pastagem com Manejo e Área Agrícola em Silvicultura”, enuncia o Instituto. 



Em quilômetros quadrados (Km²), os números são os seguintes: a área de Silvicultura aumentou de 2.271 (ano 2016) para 2.350 (2018), o que significam 79 km² (7,9 mil hectares) a mais de monocultivos exóticos numa região já extremamente castigada pela escassez hídrica e florestal. 

Conclusão semelhante consta no Atlas da Mata Atlântica do Espírito Santo, lançado em 2018, referente aos anos de 2007 a 2015: no período, a eucaliptocultura foi o uso do solo que mais cresceu, saltando de 5,8% do território para 6,8%. 

Segundo os dados do Atlas, tal percentual equivale a 308,3 mil hectares de eucaliptos. Somando-se os 7,9 mil medidos pelo IBGE entre 2016 e 2018, tem-se 316,2 mil hectares de desertos verdes em todo o Espírito Santo, quase 7% do território. 

Ecocídio, hidrocídio, genocídio

Os plantios de eucalipto foram iniciados no Espírito Santo na década de 1950 pela Aracruz Florestal, que derrubou milhares de hectares de Mata Atlântica primária aos correntões, dizimando córregos, nascentes, lagoas e comunidades inteiras, expulsando quilombolas, indígenas e camponeses para as periferias das cidades do norte e da Grande Vitória. 

Os que permaneceram em seu território original passaram a ser perseguidos pelo agronegócio do eucalipto. As instalações das três fábricas da então Aracruz Celulose, hoje Fibria/Suzano, intensificou o ecocídio nas terras plantadas acima do Rio Doce, transformando imensas extensões de terra com abundância de floresta e água em solos áridos, contaminados por agrotóxicos e vazios de pessoas, daí a alcunha “deserto verde” para as monoculturas de eucalipto. 

Nelas, a biodiversidade é ínfima, restrita às espécies geneticamente modificadas para a alta produção em clima tropical, muitas formigas e outras “pragas” combatidas com dosagens elevadas de pesticidas lançadas pelas aeronaves, que acabam também por atingir plantações de subsistências, escolas e vilas rurais que se espremem entre os exércitos de eucaliptos enfileirados até o próximo corte mecanizado. 

Os protetores da floresta, ou povos tradicionais, ainda resistem, mas em situação muito precária, pois carecem de água, solo fértil e políticas públicas que lhes garantam seus direitos constitucionais. A perseguição, a criminalização e as tentativas – algumas vezes bem-sucedidas – de cooptação das lideranças mais destacadas continuam sem trégua. Mas eles resistem, pelo bem da saúde ambiental dos vales do Cricaré e Itaúnas, e suas microbacias. 

Nos últimos cinco anos ou um pouco mais, o avanço do eucalipto no norte do Estado tem se dado mais em substituição aos canaviais e pastagens abandonadas, mas a floresta nativa continua sendo reduzida, em pequenas mordidas. E isso o IBGE também mostrou.

Menos floresta e menos pastagens

A cobertura florestal em todo o Estado reduziu, nos mesmos dois anos em que o deserto verde saltou aos olhos dos pesquisadores, em 8 km² ou 800 hectares, mostrando que o Programa Reflorestar, uma das vitrines do ex-governador Paulo Hartung, não resultou, absolutamente, em qualquer acréscimo real na cobertura florestal do Estado. 

Avaliando todo o período do estudo do IBGE – iniciado em 2000 e refeito a cada dois anos – percebe-se que as florestas capixabas têm sofrida queda constante na área total que ocupam. Eram 3.659 km² em 2000 e 3.286 em 2018, uma redução de 10,19%, ou 373 km² a menos de mata nativa. 

Contínuo também foi o crescimento da silvicultura durante o período analisado no estudo. Em 2000, os monocultivos ocupavam 2.224 km². Em 18 anos, portanto, o avanço foi de 126 km² (12.600 hectares), 5% a mais. 

Já na análise do período total do estudo, de 2000 a 2018, o IBGE afirma que chamou atenção o aumento da Área Agrícola, que saltou de 739 km² (ano 2000) para 2.073 km² (2018), quase o triplo. Outro destaque foi a redução do Mosaico de Ocupações em Área Florestal, que passou de 25.315 km² em 2000 para 24.265 km² em 2018. 

As pastagens tiveram um aumento no início dos anos 2010 e depois começaram a cair ininterruptamente. Eram 9.813 km² em 2000, passaram para 9.885 em 2010, e chegaram em 2018 com 9.823. 

Mais eucalipto

A Suzano anunciou investimentos de R$ 500 milhões em 2020 para o chamado Fomento Florestal, de forma a abastecer sua fábrica de papel higiênico em construção em Cachoeiro de Itapemirim, sul do Estado. Dinheiro que será injetado, muito provavelmente, nas pequenas e médias propriedades rurais, adicionando monocultivos de eucalipto em meio aos remanescentes florestais e lavouras existentes nesses imóveis. 

Esses emaranhados de usos diferentes do solo são chamados pelo IBGE de Mosaico de Ocupações em Área Florestal, com a seguinte definição: “ocupação mista de área agrícola, pastagem e/ou silvicultura associada ou não a remanescentes florestais, na qual não é possível uma individualização de seus componentes. Inclui também áreas com perturbações naturais e antrópicas, mecânicas ou não mecânicas, que dificultem a caracterização da área”. 




É o uso do solo mais importante nos 46.086,907 km² que compõem o território capixaba, segundo o Instituto. Atrás deles estão as Pastagens e a Vegetação Florestal. 

Esse Mosaico, no entanto, tem uma limitação de entendimento pleno das variações em sua composição, explica Fernando Dias, gerente de Recursos Naturais da unidade estadual do IBGE em Santa Catarina, onde o monitoramento nacional é feito. “Foi realizado um trabalho de campo especifico pra detalhar os mosaicos na serra capixaba, numa experiência piloto pra tentar detalhar os Mosaicos de Ocupação Florestal no Brasil. Mas mesmo em campo foi difícil esse detalhamento”, relata.

Os Mosaicos apresentaram pequena redução da área ocupada entre 2000 e 2018, de 105 mil hectares, mas considerando sua predominância no território capixaba, e o investimento industrial anunciado na expansão da silvicultura, preocupa o impacto dos pequenos e médios monocultivos de eucalipto que eles passarão a abrigar em breve, instalando, também no sul e em outras regiões do Estado, os mesmos dramas ecológicos e humanos vividos no norte e noroeste. 

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1 Comentários
  • José Marques Porto , sexta, 27 de março de 2020

    Parabéns Fernanda estava com saudades excelente reportagem. Parabéns ao Luis Fernando Nogueira Moreira por manter o Século Diário, única mídia livre no Estado do Espírito Santo paraíso das grandes corporações e terra do Deserto Verde, que só aqui é denunciado.

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