Mulheres debatem capoeira no dia 8 de março

''Baixinha'' vai relatar experiência de 17 anos dando aulas de capoeira em escolas e projetos sociais

Num 8 de março, Dia Internacional da Mulher, três mulheres capoeiristas estarão no centro do debate que acontece às 19h no Centro Cultural Frei Civitella, em Cariacica. "Ainda somos poucas na capoeira, mas somos protagonistas em vários temas", diz a instrutora Carol Zanchetta, do grupo Beribazu. Ela divide a mesa com a formanda Baixinha e a instrutora Chris, ambas do grupo A.C.A.P.O.E.I.R.A. no debate "Cultura Popular: políticas públicas e formação profissional em capoeira".

A mesa marca a finalização do Curso de Formação de Educadores Populares em Capoeira realizado em Cariacica pelo professor Eleandro da Silva, do grupo Beribazu, destacando como eixos políticas públicas e elaboração de projetos de incentivos culturais, fisiologia aplicada à capoeira e capoeira na escola e em projeto sociais.

Cada uma das convidadas vai tratar de resumir o acúmulo de debates em torno de um dos eixos. A instrutora Chris abordará a questão da fisiologia aplicada à capoeira, trazendo conceitos como a relação da energia e a atividade física; sistema energético; metabolismo e a capoeira; vias energéticas predominantes na prática da capoeira; capoeira para pessoas com diabetes e hipertensão e calorias gastas na capoeira.

Alessandra dos Santos, a formanda "Baixinha", vai relatar um pouco de sua experiência de 17 anos dando aulas de capoeira em escolas e projetos sociais, como o Transformando Vidas, que funciona na entidade sem fins de lucro Reame, em Campo Grande.

Ela falará sobre jovens que voltaram a estudar, melhoraram as notas, se tornaram mais sociáveis e comunicativos em casa, na escola e outros lugares, e até aqueles que deixaram envolvimento com drogas e criminalidade a partir do projeto. Há relatos de pais e mães que foram treinar com os filhos e isso ajudou a melhorar a autoestima e se livrar de depressão e alcoolismo. "Há também alunos que conseguiram possibilidade de trabalho através da capoeira, dando aula em projetos sociais ou instituições privadas. O projeto contribui com a formação de cidadão de caráter, de boa conduta, e também consegue trabalhar na prevenção de doenças causadas pela ociosidade", relata.

A própria experiência de vida de "Baixinha" é exemplo de onde a capoeira pode levar. Crescida em Cariacica, não tinha muitas condições financeiras, mas conseguiu melhorar de vida graças à capoeira, que serviu de apoio e estímulo também para suas duas graduações, em Pedagogia e Educação Física, além de três pós-graduações que possui. Já deu aulas e cursos em vários países do exterior. No encontros internacionais de seu grupo no Espírito Santo, busca levar os alunos, que podem assim experienciar e trocar com capoeiristas de outros estados e países.

Nos 17 anos de trabalho, a formanda estima que já passaram mais de 5 mil pessoas por suas aulas. "A capoeira é democrática: uma gosta mais de tocar instrumentos, outro faz por questão de saúde, outro quer ser atleta, ela consegue abraçar todos. Na roda joga advogado, médico, menino de periferia, professor pedreiro", lembra a capoeirista, que também deve abordar durante o encontro a diferença e complementariedade entre a educação formal e informal na sociedade e na escola.

Políticas públicas

A diversidade da capoeira também é destacada pela instrutora Carol, pois traz elementos de música, dança, esporte, e outros, sendo que cada grupo apresenta suas particularidades.

Ela, que também é advogada, vai apresentar um relato sobre as políticas públicas e os editais que beneficiam a capoeira, especialmente o edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), que possui uma linha especialmente voltada para a capoeira. Porém, há grande dificuldade para muitas pessoas e grupos em acessar esses recursos. "Muitas vezes os editais recebem poucos projetos porque falta capacitação que ajude a transformar a ideia em projeto".Para além da Secult,no entanto, o fomento via editais não tem sido replicado pelos municípios nos últimos anos, com exceção de Cariacica, onde funciona a Lei João Bananeira, que inclusive contemplou o projeto do curso de formação.

Mas para Carol, o papel do poder público não deve se resumir aos editais, pois há outras possibilidades e necessidades de ação. Ela cita o reconhecimento da roda de capoeira e do ofício de mestre como patrimônio imaterial no Brasil. "Esse reconhecimento demanda uma série de ações que estão caminhando muito devagar", critica. Assegurar uma aposentadoria digna para os mestres pelos serviços prestados a partir da cultura popular, proteger a biriba, árvore utilizada para confecção de berimbau, reconhecer e incentivar pequenos artesãos que produzem instrumentos são algumas das iniciativas que ela cita como importantes.

Outra cobrança vem para o empresariado capixaba, que pouco investe em iniciativas culturais, especialmente aquelas de pequeno porte, que mais precisam e que conseguem transformar realidades com muito pouco recurso. A própria Carol dá aulas como voluntária há seis anos na comunidade de Boa Vista, em Vitória, onde viu o espaço e as pessoas se transformarem a partir do início da prática.

"A capoeira não vai resolver o problema do mundo, os problemas sociais de todas crianças, mas é um incentivo, uma esperança, um outro caminho que pode ser vislumbrado", conclui a instrutora.

AGENDA CULTURAL

Debate: "Cultura Popular: políticas públicas e formação profissional em capoeira"

Quando: Sexta-feira, 8 de março, 19h

Onde: Centro Cultural Frei Civitella - Avenida Expedito Garcia, Campo Grande, Cariacica/ES.

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Ex-ministro vem a Vitória debater reforma da Previdência

Seminário do Sindiupes terá Carlos Gabas, que dirigiu ministério da Previdência Social nos governos do PT