Mulheres soltam a voz em atividades culturais no Parque Moscoso

No Dia Internacional da Mulher, evento reuniu gerações para debater o patriarcado, a violência e o corpo

Mulher trabalhadora, responsável pelas atividades do lar, Zenaide resolveu se dar ao direito de ter um momento de lazer. O lugar escolhido para isso foi um quiosque. Mal acabara de chegar, a vontade de se divertir deu lugar ao pânico e à necessidade de salvar a própria vida. Não sabendo de onde, Zenaide tirou força para pegar no braço de seu agressor, que a confundiu com uma ex-namorada, e afastar a faca de seu pescoço ensanguentado, jogando aquele homem no chão. 


Foto: Leonardo Sá

Essa história foi contada para dezenas de pessoas pela própria Zenaide na concha acústica do Parque Moscoso, Centro de Vitória, durante um evento cultural no oito de março, Dia Internacional da Mulher, realizado pelo Fórum de Mulheres do Espírito Santo. 

Foi nesse mesmo parque que, há 21 anos, ao contrário de Zenaide, outra mulher não conseguiu sobreviver para contar sua história. Ela se chamava Maria Cândida Teixeira e foi morta pelo próprio marido, de mãos dadas com sua filha. Hoje ela dá nome à Casa Abrigo Estadual, responsável pelo acolhimento de mulheres vítimas de violência. 

“O parque tem esse simbolismo. Fazer essa atividade aqui é uma forma de preservar a memória das mulheres que tiveram suas vidas retiradas, além de ser um espaço onde muitas mulheres vêm a passeio, que muitas famílias visitam”, diz a assistente social e militante do Fórum de Mulheres, Emily Tenório. 


Foto: Leonardo Sá

Os relatos de violência e a memória de mulheres das quais o patriarcado tirou o direito de viver, sonhar e realizar sonhos, misturaram-se com a valorização das lutas das trabalhadoras, como as petroleiras, que falaram em defesa da Petrobras em uma aula pública, e com produtos feitos por agricultoras, como os doces e biscoitos produzidos pelas militantes do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA). 

Misturaram-se também com o resgate de práticas que passam de mãe para filha há várias gerações e com as quais a indústria e a apologia ao consumo não conseguiram acabar. Ao redor de uma mesa, várias mulheres escutavam atentamente a terapeuta holística Yasmin Ferreira ensinar algo que aprendeu com sua mãe, que por sua vez aprendeu com sua vó, e por aí vai: a produção de sabonetes caseiros. 


Foto: Leonardo Sá

“A utilização de folhas, de ervas, historicamente, é feita por mulheres. A produção de sabonetes caseiros é uma forma de reverenciar aquelas mulheres que já passaram pelas nossas vidas e é também uma maneira de proporcionar um novo olhar para a natureza e para nosso próprio corpo, pois as plantas têm propriedades terapêuticas”, explica Yasmim, que com glicerina vegana, óleo de essência de capim limão e calêndulas mostrou como fazer um sabonete que pode, por exemplo, auxiliar na cicatrização do mamilo de mães que estão amamentando. 

Em meio ao parque, as pessoas tiveram a possibilidade de participar de atividades feitas por mulheres, que soltam a voz para falar de sua realidade, daquilo que vivem e anseiam. Essa voz se expressa não somente ao pegar o microfone para fazer relatos ou aulas públicas, mas também por meio de danças, esquetes, oficinas de Malabares, Doces Veganos, Cartaz, Corpo e Presença e Chá de Revelação: Auto Maquiagem. Esta última trouxe diversos questionamentos, como, por exemplo, há somente o azul e o rosa dos famosos chás que viraram moda para revelar o sexo do bebê que está sendo gestado?


Foto: Leonardo Sá

“Nessa oficina são propostas várias reflexões. Por  que a gente usa maquiagem? Por que a gente assume alguns padrões de maquiagem? Por que alguns podem usar maquiagem e outros não? A gente quer falar de diversidade, dizer que não existe só azul e rosa, existem várias cores”, diz a artista plástica Amanda Brommonschenkel, que ministrou a oficina. 

As atividades foram feitas por mulheres, mas a participação não foi restrita a elas, pois o machismo deve ser debatido com todos, como ressaltou a militante do Fórum de Mulheres, Evelyn Flores. E assim, a tarde uniu gerações em ações importantes para adultos e crianças, perpassando o corpo, a alimentação, a convivência entre as pessoas e a luta pelo fim do patriarcado. 

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
1 Comentários
Matérias Relacionadas

Saraus apresentam escritoras mulheres e artistas latino-americanos

Em Vitória acontece o Sarau Segundo Sexo e em Cachoeiro de Itapemirim o Sarau Verbo Intransitivo

Tunico da Vila lança novo disco de samba

Na coluna: novo clipe de Dan Abranches, reforma do Carlos Gomes, mulheres no cinema, música e literatura

Mulheres pedem 'basta à violência' e 'fora Bolsonaro' em protesto na Capital

Marcha alertou sobre altos índices de feminicídio e a política misógina e de retrocesso do governo federal

Festival Seita promove arte protagonizada por mulheres e LGBTI+

Afari MC é uma das atrações do evento, que terá oficinas, shows e outras atividades domingo em Vila Velha