Municípios do sul são os campeões no consumo de glifosato no Estado

Herbicida representa 54% dos agrotóxicos usados na região, que chega a 1,23 milhões de quilos/ano

O glifosato, princípio ativo do herbicida roundup, da multinacional Monsanto, é o “campeão” de vendas no sul do Espírito Santo, representando 54% de todo o volume comercializado nas bacias hidrográficas dos rios Itabapoana, Itapemirim, Rio Novo e Benevente. 

A constatação é da Comissão de Saúde e Meio Ambiente do Fórum Espírito Santense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (Fesciat), coordenado pelo Ministério Público Estadual (MPES), que sistematizou dados disponibilizados pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), relativos às vendas de venenos agrícolas durante o primeiro semestre de 2018 em todo o Estado. 

Nos seis meses analisados, foram encontradas receitas de vendas de 332,8 toneladas de princípios ativos, ou 616,3 toneladas no ano. Como os princípios ativos correspondem, em média, à metade do peso dos agrotóxicos vendidos nas lojas especializadas, chega-se a aproximadamente 1,23 mil toneladas de venenos agrícolas utilizados em 2018 na região, o que equivale a 3,37 toneladas de agrotóxicos jogados diariamente nas plantações da região. 

Os números, adverte o agrônomo Edegar Formentini, representante da Associação dos Servidores do Incaper (Assin) na Comissão, são provavelmente menores do que a realidade, principalmente nos oito municípios da Bacia do rio Itabapoana, que registrou apenas 9,9 mil kg nos seis primeiros meses de 2018.  

“O nosso trabalho não estudou as causas desta baixa comercialização”, ressaltando que existem cidades fronteiriças à bacia, com atividades comerciais de agrotóxicos muito fortes, como Espera Feliz, em Minas Gerais, e Itaperuna e Bom Jesus do Norte, no Rio de Janeiro.

Na bacia do Itapemirim, a maior e mais populosa, chamou atenção a diferença entre a região alto e baixa. Os oito municípios da região de montanha da bacia comercializaram uma quantidade significativamente maior (198 toneladas de princípios ativos) do que os sete municípios da baixada (89,8 toneladas). 

Na bacia do Itapemirim, a maior concentração ocorreu nos municípios de Iúna (tem o café arábica como principal atividade agrícola), Venda Nova do Imigrante (café arábica e olericultura) e Marataízes (abacaxi e cana-de-açúcar). 

Não houve qualquer registro de venda de agrotóxicos em Muqui, Atílio Vivacqua, Jerônimo Monteiro, Vargem Alta e Itapemirim. Em Rio Novo do Sul, a quantidade registrada foi ínfima. O que, para Edegar, é um mistério ainda a ser desvendado. 

Por enquanto, o que os pesquisadores do Fórum observaram foi a indicação de comércio clandestino, pontuada por várias pessoas ouvidas. “Potenciais comerciantes de agrotóxicos em dois municípios em que não há registro de comercialização destes produtos nos confidenciaram: ‘É impossível concorrer legalmente com vendedores clandestinos’”, relata.

Diuron

Outro agrotóxico que chamou atenção da Comissão é o Diuron, herbicida seletivo que atua tanto em pré-emergência (antes da germinação da planta, ainda na semente), como em pós emergência (atua na planta já nascida) e recomendado para cana-de-açúcar, citros, café, algodão, alfafa, cacau, banana, abacaxi, uva e seringueira.

Mais de 90% do Diuron comercializado no sul do Estado estão registrados para o município de Marataízes, município forte produtor de abacaxi e cana-de-açúcar. “Por isso imaginamos que ele está sendo numa delas ou nas duas”, acredita o agrônomo.

“Não é veneno”

Ainda sobre o glifosato, Edegar acredita que sua utilização tão massiva na região se deva a um entendimento equivocado do senso comum, onde o herbicida é tido como um produto não venenoso. “É comum se ouvir de agricultores a expressão ‘eu não uso veneno eu só uso glifosato’”, conta o pesquisador. 

Em função dessa visão, complementa, “o glifosato é o primeiro agrotóxico a ser usado e o último a ser abandonado, porque os municípios onde se usa menos agrotóxicos o glifosato têm um percentual de uso maior e, naqueles em que se usa mais agrotóxicos, o percentual dessa substância é maior”, pondera. “Esta é uma opinião pessoal, com base em conversas com agricultores, porém sem nenhum dado científico estudado”, ressalva. 

Na região, vivem 867 mil pessoas, segundo estimativas do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São 30 municípios: Dores do Rio Preto, Divino de São Lourenço, Guaçuí, São José do Calçado, Bom Jesus do Norte, Apiacá, Mimoso do Sul e Presidente Kennedy (Bacia do Itabapoana); Ibitirama, Alegre, Irupi, Iúna, Ibatiba, Muniz Freire, Venda Nova do Imigrante, Conceição do Castelo, Jerônimo Monteiro, Castelo, Cachoeiro de Itapemirim, Muqui, Atílio Vivacqua, Itapemirim e Marataízes (Bacia do Itapemirim); Vargem Alta, Rio Novo do Sul, Iconha e Piúma (Bacia do Rio Novo); Alfredo Chaves, Anchieta e Guarapari (Bacia do Benevente). 
 

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