Noite Cultural fortalece identidade e organização indígena em Aracruz

Projeto realiza última edição do ano com apresentações culturais no sábado na aldeia Caieiras Velha

Desde 2017, encontros políticos e culturais vêm fortalecendo a identidade, o intercâmbio e a organização de comunidades indígenas do Espírito Santo. Trata-se da Noite Cultural, evento mensal que realiza sua última edição de 2019 no próximo sábado (28), a partir das 19h30, no pátio central da aldeia de Caieiras Velhas, em Aracruz, norte do Estado, com participação gratuita e aberta.

Durante a noite haverá atividades como danças e cantos tradicionais, pintura corporal, exibição de documentário com o Cineclube Ybymembyra, exposição fotográfica, venda de artesanato e música ao vivo com o grupo Os Tupinikim, que reúne o ritmo de tambores, casacas e instrumentos de cordas com canções que retratam as vivências dos indígenas.


Foto: PHfotos

A cada edição, a Noite Cultural reúne uma diversidade de apresentações e também espaços políticos. O lema do projeto é “Nossos cantos, nossas histórias, nossas memórias: um grito contra o retrocesso de direitos”. No dia 28 de dezembro, como encerramento do ano, o tema para debater na noite será o próprio projeto, com a pergunta: “O que foi a Noite Cultural pra você neste ano de 2019 e qual a sua expectativa para 2020?”, com microfone aberto para todos que quiserem opinar.

Ao longo de suas edições, foram realizados debates com temas como “A situação territorial e os desafios diante do atual governo”, "Os desafios de ser um estudante indígena em uma universidade federal fora do Estado", “Histórias do Passado e identidade Cultural com a liderança”, “Resgatando brincadeiras infantis de 30 anos atrás”  "Como era a vida na aldeias quando ainda não havia água encanada", convidando para dar seus depoimentos e análises diversas lideranças locais, desde jovens até idosos.

Foi justamente a provocação dos anciões para os mais novos que fez surgir o projeto em agosto de 2017. Num ensaio do grupo de dança Jovens Guerreiros e os Tamboeiros, junto com antigos mestres, houve uma roda de conversa ao final. “Eles reclamaram dizendo que eles não iriam ficar aqui na terra para sempre, que iria chegar o dia deles partirem, porém não queriam partir sem antes passar para os mais novos as histórias, os cantos, as danças, os batidos dos tambores e casacas”, conta Jocelino Tupinikim, coordenador do projeto da Noite Cultural, realizada em parceria entre o Grupo de Jovens Guerreiros e o Grupo de Tambores Fortes do Mestre Olindo, com apoio do Instituto Cocar.


Foto: PHfotos

Surgia então a Noite Cultural, com o objetivo de fortalecer a memória e a identidade cultural do povo Tupinikim. “A ideia era trazer de volta as noites que aconteciam na aldeia nos tempos passados, onde tinha o ecoar dos sons dos tambores levando as histórias do nosso povo através dos cantos entoados pelas várias vozes da aldeia, desde a criança aos mais velhos, e isso acontecendo de forma natural, iria fortalecendo a identidade do povo gerando nos mais novos e na comunidade o desejo de participar”, conta Jocelino. 

Tem dado certo. Após o início das atividades da Noite Cultural, novos grupos surgiram dentro da aldeia e outras pessoas passaram a praticar os cantos de danças tradicionais, o que não faziam antes. Hoje somam-se o Grupo de Tambores Fortes com Mestre Olindo, o Grupo de Mulheres Guerreiras com Dona Helena Coutinho, Grupo de Curumim com Mizinho, o Grupo de Jovens Guerreiros com Jocelino Tupinikim, Grupo de Curumins Guerreiros com Ricardo Pajehú e o Grupo de Arqueiros com Alex Sandro dos Santos. 

Os eventos mobilizam as aldeias, especialmente Caieiras Velha, que é sede do encontro, embora uma edição também já tenha sido realizada na aldeia de Pau Brasil, com objetivo de expandir a proposta. 

O coordenador do projeto conta que além de atividade cultural e política, também é um momento de encontros e relacionamentos, já que as famílias saem para o pátio com seus filhos e familiares para confraternizar e também manifestar a indignação com o ataque aos direitos dos povos indígenas no âmbito local e nacional. “"É preciso resistir, para continuarmos a existir", é outro dos lemas que o projeto carrega. 

Como um evento aberto, já recebeu visitantes de vários municípios capixabas e de outros estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, além de promover encontros interculturais com outras comunidades tradicionais como pomeranos de Santa Maria de Jetibá e Grupo de Ballo Nova Trento, da comunidade italiana do distrito de Guaraná, em Aracruz.

A Noite Cultural foi realizada com recursos próprios da comunidade em 2017 e 2018, tendo sido contemplado em edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) para as atividades de 2019, o que permitiu potencializar o projeto com a realização de oficinas de cantos e danças tradicionais, com foco na revitalização da língua indígena e no envolvimento de crianças e adolescentes, além de favorecer a compra de instrumentos e indumentárias usadas pelos grupos em suas apresentações.

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