Novos assassinatos na Piedade expõem falta de diálogo para conter violência

Desde a intensificação da onda de violência, moradores pedem solução e paz para as comunidades

A região que engloba os morros do Moscoso e da Piedade, em Vitória, voltou a sangrar novamente, na noite dessa segunda-feira (14), quando mais três jovens foram assassinados durante um tiroteio em plena praça pública. A onda de violência tem apavorado moradores e intensificado uma crise de segurança pública que já dura quase um ano, quando ocorreram as mortes dos irmão Ruan e Damião Reis em março de 2018. Desde então, o medo tem tomado conta dos moradores e gerado evasão do bairro. Nem mesmo um posto policial, inaugurado em 26 de dezembro do ano passado, mostrou resultado. 
 
Luiz Fernando da Conceição Gomes, de 18 anos, Wemerson da Silva Lima, de 23, e Patrick Oliveira de Sousa, de 26, foram executados durante o tiroteio. Além deles, duas pessoas foram baleadas sem risco de morte, identificadas como um coletor de lixo, de 28 anos, e uma adolescente, de 15. De acordo com relato de testemunhas, criminosos do Bairro da Penha teriam entrado no Morro da Piedade e seguido para a praça do Moscoso, onde dispararam vários tiros a esmo, com a intenção de ocupar a região. Após os assassinatos, fugiram pelo Morro da Fonte Grande, deixando mais de 40 cápsulas de vários calibres espalhados pelo chão.

Diante da nova tragédia, a Escola de Samba Unidos da Piedade transferiu uma festa que comemoraria os 64 anos da agremiação nesta terça-feira, afirmando estar de luto, assim como as comunidades. O evento será realizado no próximo domingo (20). Desde as mortes dos irmãos Damião e Ruan, a comunidade tem se mobilizado em busca de paz. Em junho do ano passado, foi realizada uma caminhada pela paz, com culto ecumêmico. 

Posto Policial
No dia 26 de dezembro do ano passado, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), ainda na gestão de Paulo Hartung, inaugurou o posto policial da Piedade, depois de polêmicas a respeito do local para instalação. A inauguração atendeu a uma antiga reivindicação dos moradores, que, desde 2018, sofrem com o agravamento de uma intensa onda de violência do tráfico. No entanto, entidades como a ONG Raízes da Piedade, não foram convidadas para o evento. Inconformados com tal descaso e falta de diálogo, um protesto foi realizado na quadra da Escola de Samba Unidos da Piedade, no mesmo horário da solenidade de inauguração. 

"Como já sabíamos, apenas a instalação da base da PM não seria o suficiente pra trazer segurança à comunidade. Sem um processo de diálogo e busca de saídas junto aos moradores, instituições e movimentos que atuam na região, corremos sérios riscos de episódios como este se repetirem", disse o coordenador da entidade do movimento negro Círculo Palmarino, Lula Rocha.

A ONG Raízes da Piedade, por meio de suas redes sociais, disse que “a situação da violência nos nossos morros já passou dos limites. Base da PM de enfeite. Vidas ceifadas, pessoas feridas. Mais uma noite de tiros e agonia...Confirmado que infelizmente três jovens foram executados no Morro do Moscoso, nesta noite. Muita tristeza. Outras pessoas foram feridas. O secretário Coronel disse: ‘Quem foi embora do morro, pode voltar’. Perguntamos: Voltar para morrer?”.

Mortes em 2018
Além dos irmãos Ruan e Damião, também foi executado em 2018 Lucas Teixeira Verli, de 19, que jantava na varanda de sua casa, quando foi alvejado com disparos, inclusive no rosto, no dia 28 de maio. De acordo com relatos, um grupo com mais de 20 criminosos chegou ao bairro pelo alto atirando contra as residências antes das 21 horas. Entre os atiradores, homens com máscaras para esconder os rostos. Além de Lucas, Walace de Jesus Santana foi executado pouco tempo depois.

Segundo levantamento do ativista social Jocelino Júnior, a partir de pesquisa realizada pelo Grupo Raízes, tendo como fontes dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi identificado que, entre 2010 e 2018, houve uma redução de 62,7% no número de habitantes nos bairros Fonte Grande e Piedade. “Observamos que a diminuição somente na Piedade foi de 48%”, explicou. 
 

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