O Blue Sutil de Sérgio Blank

Depois de um hiato de 23 anos, escritor lança livro com prosas e poesias publicadas nas redes sociais

Há 35 anos Sérgio Blank publicou seu primeiro livro. "Era uma produção alternativa, que foi publicada pela Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo] dentro de um projeto de lançar jovens poetas. Não deu certo. Fui o primeiro e único". A coleção não prosseguiu, mas a carreira literária de Sérgio sim, tendo lançado cinco livros de poemas e um infantil. Agora, depois de um hiato de 23 anos sem publicar obras inéditas, Blue Sutil será lançado na próxima segunda-feira (11), às 19h, na Carnielli Cafeteria, localizada no Horto Mercado, em Vitória.

Como comemoração das três décadas e meia de estreia no mundo literário, o escritor recolheu escritos feitos nos últimos dois anos, que foram compartilhados com amigos em suas redes sociais.

"Não sou uma pessoa muito ativa em redes sociais, nunca fiz blog ou site. Mas comecei a aproveitar as facilidades de se usar a internet. Tive um retorno imediato, algo diferente do livro impresso. É um retorno perigoso, por seu uma avaliação muito imediata, às vezes as pessoas olham e não leem. Mas o retorno do público foi muito grande, muitos elogios", diz com a desconfiança de um cantor caipira que ouve aplausos quando começa a tocar na cidade.

No livro, Sérgio traz um flerte entre poesia e prosa, embora não simpatize com o termo prosa poética, que considera "cafona". Um estilo literário próximo do que se encontra em Uma estadia no inferno, de Arthur Rimbaud ou em Charles Baudelaire.

O texto sutil, como sugere o título da obra, olha para miudezas físicas e espirituais, dialoga com o mundo visto do ponto de vista de um autor de carne e osso. A melancolia e memória são presentes em pequenos relatos, como este:

"Nasci em um tempo de delicadeza e amabilidades. Tinha-se por hábito consultar dicionários quando a dúvida persistia. Ou uma enciclopédia quando o ponto-de-interrogação era muito grosso. Entrar numa livraria era ritual de fé. E biblioteca era uma casa de portas e janelas abertas para as visitas. Os livros: amigos fiéis. Esse tempo conjugado se partiu. A palavra esperança se escrevia a lápis: substantivo feminino com nove letras. O cê cedilha enchia a boca ao ser pronunciado. Falava-se a palavra esperança - sinal de respeito - em voz baixa. Para não acordar o silêncio do futuro. Nasci em um tempo de gentilezas e suavidade".

A prosa de Blank reflete a busca da beleza singela do cotidiano em tempos em que a realidade parece querer nos jogar à angústia e à depressão. Mas enxergar o belo não significa fechar os olhos para as durezas da realidade, como expressa:

"Gostaria de escrever um poema sobre a elegância dos elefantes, o exercício sutil do espreguiçar dos gatos, o mistério dos átomos, o silêncio das células, os olhares de soslaio, o sotaque dos anjos. Rabiscar versos sobre a cor da minha sombra na tarde suave. Mas uma cãibra insiste em doer no coração suburbano e periférico. Espalhando afiados e pontiagudos pontos-de-interrogação".

É um livro para jogar para escanteio a pulsão de rancor e amargura expressa nos tempos de política extremada. "Estou num processo pessoal inverso. Há seis anos faço um tratamento de saúde, estou num momento quase de ermitão, buscando equilíbrio. Tenho visto intransigência e falta de diálogo, retrocesso de valores. Pensando em como posso contribuir, não quero gerar mais conflitos. Embora a tônica da minha literatura sempre teve muita ironia e senso crítico, e ainda tem um pouco, nesse livro busco uma pausa nessa intensidade que estamos vivendo, uma inspiração". Essa suavidade, esse respiro, é o que possivelmente chamou a atenção nas publicações de Sérgio em meio ao tiroteio cotidiano das redes sociais. Pequenos flocos de esperança em forma de palavra.

Voltando às origens de seu primeiro livro e partindo de sua experiência como editor ao longo de anos, o autor decidiu lançar o livro de forma independente, com sua inspiração aumentada com a entrega no final do ano passado do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura nacional, a uma obra lançada de forma totalmente independente: À cidade, de Mailson Furtado, editado e publicado no interior do Ceará, sem vínculos com editoras, venceu nas categorias Livro do Ano e Melhor Livro de Poesia.

Como Mailson, sem pretensões de chegar a algum lugar, Sérgio Blank buscou um trabalho mais caseiro. "Quis fazer algo extremamente simples, como se fosse um livro artesanal. Tenho muita simpatia pelo movimento de poesia cartoneira, mas não tenho paciência e talento para o artesanal", brinca.

Se a cor do livro é a suavidade do azul celeste, a música é o lamento e a melancolia do blues. Por isso, o lançamento do livro contará com presença do saxofonista Maestro Colibri, que vai trazer um pouco do blues, jazz e bossa nova para musicar esse Blues Sutil.

AGENDA CULTURAL

Lançamento do livro Blue Sutil, de Sérgio Blank

Quando: Segunda-feira (11/2), 19h

Onde: Carnielli Cafeteria no Horto Mercado - Rua Licínio dos Santos Conte, 51, Enseada do Suá, Vitória/ES.

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