‘O legado de Augusto Ruschi vem sendo destruído dentro do museu que ele criou’

Após denúncias de Piero Ruschi, filho do cientista, Ales prepara audiência pública em Santa Teresa

“O Espírito Santo precisa muito conhecer a sua cultura. Mas, pra isso, nós precisamos conhecer a verdade, porque, sem a verdade, a cultura é falsa. E é exatamente o que está acontecendo com Augusto Ruschi, na instituição que ele criou há mais de 60 anos”.

A denúncia é de Piero Ruschi, filho caçula de Augusto Ruschi e responsável legal por sua memória, com relação aos ataques disparados contra a obra e a história do Patrono da Ecologia do Brasil, especialmente o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão (MBML), fundado por ele no sítio de sua família, no centro de Santa Teresa, em 1949.

O MBML, prossegue Piero, está tendo a sua identidade apagada e a sua autonomia retirada, com auxílio da Sociedade de Amigos do MBML (Sambio), que deveria a proteger.  “E a população de Santa Teresa vive à margem da informação”, alerta.
 
Mesmo sendo a terra natal do cientista e sede de um dos seus principais legados, a cidade, na região serrana do Espírito Santo, narra Piero, continua silenciosa em relação ao desmonte do museu e à tentativa de destruição da verdadeira história de seu mais ilustre filho.

A criação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e sua ação predatória sobre o acervo do Mello Leitão e memória de Augusto Ruschi ocorreram de forma mais acelerada a partir de 2014, sem qualquer diálogo com a população teresense, que continua sendo enredada na falsa ideia de que o INMA e o Museu são uma coisa só e dão continuidade à luta empenhada ao longo de toda a vida do maior especialista em beija-flores e um dos mais aguerridos militantes da causa ambiental que o Brasil já teve.

Por isso, após as denúncias feitas na Assembleia Legislativa nessa segunda-feira (3), aniversário de morte de Augusto Ruschi, há 33 anos, Piero apoiou a proposta surgida na Casa de realizar uma audiência pública na cidade, para levar ao conhecimento dos teresenses a situação.

“Como acabam com o museu sem uma consulta pública? Acho um absurdo as pessoas tomarem posse de um direito sem consultar a população”, declarou o deputado Torino Marques (PSL), proponente das ações, sendo seguido por Doutor Hércules (MDB) e Capitão Assumção (PSL). “O Espírito Santo deve muito ao seu pai”. “É um ícone mundial”, afirmaram. 

Seguindo os passos

Piero também se tornou cientista e especialista em beija-flores, com graduação, mestrado e doutorado em Biologia e Zoologia. Nascido em Santa Teresa, criado dentro do Museu Mello Leitão, afirma que “se tem uma coisa que eu entendo é de Augusto Ruschi e do Mello Leitão”.

O conhecimento profundo da causa explica porque ele foi o primeiro a perceber, nos idos de 2014, o que realmente estava acontecendo nos bastidores do próprio MBML e da Sambio, instituição que deveria proteger a integridade do Museu.

“É absurdo. O desmanche lá dentro, que no passado acontecia de forma camuflada, hoje acontece às pressas, com uma agenda, assim como houve pressa pra criar o INMA”, diz. “Com muita lamentação, eu digo que apoiar o INMA é uma traição à verdade”, afirma.

As pessoas que odeiam meu pai não são apenas pessoas que odeiam o meio ambiente, são cientistas, biólogos, acadêmicos”, elenca. E o Mello Leitão tem esse tipo de coisas o parasitando, há muitos anos, desde a morte de Augusto Ruschi, reconhece Piero. Por isso, durante as últimas três décadas, o que reduziu drasticamente a sua produção científica, o colocando numa posição muito modesta no cenário nacional.

Em Santa Teresa, narra, “tentam camuflar esse absurdo dedicando um memorial ao meu pai. Pessoas que agem sorrateiramente pra destruí-lo, ainda querem escrever sua memória intelectual? Isso não é cultura. É cultura de desrespeito!”, enfatizou, justificando o direcionamento de suas denúncias ao presidente da Comissão de Cultura e Comunicação da Assembleia, Torino Marques. “O INMA não tem o consentimento para falar em nome do meu pai”, asseverou.

Em seu canal no YouTube, informou Piero, há vários vídeos que detalham a ação orquestrada por inimigos de seu pai. “Faço isso em prol da sociedade. O comprometimento com a verdade sobre o Patrono da Ecologia é fundamental pra defender sua obra cultural e socioambiental”.

A audiência pública em Santa Teresa ainda não tem data marcada, sendo esperada para o próximo mês de julho.

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